Manhã, silenciosa e cinzenta. Um cenário que parece já nos introduzir a alguma ideia do que nos aguarda pelo resto do dia.
Pode-se dizer tantas coisas, só ao abrir os olhos e ver o que está ao nosso redor. Um simples feixe de luz que entra pelos vãos da janela do quarto pode dizer muita coisa. Ou aquele barulho de chuva forte ou fraca, também já nos diz muito sobre o que virá pelo dia.
O simples fato de acordar deveria significar algo tão simples para as pessoas. Pelo menos, deve significar para muitas. Mas para alguns, acordar tem diferentes significados. Acordar traz diferentes emoções.
Muitos acordam com a inspiração de um novo dia! Novas coisas para se fazer, descobrir, aprender! Pessoas que tem muita coisa pela frente, muita coisa para viver!
Para Terry não era assim. Todos os dias em que acordava, lembranças vinham à tona. Ele se lembrava de coisas boas que havia vivenciado recentemente. Porém, essas boas lembranças eram cruelmente esmagadas por outras péssimas. O que não foi diferente naquela manhã. Mas o que ele havia sonhado na noite anterior, havia sido intenso demais para que fosse apenas mais um dia de sua vida.
Em meio a sustos, breves cochiladas e muito tormento, Terry sonhou que estava sentado em uma cadeira de balanço, suspensa por correntes, na varanda de alguma casa que ele não reconhece.
Cabisbaixo, ele sentia a cadeira balançar suavemente com o vento. E de surpresa, alguém surgia na sua frente. Uma mulher. Uma garota, quase mulher, na verdade. Ela surge do nada, em sua frente e levanta o rosto de Terry com uma das mãos. Ele a olha bem nos olhos e ela apenas sorri.
- Por favor... não me deixa. Volta pra mim... - diz Terry.
- Eu jamais vou te deixar, tolinho. Não sabe que te amo?
E seu sonho não foi abruptamente interrompido. Não acordou assustado nem nada do tipo. Terry simplesmente acorda lentamente. O peso do corpo quase o proíbe de sair da cama. Com dificuldade ele consegue achar o interruptor da luz, perto da guarda de sua cama. Ele pega seu celular para olhar a hora. 5:00.
- Ah, droga... de novo isso...
Todo dia, Terry estava acordando sozinho às cinco horas da manhã. Sem despertador, sem nenhum ruído, sem nada que pudesse estar causando seu despertar, apenas sua própria mente e seus sonhos. E embora este último tenha sido muito real, Terry sabia que não passava de um sonho. Que ele na verdade, desejava com todas suas forças, que fosse verdade.
A garota que ele via em seus sonhos, era Laura. Laura fora sua namorada e noiva, por pouco mais de 10 anos. Muito tempo juntos. Muitas coisas eles fizeram juntos. Planejaram toda uma vida juntos. O lugar onde iriam morar ao se casarem, o nome dos filhos e até as festas que fariam quando estivessem morando juntos.
Terry tinha 24 anos. Laura tinha 23.
Laura estava morta.
Terry lembra-se com clareza, todos os dias, do dia em que Laura ficou presa dentro do chalé em que eles estavam passando alguns dias de férias de seus trabalhos. Os dois estavam juntos desde muito novos, e desde então, faziam tudo juntos, inclusive tirar férias de seus trabalhos. E numa manhã dessas férias, Terry acordou antes de Laura, o que era normal. Ele olhou para Laura, com o cabelo todo bagunçado, dormindo tão tranquilamente, tão linda. A luz matinal entrando pela janela e colorindo o quarto em que estavam, parecia ser uma pintura perfeita, desenhada pelas mãos do melhor pintor já existente.
Terry deu um beijo na testa de Laura e resolveu sair para se espreguiçar ao ar livre. Aproveitar o cenário lindo para fazer algo diferente. Na varanda do chalé, ele esticou bem os braços, respirou fundo e sentiu-se absurdamente inspirado por aquela manhã linda. Ele então resolveu andar um pouco mais adiante, até chegar perto de um caminho que levava para dentro de uma floresta. Terry olhava para aquela imensidão da natureza e ficava encantado. A luz do sol, o verde das folhas, as árvores tão bem esculpidas... tudo perfeito. Então, ele sentiu algo pesar em seu bolso.
Havia um maço de cigarros nele.
