Algumas horas antes...
O ponteiro do relógio mal havia riscado às seis da manhã quando Alejandro recebeu o relatório. O apartamento ainda cheirava a madeira polida e charuto frio.
— Ele se manteve afastado, senhor — informou o homem de confiança, voz tão neutra e firme quanto o corte de seu terno. — Desde que recebeu alta do hospital, não tentou nenhum contato direto com a senhorita Camila.
Alejandro folheou o dossiê, seus olhos capturando cada detalhe em segundos. Fotos de longa distância, horários meticulosos, a rotina banal de um homem tentando desaparecer: café, casa, silêncio.
— E, no entanto, ela permanece próxima — comentou, sem levantar os olhos das páginas.
— Sim, senhor.
Alejandro fechou o arquivo com um estalo seco. Não era surpresa. A escolha de Camila ecoava em sua mente, feita semanas atrás na penumbra deste mesmo escritório, com uma convicção que não admitia réplica: "Eu assumo o legado. Mais Lawrence fica."
Permitir que aquele homem respirasse o mesmo ar que sua filha não era uma mera concessão paternal; era um risco calculado. E na álgebra do poder, riscos exigiam provas.
— Prepare o carro — ordenou, o tom baixo carregado de uma intenção perigosa. — Hoje, vamos descobrir até onde a coragem desse homem realmente vai.
Dinah, um vulto elegante ao seu lado, fitou-o com olhos analíticos.
— Vai ameaçá-lo?
Alejandro ergueu um canto dos lábios, um esboço de sorriso que não chegou aos olhos.
— Não. Vou oferecer a ele uma escolha. E descobrir se o amor que ele professa resiste ao peso do medo.
Presente
O café havia sido esvaziado, sua atmosfera acolhedora violentamente substituída por um vácuo gelado e estéril. As mesas foram empurradas para as paredes como espectros mudos. No silêncio opressivo, o tique-taque do relógio soava como a contagem regressiva de um fuzil.
Lawrence estava sentado numa cadeira simples no centro do salão, os ombros contraídos sob o peso de incontáveis olhares. Suas mãos, entrelaçadas no colo, lutavam para disfarçar um tremor traidor. À sua frente, atrás de uma mesa que mais parecia um tribunal, Alejandro observava-o com uma impassibilidade de pedra. Dinah permanecia ao seu flanco, uma sombra elegante e silenciosa.
Atrás de Lawrence, os capangas — Normani e Jason — mantinham-se rígidos, seus corpos tensionados como molas prontas para se desenrolar em violência.
Alejandro quebrou o silêncio, sua voz um corte limpo no ar:
— Então, Lawrence... você afirma amar minha filha.
Era uma afirmação, não uma pergunta. O coração de Lawrence acelerou, bombardeando seus ouvidos.
— Amo — sussurrou, a voz falhando, antes de encontrar um fio de coragem para firmá-la. — Sim, eu a amo.
Alejandro inclinou-se para a frente, apoiando os antebraços na mesa. As luzes baixas criavam sombras profundas em seu rosto.
— E você está disposto a permanecer ao lado dela? Mesmo sabendo quem ela é... e o monstro que meu legado vai forçá-la a se tornar?
A imagem de Camila invadiu a mente de Lawrence — não a herdeira da máfia, mas a mulher de riso fácil e olhos teimosos que ele conhecera. A lembrança doçura que tentaram roubar.
— Estou — disse ele, a voz mais firme. Mas então uma sombra mais escura, mais visceral, passou por seu rosto. — Mas... — respirou fundo, lutando contra a umidade que teimava em seus olhos — Se o preço for a vida da minha mãe... Se amar Camila for a sentença de morte dela... então eu abro mão. Eu largo tudo e sumo.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que parecia sufocante. Até Dinah, por um microssegundo, desviou o olhar, impactada pela cruez daquela declaração.
Alejandro não se moveu, mas seus olhos se estreitaram, recalculando, reavaliando cada átomo do homem à sua frente.
— Então me diga — sibilou ele, pausadamente, como se cada palavra fosse um passo sobre um piso de vidro — Se eu lhe garantir que sua mãe estará segura, que minha sombra nunca mais tocará a vida dela... você ainda assim escolheria estar ao lado de Camila? Mesmo sem o medo para pressionar sua resposta?
Lawrence ergueu o rosto, a surpresa lutando contra o medo. E então, encontrou algo: um núcleo de verdade inabalável dentro de si.
— Sim — a palavra ecoou, clara e limpa no espaço vazio. — Eu a escolheria mesmo sem o perigo. A escolheria mesmo que fosse fácil. A escolher pelo que somos, não pelo que fugimos.
Alejandro recostou-se na cadeira, um movimento quase imperceptível que soou como o cair de uma machadinha. O veredito, silencioso, estava dado.
Foi quando a porta do café se abriu.
O estalo dos saltos de Camila ecoou como tiros no piso de madeira. Ela irrompeu no ambiente, queixo erguido, olhos faiscantes e fixos no pai, como se tivesse sentido, por instinto, que o seu destino estava sendo negociado naquele preciso instante.
Alejandro virou-se lentamente para encará-la. Um sorriso verdadeiro, enigmático e carregado de um orgulho perverso, surgiu em seus lábios.
— Finalmente — disse, sua voz, um murmúrio que preencheu todo o cômodo. — Chegou a peça que faltava.
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Fora das Sombras
FanfictionApos muitos altos e baixo, sera que o amor de Camila e Lawrence ira sobreviver fora das sombras? venha comigo nessa jornada para descobrimos.
