Capítulo 1: O Cotidiano do Caos

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A rotina na Creche São Cipriano iniciava-se impreterivelmente às sete da manhã, sob o zumbido constante de insetos que não existiam no plano físico, mas cujas asas invisíveis vibravam contra os vidros das janelas, emitindo um som de estática elétrica. Helena caminhava entre as mesas enfileiradas, o jaleco impecavelmente branco servindo como uma barreira psicológica contra o ambiente saturado de emanações ectoplasmáticas. Ela equilibrava o afeto profissional, necessário para o desenvolvimento cognitivo dos infantes, com a assepsia rigorosa exigida pela natureza volátil de seus alunos.

Cícero, um menino de quatro anos com a fisionomia abatida pelo esforço metabólico da possessão, soluçava sentindo o ar pesado. Um líquido viscoso e luminescente — um muco que cheirava intensamente a enxofre — escorria de suas narinas como uma secreção de outro mundo. Era Vorath-Kha, o Tecelão de Pesadelos, manifestando um quadro clínico que os manuais da creche classificavam apenas como "rinite alérgica de baixa intensidade".

Helena não se assustava; a repetição de três séculos do Primeiro Choro havia atenuado qualquer resquício de pavor na psique coletiva. Com um lenço descartável comum, ela limpava o rosto do menino com gestos precisos. Enquanto o papel absorvia o brilho do fluido, a entidade sibilava um som agudo, uma frequência que fazia os dentes de quem estivesse por perto doerem em um protesto involuntário dos nervos.

— "Cícero, ensine o Vorath-Kha a segurar a respiração quando for espirrar", ela instruía, mantendo a voz plana, com a mesma entonação de quem pedia para uma criança não colocar o dedo no nariz.

Ela jogava o lenço usado no lixo biológico, um recipiente de chumbo e vácuo que continha outros resíduos descartáveis de possessão: penas chamuscadas, escamas que se moviam sozinhas e fragmentos de vidro que haviam sido criados pelo estresse das entidades. Helena conferia o selo do cesto e seguia para a próxima carteira, onde o pequeno Bento tentava esconder uma garra que crescia de seu punho sob a manga do casaco.

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Após o primeiro atendimento, a professora iniciou o ritual de desinfecção das bancadas. O protocolo exigia a aplicação de uma solução salina benta, que evaporava instantaneamente ao entrar em contato com os resíduos demoníacos deixados pelas crianças. O odor de enxofre, onipresente na sala, foi substituído pelo cheiro ácido da solução que corroía os vestígios da presença de Vorath-Kha.

Helena observava as manchas que as mãos dos alunos deixavam nas superfícies: algumas eram quentes demais e queimavam a madeira; outras, excessivamente frias, cobriam os cadernos com uma geada negra. Com uma espátula, ela raspou um rastro de gosma que a entidade de Cícero deixara no tampo da mesa. O material se contorceu, tentando se reintegrar ao hospedeiro, mas foi prontamente eliminado pelo borrifo da professora.

Ela conferia o relógio de pulso; o tempo era um recurso finito antes que os demônios se tornassem inquietos novamente. — "Bento, retraia as unhas antes de tocar no material escolar", pediu Helena sem desviar os olhos dos outros. O menino obedeceu com um estalo seco, e a professora seguiu sua ronda, garantindo que o ambiente, embora povoado por horrores, permanecesse minimamente funcional para o aprendizado de aritmética e noções básicas de cidadania sobrenatural.

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O ranger das dobradiças da porta da sala de aula não foi acompanhado pelo habitual coro de sussurros abissais que geralmente saudava qualquer entrada. O diretor, um homem cujos próprios ombros carregavam o peso de décadas de burocracia infernal, cruzou o umbral com uma hesitação quase imperceptível, mantendo a mão firmemente — quase cautelosamente — sobre o ombro de um menino pequeno.

O recém-chegado possuía traços finos e um olhar parado, uma imobilidade facial que parecia desafiar a hiperatividade onírica dos outros alunos. — "Este é Miguel", anunciou o diretor, com a voz ligeiramente metálica, os olhos desviando-se de imediato para a parede do fundo, evitando qualquer contato visual direto com a criança.

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