Capítulo 9

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Quando percebi o que estava acontecendo, afastei-me de imediato.

— Não Alice, eu não posso fazer isso com você.

— Não entendo… Por que diz isso?

Apesar de que dizer a verdade fosse o melhor caminho, não podia destruir os sentimentos de Alice. Então, apenas sai dali, deixando-a sozinha.
Naquele momento, eu não a olhei nos olhos, mas pude ver em seu tom de voz que ela estava decepcionada. Isso me magoou profundamente.

— Onde vai sem me dizer nada? — dizia, visivelmente magoada.

— Desculpa, não quero te machucar.

Então, apenas me retirei dali o mais rápido que pude.

É inevitável não pensar em como fui idiota ao deixá-la sozinha. Sequer tive coragem de dizer que não a amava, que tudo que sentia por ela era um carinho de irmão, ou que sentia algo por alguém, mas não confessava para mim mesmo. É impossível não lembrar da Lana, em como me sentia ao pensar nela e como eu estava sendo imbecil por não ter a mínima coragem de confessar meus próprios sentimentos.

Passei o resto da noite trancado em meu quarto, escrevendo textos aleatórios como sempre costumava fazer. Escrever sobre meu cotidiano era uma válvula de escape para meus problemas e conflitos internos, mesmo que não os resolvesse. Durante toda aquela noite, me senti um completo idiota.

***

Normalmente aos domingos, costumava acordar mais tarde que o habitual. Nesse dia em especial, acordei cedo com a ligação do Augusto, que me convidou para um piquenique onde iriam alguns colegas da faculdade. Recusei o convite no mesmo instante, não estava nem um pouco afim de sair. Está bem, confesso, na verdade eu quase nunca estou afim.

Muitas vezes cheguei a pensar que as pessoas se afastaram de mim por livre e espontânea vontade, mas tenho que confessar que na maioria das vezes, eu é que me afasto delas. Acho que por isso sempre tive certa dificuldade em manter amizades.

Estava escutando uma música qualquer do The goo goo dols — afim de esquecer a minha atitude imbecil no dia anterior —, quando Dona Mariana entrou no quarto sem bater a porta e por sinal, nada discretamente.

— Olá, Ricardo – falou, em um tom irônico e diferente do habitual.

— Dona Mariana... Está tudo bem? – pergunto, um pouco surpreso depois da invasão que acabara de acontecer.

Ela posicionou as duas mãos na cintura, olhando-me séria. Era a primeira vez que não a via sorrindo.

— Eu que pergunto. Está tudo bem?

Já previa o porquê de sua visita e só poderia ter a ver com Alice.

— Mais ou menos – respondi.

— Pois bem, vou ser direta – iniciou – Minha Alice chegou em casa chorando muito ontem. Então, tem algo a me dizer?

— Dona Mariana, eu...

– Ela interrompeu-me — Olha Ricardo, só te peço que não faça mal a Alice. Porque se isso acontecer, eu não responderei por mim! E se for para fazer mal a minha sobrinha, acho melhor que se afaste dela de uma vez.

Suas últimas palavras  foram cortantes. Não me imaginava longe de Alice, precisava dela, do seu apoio, de sua companhia. Embora não fosse o mesmo sentimento que sinto pela Lana, eu sentia muito carinho por ela.

— Nunca faria mal a ela, acredite. Ela é como uma irmã para mim.

Ela continuou a me olhar séria, com uma expressão no olhar a qual nunca vi antes.

— Só espero que veja o que está diante dos seus olhos, garoto.

Dito isso, ela saiu.

Eu não tinha intenção de magoar a minha melhor amiga e justamente por esse motivo, não posso mentir para ela. Prometi para mim mesmo que seria o mais sincero possível com ela e é isso que farei.

Pretendi conversar com Alice no dia seguinte, precisava tirar tudo isso à limpo, porém, o destino foi meu aliado e ela bateu em minha porta logo em seguida.

— Oi – digo, ao abrir a porta, sem saber o que falar.

— Posso entrar? – pergunta, um pouco cabisbaixa.

— Claro que sim – respondi, abrindo espaço para que entrasse.

Ela entrou discretamente e sentou ao meu lado em um pequeno sofá, que havia no quarto ao lado da minha cama.

— Eu sei que a minha tia veio aqui agora pouco e, sabe, não precisa se culpar pelo que ela pode ter te dito – falou.

— Ela não disse nada demais, fica tranquila.

— Mesmo assim, não precisa se preocupar. Sei como a minha tia é, e pode ter falado alguma besteira.

— Tudo bem, eu entendo, ela só se preocupou com você.

— Bom... – Ela continuou, mudando imediatamente de assunto – Eu só vim até aqui porque quero uma resposta sua, Rick. Por que saiu daquele jeito depois que nos beijamos? 

Me senti um idiota naquele momento. Na verdade, quase sempre sou. Alice estava visivelmente magoada e eu era o único culpado, me senti péssimo por isso.

— Desculpa, sei que não fiz a coisa certa, só não quis te magoar e...

— E foi exatamente o que você fez, engraçado, não? — falou, brava.

— Alice, eu...

— Ela interrompeu-me outra vez – Pode me contar a verdade Ricardo, eu vou entender. Agora o que você não pode fazer é fugir de mim desse jeito, isso machuca, entende?

— Perdoe-me... Olha, aquilo não deveria ter acontecido. Não quero iludir você.

Ela olhou-me séria, em seus olhos já conseguia ver uma lágrima que estava teimando em cair no seu rosto. Senti-me culpado, mas sabia que tinha que continuar.

— Porque diz isso? – perguntou, com um olhar triste que cortou meu coração.

— Você é minha melhor amiga, como se fosse uma irmã para mim. Mas eu não posso mentir, Alice... Eu não gosto de você diferente disso.

Como previsto, os olhos de Alice se encheram de lágrimas, as quais ela enxugou rapidamente. Tentei acalmá-la, entretanto, ela se negou a qualquer abraço.

— Tudo bem, está tudo bem – dizia, contendo suas lágrimas – Eu sei que não posso te forçar a sentir nada por mim e sabe, eu te entendo. — Suspirou. — Me responde somente uma coisa...

Apenas assenti, desconfiando do que iria perguntar.

— Você sente algo pela Lana, não sente?

Não era fácil admitir, mas não podia mais mentir. Por anos escondi esse sentimento para mim mesmo, porém, não via mais motivos para mentir naquele momento.

E pela primeira vez, confessei algo que tinha guardado para mim há muito tempo.

— Sim, eu sinto. Isso eu não posso mais negar.

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