Capítulo 1 - Dezenove

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Preciso contar como tudo isso começou.

Não quero falar sobre onde estou, não ainda. Mas acho que vai ser bom escrever. Quem sabe eu tenha herdado um pouco do talento da minha mãe? De qualquer modo, eles me deixaram estes pergaminhos, uma pena e um tinteiro. O Ceifador tem medo de que eu perca o juízo, por isso mandou os coletores me oferecerem mais uma distração; esta foi a única que eu aceitei. Poderia até rir da "preocupação" dele, se eu também não estivesse com medo. Lua de prata... sim, eu estou com medo.

É por isso que preciso escrever, mais do que quero. Preciso botar tudo para fora, senão sou bem capaz de perder o senso, e não posso me dar ao luxo de ficar louco. Não depois de ele ter morrido para tentar me salvar.

Droga. DROGA. Ainda não consigo falar sobre isso. Dói demais.

A culpa é toda minha, sabe? Não que eu tenha desejado o que aconteceu. Deusa, nunca. Mas se eu não tivesse o sangue que tenho, se não tivesse meu maldito dom, não estaria aqui. E não é só isso. Fiz tudo errado. No começo, fui forçado, mas depois... eu quis ajudar. Eu quis segui-la. Eu desejei ser útil, ser mais do que um fardo, e este foi o meu erro. Dei a mão a ela, uma estranha, e selei quase uma dezena de destinos além do meu. Puxei um fio e percebi tarde demais que estava desmanchando um tapete inteiro. Que direito eu tinha? Nenhum, mas eu não sabia. Eu queria ajudar.

Só que, como dizem os bardos, de boas intenções o abismo está cheio.

                                                                                                  ***

Pronto. Tracei uma linha, contei até dez e comecei de novo. Se continuar me lamentando, vou acabar estirado no chão, chorando meus arrependimentos, incapaz de fazer qualquer outra coisa. O objetivo não é esse. Quem sabe ainda haja alguma esperança? Tenho que acreditar. Mas enquanto a luz não vem, deixe-me voltar ao início. Meu início.

As coisas começaram a ficar estranhas muito cedo. Eu era um menino e me lembro da primeira vez em que fui fechado. Tinha acabado de fazer quatro anos quando caí doente, muito doente, a ponto de quase enlouquecer meus pais – me recordo até hoje que minha mãe se escondia no próprio quarto para poder chorar, mas eu ouvia. Eu ouvia e sentia tudo, porque estava completamente aberto.

Meus pais não sabem até hoje o motivo. Eu nunca quis contar, porque a imagem daquela mancha negra tomando conta da aura da minha avó ainda me assombra. Foi a primeira vez que tentei tirar uma mancha, e foi simples: eu coloquei a mão onde o borrão escuro estava e desejei profundamente que ele sumisse (daquele jeito que só as crianças conseguem). Fiz isso enquanto minha avó me pegava no colo, sem que ninguém soubesse. Minutos depois, a tosse insistente que ela combatia há mais de uma semana simplesmente cessou. A mancha que tanto me incomodava foi embora e eu fiquei feliz, achando que nada mais aconteceria.

Mas as consequências vieram, é claro, e foram terríveis. Primeiro, a febre. Alta, bem alta. E depois, os tremores. Eu não controlava meu corpo; ele se retorcia contra a minha vontade e eu me sentia um prisioneiro dentro de mim. De tão apavorado, perdi o rumo, vendo e ouvindo demais, milhares de vozes ao meu redor, algumas pedindo ajuda, outras gargalhando zombeteiras, e ainda outras me ameaçando... e também havia os vultos, as sombras, os sorrisos de lobos famintos feitos de névoa, os seres de luz e de escuridão...

Eu não conseguia voltar. Não conseguia. Me encolhi em algum canto de minha própria mente, enquanto meu corpo padecia no mundo das coisas tangíveis. Lembro apenas de fragmentos do que vi e ouvi nesse período, mas ainda me recordo muito bem do meu pavor e da sensação tenebrosa de tentar gritar e não encontrar a própria voz. Eu acreditei que estava preso, sem retorno ou saída, e se eu não controlava meus braços e pernas, controlava menos ainda minha bexiga ou entranhas. Coitada da minha mãe. Devo ter sujado uma dezena de lençóis – infelizmente me lembro bem do cheiro desagradável daquelas noites febris - mas depois de um tempo não havia mais água ou qualquer outra coisa para expelir. As horas transformaram-se em meses dentro da minha consciência esmagada pelo terror.

