Capítulo 4

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Abro os olhos lentamente e percebo que o quarto está escuro, ainda não havia amanhecido. Deslizo o dedo sobre a tela do celular e vejo que ainda são quatro e meia da manhã, mas me levanto mesmo assim. Meu trabalho é ao meio dia, porém, ainda tenho muitas coisas para arrumar e planejo chegar a pousada de Dona Mariana antes do café. Para ela eu já sou quase de casa, pois nunca se importou que aparecesse lá sempre que quisesse.

Peguei tudo o que precisava para dar o fora dali. Basicamente as coisas que me pareciam mais importantes: Minhas roupas, todos os meus livros e alguns pertences e documentos pessoais. Parei de súbito. Por um momento lembrei de todas as vezes em que minha mãe esteve comigo naquele lugar, recordações de quando ainda era garoto se fizeram presentes em minha mente. Olhei uma última vez o meu quarto antes de fechar a porta. Lembrei do dia em que ela pediu que eu escolhesse como gostaria da decoração, a qual permanece até hoje, tirando algumas mudanças na mobília. Era incrível como todas aquelas lembranças ainda estavam tão vivas em mim.

Era impossível olhar para aquela casa e não lembrar da minha mãe. Tudo remetia a ela, tudo tinha um toque seu e de alguma forma, eu ainda sinto sua presença nesse lugar. Talvez Seja uma das razões que me fizeram permanecer nesta casa, mas sei que agora preciso recomeçar, tudo ficou para trás. Menos suas lembranças em meu coração.

Assim que arrumei todas as minhas coisas fui até a cozinha, onde Lana preparava alguma coisa no fogão.

— Acordado tão cedo? — perguntou, assim que me viu aproximar.

— Digo o mesmo pra você. Mas eu vou embora hoje, esqueceu?

— É verdade... — Olhou para mim com uma expressão triste, percebi que não estava satisfeita com minha decisão. — Achei que iria depois do trabalho.

— Não, eu vou agora. Só passei para me despedir.

— Tudo bem. Se cuida, vou sentir sua falta. — Sorriu — Sei que vai conseguir se virar.

— Eu também, Lana. Obrigada.

Após dar-lhe um rápido abraço, — o qual gostaria que durasse mais tempo, — eu saí. Ela olhou uma última vez e sorriu, antes que fechasse a porta.

Cheguei a pousada de Dona Mariana e fui recebido com abraços apertados. Ela me mostrou o quarto onde iria ficar, um lugar simples mas muito confortável. Na cor bege e verde bem claro, com um banheiro pequeno, do tamanho ideal pra quem mora sozinho — o que é ótimo — uma cama, um sofá, uma cômoda pequena, um lugar para pôr meus livros e um abajur. Perfeito. O quarto não era grande como o meu, mas também não era pequeno, e além disso, tinha uma bela vista do bairro. A vantagem a mais é que a faculdade também fica aqui em Botafogo, o que me faz ganhar mais tempo e economizar dinheiro com passagens.

Alice me convidou para tomar café na casa dela, e eu não poderia dispensar. Estava faminto.

— Então querido, o que achou do seu quarto? — perguntou Dona Mariana, enquanto nos servia o café.

— Muito confortável, obrigada — respondi com um sorriso.

— Poderia fazer suas refeições sempre aqui conosco — sugeriu.

— Não quero incomodar...

— Não incomoda, será um prazer tê-lo conosco, não é mesmo Alice?

Alice sorriu, me encarando.

— Claro que sim, tia.

— Obrigada Dona Mariana. Agradeço de todo coração o apoio que está me dando — digo.

— De nada, querido. Conte sempre conosco.

Logo após o café, segui para meu novo cafofo onde passaria pequenas partes do meu tempo. Descansei um pouco e depois tomei um longo banho para ir trabalhar. Por sorte, o local onde trabalhava não ficava tão longe dali, outra vantagem.

