01 révérence

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"A dança é a única arte na qual nós mesmos somos a matéria do que ela é feita."

O estúdio de dança clássica L'Étoile cheirava a lavanda, madeira encerada e ao algodão limpo das sapatilhas de ponta guardadas no armário dos fundos. Era um santuário de luz. As paredes eram pintadas em um tom quase imperceptível de rosa-pastel, as janelas iam do chão ao teto, banhando o piso de linóleo claro com o sol suave do fim de tarde, e os grandes espelhos verticais refletiam apenas a busca pela simetria perfeita.

Park Jimin vivia por aquela simetria.
Com os olhos semicerrados e a postura impecável que havia levado duas décadas para construir, ele ajustou a postura de uma de suas alunas mais jovens. O toque de seus dedos nas costas da garota foi sutil, mas firme.

— Alinhe os ombros com os quadris, Soo-ah. Sinta o peso descer pelo calcanhar, não pelos dedos — instruiu Jimin, sua voz suave ecoando pelo espaço silencioso. — O balé contemporâneo exige a gravidade, mas você precisa dominá-la, não se render a ela.
Ele se afastou com passos tão silenciosos que parecia flutuar. Jimin vestia uma calça de alfaiataria bege larga o suficiente para permitir seus movimentos, uma blusa de tricô branca de gola canoa que caía levemente por um dos ombros e meias brancas grossas.

Ele era a personificação do seu próprio estúdio: limpo, elegante, metódico e, acima de tudo, controlado.

Jimin caminhou até o aparelho de som antigo sobre o balcão de madeira. Ele apertou o play, e os primeiros acordes de um prelúdio de piano de Chopin começaram a preencher a sala. As cinco alunas se posicionaram na barra, os braços subindo graciosamente em uma primeira posição.

— E um... plié... dois... estica... — Jimin ditava o ritmo, movendo as próprias mãos no ar como se conduzisse uma orquestra invisível.

O piano era o seu oxigênio. Aquela melodia suave era o que mantinha sua mente organizada em um mundo exterior que ele considerava caótico demais.

Então, o chão pareceu tremer.

Não foi um tremor metafórico. O linóleo sob as meias de Jimin vibrou de verdade. Um segundo depois, as notas melancólicas do piano de Chopin foram completamente engolidas por uma batida de subgrave tão violenta que o vidro das janelas estremeceu.

MONDAY, TUESDAY...

Um ritmo de trap pesado, arrastado e ensurdecedor começou a ecoar diretamente da parede leste do estúdio. A parede que separava o santuário de Jimin da nova sala comercial que havia sido alugada na semana passada.

As alunas pararam no meio do movimento. Soo-ah perdeu o equilíbrio na barra, os olhos arregalados enquanto olhava para a divisória de drywall que parecia prestes a rachar.

Jimin congelou. Seus lábios se transformaram em uma linha fina e reta. Ele tentou respirar fundo, puxando o ar com cheiro de lavanda, mas a única coisa que conseguia focar era no ritmo mecânico e barulhento que vinha do vizinho.

— Continuem — pediu Jimin, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. Ele aumentou o volume do piano.

O som do vizinho aumentou proporcionalmente. Agora, além do grave, dava para ouvir o rangido de solas de borracha arrastando no chão e gritos abafados de empolgação. Era um caos urbano, barulhento e perfeitamente audível através da maldita parede fina de drywall.

— Professor Park... eu não consigo ouvir o piano — Soo-ah disse, encolhendo os ombros.

Jimin desligou o aparelho de som. O piano parou, deixando apenas o hip-hop estridente do outro lado reinar absoluto no ambiente. A teimosia que corria nas veias de Park Jimin — aquela mesma teimosia que o fez dançar por doze horas seguidas com o tornozelo torcido na faculdade apenas para provar um ponto — ferveu instantaneamente.

Ritmo Imperfeito | jikookHistórias para pegar e não largar. Descubra agora