Terry estava parando de fumar, e havia prometido para si mesmo e para Laura que durante aquelas férias, não fumaria nem um cigarro sequer. Mas aquela cena inspiradora requeria um cigarro. Terry então pegou o maço e acendeu um cigarro. Deu uma bela tragada e sentiu um prazer que podia se dizer ser errado. Mas foi algo tão bom... tão gostoso, mesmo que errado.
Em meio ao prazer das tragadas daquele cigarro, Terry ouve um grito. Um grito feminino. Parecia tão distante, ele ficou perdido sem saber de onde vinha. Então, ao olhar para trás ele percebe que o chalé em que eles estavam hospedados, estava em chamas.
- LAURA!
Terry corre desesperado até o chalé. A cena era desesperadora. As labaredas de fogo saíam pelas janelas e pela porta de entrada. Terry gritava desesperado, enquanto ouvia os berros de Laura lá dentro da casa.
Num impulso louco, ele resolve entrar correndo na casa, a fim de enfrentar as chamas e tirar Laura de lá. Sabia que se queimaria, mas não se importava. E assim o fez. Ao passar pela porta, o calor insuportável do fogo passou a queimar sua pele. Rapidamente, ele já se direcionou até uma pequena escada que levava até o único cômodo que havia na parte de cima, o quarto em que eles dormiam, onde Laura deveria ainda estar. Laura estava tentando apagar as chamas de si mesma, enrolando-se num lençol, deitada no chão. Mas não adiantava, parecia que a pele de seu corpo era um combustível pra todo aquele fogaréu. Ao se deparar com aquela cena, Terry entrou em desespero. E não chorava, porque não havia condição de chorar naquela angustia toda. Ele pegou Laura nos seus braços, enrolada nos lençóis e saiu da casa. Já lá fora, Terry percebe o estrago que o incêndio havia feito em sua pele. Seus braços, parte de seu rosto, as costas, o cabelo, tudo queimado. Mas pior que ele, estava Laura, destruída pelo fogo. Ela ainda gemia de dor, mas já não gritava mais. Terry segurava nos braços, o corpo todo queimado de Laura, tentando ter o máximo de cuidado para não a fazer sentir ainda mais dor, mas de nada adiantava. O corpo de Laura estava totalmente queimado. Ela tentava dizer alguma coisa, ou fazer qualquer coisa, desesperada de tanta dor, e Terry não sabia nem mesmo pra onde olhar. Alguns poucos minutos foram o suficiente pra que toda vida que havia naquela garota, se acabasse.
Não houve como chamar socorro pois eles não haviam levado celulares. E mesmo que houvessem, já era tarde demais.
Na mesma tarde, a polícia chegou ao local, depois que Terry viu que nada poderia ser feito e foi até a cidade para chamá-los. A polícia registrou o caso como um acidente. Bombeiros e a perícia local não conseguiram descobrir o que foi o causador do incêndio. Cogitavam a hipótese dele ter sido causado por algum curto na fiação da casa, mas nada conclusivo.
Até o presente dia, Terry não consegue apagar essas lembranças. E já havia um ano que isso acontecera. Mas todo dia era um tormento para Terry. E aquele em especial, que ele acordou novamente e PONTUALMENTE às 5:00.
Terry precisava levantar apenas 07:00. Mas não adiantava ele tentar voltar a dormir, porque não conseguiria. Nas primeiras vezes até tentou, mas não adiantava.
Ele senta na cama e fica imóvel. Havia perdido muito peso e estava muito fraco. Ele então resolve se levantar e ir até a cozinha, pra tomar um café ou qualquer coisa. O sol ainda não havia nascido então era preciso acender as luzes da casa para chegar até onde ele queria. E chegando à cozinha ele começa a pegar as coisas necessárias para fazer o café.
Em meio àquele silêncio da manhã, o som das portas dos armários e tudo mais, pareciam quebrar toda a calmaria. E os minutos em que Terry esperava para a água ferver, pareciam horas. Pois a todo segundo ele pensava em Laura. E em tudo que havia acontecido.
Terry simplesmente não conseguia seguir sua vida em frente. Ele simplesmente não conseguia aceitar. Ou entender.
O tormento em sua mente estava fazendo com que Terry morresse aos poucos.
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Terry
Mystery / ThrillerMuitas coisas que acontecem em nossas vidas, passam despercebidas. Muitos momentos únicos, que deveriam ser lembranças maravilhosas para nós, em sua grande maioria, nem chegam a serem notadas ou guardadas em nossa memória, enquanto outros péssimos...