Trabalhava em uma empresa de telemarketing como operador. Era responsável pelo Serviço de atendimento ao cliente da mesma. O bom de trabalhar com telemarketing é que são apenas seis horas, — o que me disponibiliza tempo para estudar —, esse fator seria difícil com qualquer outro emprego. Além disso, paciência é o que me sobra, então não foi difícil me adaptar a rotina do Call center.


***

Uma semana havia se passado desde que saí de casa e sinceramente, estava gostando da sensação de morar sozinho. Ter seu próprio canto, privacidade e independência, é simplesmente gratificante. Apesar das responsabilidades que tenho que ter, não posso deixar de negar isso. 

Chegava em casa por volta das sete e meia da noite, o que me dava tempo de fazer alguma coisa antes de "capotar" na cama. Naquele dia em especial, cheguei do trabalho exausto. Resolvi ligar a TV para ver meu seriado favorito, The Walking Dead — que já estava passando. De repente, meu celular começou a tocar ao lado da minha cama, assustei-me ao notar que se tratava da Lana.

Atendi de imediato.

– Oi, Lana?

– RICARDO POR FAVOR ME ESCUTA! – começou a gritar.

– Calma, o que tá acontecendo?

– O seu pai Ricardo... ele está transtornado! Por favor, me ajuda!

– Eu estou indo ai. Se tranca no quarto e fica calma.

Desliguei o celular e saí do quarto desesperado. Meu coração acelerou em uma fração de segundos. Para Lana me ligar do jeito que aparentava, meu pai só poderia ter feito algo muito sério. Resolvi pegar um táxi para chegar mais rápido e para minha sorte, consegui encontrar um a tempo. Em mais ou menos trinta e cinco minutos estava de frente aquela casa. A casa em que um dia fui tão feliz, mas que agora só restavam-me meras lembranças.

Toquei a campainha, mas ninguém atendeu. Notei que a porta estava aberta, então entrei rapidamente.

— Lana? — digo, ao entrar pela porta devagar.

A casa estava completamente silenciosa, nem um ruído sequer, parecia não ter ninguém.

— Tem alguém aí? — perguntei novamente.

Nenhuma resposta. Caminhei lentamente em direção ao quarto e abri a porta devagar. Lana estava caída no chão, desacordada. Meu corpo inteiro paralisou.

Peguei-a no colo e coloquei na cama. Tentei acorda-la, mas não obtive sucesso. Sentei ao seu lado e esperei até que recordasse os sentidos. Algum tempo depois, ela acordou, estava extremamente assustada.

— Onde está o Richard? Onde está! — perguntava. Seu rosto calmo e sereno de sempre, agora revela medo e angústia.

— Não sei Lana, o que aconteceu aqui?

— Seu pai chegou do trabalho e disse que ia sair, eu perguntei onde ele ia e ele falou que não devia satisfações a mim — dizia, enquanto lágrimas desciam sem parar — Ele estava alterado, parecia ter bebido, começou a dizer coisas horríveis e disse que eu não mandava na vida dele... Foi horrível. Você precisa procurá-lo, Rick.

— Não, de jeito nenhum. Eu não vou procurar aquele homem. — Suspirei, tentando conter a minha raiva — Agora me diz, Lana, por que você estava desmaiada aqui?

Ela desviou o olhar e percebi de imediato que escondia alguma coisa. Sabia que não olhava ninguém nos olhos quando estava mentindo ou nervosa.

— Eu tropecei quando estava nervosa e acho que acabei batendo em alguma coisa e desmaiando... Não me lembro no que foi muito bem.

— Você tem certeza? — Olhei em seus olhos — Tem certeza que não foi ele?

— Por favor, precisamos encontrar o seu pai, ele não está bem. — insistiu, nervosa.

— Encontrar o meu pai? Não Lana, eu não vou atrás daquele imbecil. A única coisa que me fez vir até aqui foi você. — Suspirei e disse, tentando conter a minha raiva — E você vai embora agora mesmo comigo.

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