Em algum momento eu sucumbi, exausto. Fui me dar conta de que ainda existia apenas dias depois, no colo de meu pai. De repente, eu senti o cheiro dele – um cheiro limpo, agradável, seguro – e ouvi sua voz calma e suave recitando um mantra. Eu o agarrei com meus braços fracos, me encolhendo, e chorei baixinho apenas porque não tinha forças para gritar. Ainda me lembro de como ele devolveu meu abraço em um aperto firme, que me acolheu como um ninho. Quando consegui erguer a cabeça, eu vi que meu pai ainda recitava o mantra, de olhos fechados, mas havia lágrimas correndo por seu rosto. Hoje sei que eram lágrimas de alívio, as mesmas que minha mãe derramou na hora em que me viu desperto. Ela estava ali, de pé, pouco afastada de nós... Havia uma menina sentada ao lado dela. Uma garotinha loira, que sorria. Eu soube antes de todos que ganharia uma irmã, e aquela foi a última visão que tive na época.

Descobri, depois, que meus pais haviam estado enfurnados naquela sala privada do templo da Lua por dois dias seguidos, trabalhando juntos para me fechar. Selar, melhor dizer. Fui me lembrando aos poucos do que tinha acontecido: primeiro, meu pai selou minha visão e eu parei de ver as sombras e os monstros de névoa, mas ainda podia sentir o cheiro azedo do meu próprio suor e a carniça de alguma coisa que só podia estar morta. Quando papai selou meu olfato, eu me voltei para os tentáculos gelados que ainda deslizavam pela minha pele. Depois que isso também foi embora, sobraram apenas os sussurros, as vozes cruéis que me diziam que nunca mais sairia dali. Mas ouvi minha mãe cantando e, finalmente, nem isso restou; mergulhei em um estado de torpor do qual fui retornando aos poucos.

Ao me selar, meus pais haviam me protegido de mim mesmo. Anos depois, papai me ensinou o mantra e o encantamento que tinha feito com meu eu de quatro anos. Me mostrou como desenhar o círculo de runas no chão, me disse onde e como acender o incenso, fez com que eu memorizasse todos os passos do ritual que ele aprendera com minha avó Driali. Mas eu sabia – e ele e minha mãe também – que eu voltaria a ver mais cedo ou mais tarde. Então, pedi a meu pai que me ensinasse a lidar com isso.

E foi assim, eu acho, que me tornei um clérigo.

Como tínhamos previsto, minha sensibilidade retornou. Tive inúmeros problemas por conta disso, mesmo com o treinamento de meu pai. Eu via as cores – as auras – e as manchas nelas. Às vezes, simplesmente conversava com a pessoa e a mancha sumia; quando isso não funcionava, eu fazia o que tinha feito com minha avó. Era bom poder ajudar, mas o problema é que depois vinham os desmaios, as convulsões, o vômito, a febre.... Eu percebi que "sugava" certas manchas e não sabia lidar com o que recebia quando estava aberto. Meu pai tentava me ensinar, devagar, tateando um território inexplorado.

As manchas.... Tantas! Elas sempre doem nas pessoas, sempre. Me parece muito cruel fechar os olhos para isso. Nem é questão de coragem; aprendi muito cedo que a motivação é uma coisa complexa, sutil. Há quem passe anos acreditando fazer suas boas ações por virtude, mas de repente descobre o verme da vaidade lá no fundo, crescendo, engordando. Em uma situação tão óbvia como a minha, alguma coisa vai te impelir, seja bondade, culpa, ego ou senso de dever. Para mim, este último era o que mais pesava.

Mamãe e minha irmãzinha, Lyriel, odiavam isso. Elas não queriam que eu me arriscasse. Queriam que eu simplesmente esquecesse o que podia fazer, principalmente a Lily. Meu pai, por outro lado, insistia com o treinamento porque sabia que eu – apenas eu – desejava continuar. Imagine: você é um padeiro com muita farinha, água e ovos à disposição. De repente se vê em uma cidade abarrotada de gente desnutrida. Era assim que eu me sentia o tempo todo. Sempre tinha alguém com fome e eu sabia fazer pães. Só que assar meus pães me deixava doente, então eu rezava a Deusa pedindo orientação.

Era solitário. As respostas não vinham. E não havia ninguém como eu em Silena, nem entre os clérigos. Ainda assim, eu tinha que continuar. Quando me questionavam, eu dizia que era minha obrigação, que era o que eu desejava fazer. Verdade, mas isso nunca me livrou de ficar confuso. Ver Lyriel chorar, minha mãe com medo, meu pai com os ombros arqueados... Eu vivia me desculpando. "Sinto muito, mãe. Sinto muito, Lily".

Manchas, cura, culpa... Os ventos do meu moinho. As pás giravam, farinha, pão, farinha, pão, farinha... os anos passaram e tudo teria continuado assim, não fosse uma tempestade chegar.

Eu tinha dezenove quando tudo mudou.


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