(RM) C1.1 - As Coisas que Permanecem

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(RM)

1.1 — Prólogo

O inverno em Seul tinha um tipo particular de silêncio, um silêncio que não significava ausência de vida, mas uma pausa quase imperceptível na respiração da cidade. As ruas ainda estavam iluminadas pelos letreiros coloridos e pelas vitrines que insistiam em permanecer acesas mesmo depois que os últimos clientes iam embora, e ao longe o som abafado do trânsito continuava ecoando entre os prédios altos. Ainda assim, havia algo diferente naquela madrugada — uma quietude que parecia envolver tudo como um cobertor invisível, suavizando o ritmo frenético que normalmente definia a cidade. Kim Namjoon caminhava sem pressa pela calçada larga, com as mãos afundadas nos bolsos do casaco escuro e o ar frio escapando de seus lábios em pequenas nuvens brancas que desapareciam quase imediatamente. O vento passava entre os edifícios com uma insistência gelada, carregando o cheiro distante de café recém-passado de algum lugar que ainda permanecia aberto. Ele respirou fundo, deixando o ar frio encher os pulmões, e percebeu que aquela sensação, tão simples, tão cotidiana, ainda parecia estranhamente nova.

Era curioso como certas coisas levavam tempo para voltar ao normal.

Durante meses, sua rotina havia sido construída sobre horários rígidos e comandos diretos, sobre acordar antes do nascer do sol e seguir instruções sem questionar, sobre vestir o mesmo uniforme todos os dias e dividir espaços com pessoas que, assim como ele, estavam tentando se adaptar a uma realidade completamente diferente daquela que haviam deixado para trás. O serviço militar tinha uma forma particular de simplificar o mundo. Tudo era direto, claro, definido. Havia uma estrutura. Havia regras. Havia um caminho evidente a seguir.

Agora, de repente, não havia mais nada disso.

A liberdade, ele percebeu, podia ser desconcertante.

Namjoon parou diante de um semáforo fechado, mesmo quando a rua estava completamente vazia. Nenhum carro se aproximava. Nenhum pedestre caminhava na direção oposta. Ainda assim, ele permaneceu ali, esperando pacientemente que o sinal mudasse. Era um hábito pequeno, quase insignificante, mas revelador de como certas rotinas se enraizavam mais fundo do que ele imaginava. Quando a luz finalmente ficou verde, ele atravessou a rua com passos lentos, observando a forma como as luzes refletiam no asfalto úmido da noite. A cidade estava ali, intacta, viva, funcionando exatamente como sempre havia funcionado, e isso provocava nele uma sensação estranha, como se tivesse se afastado por muito mais tempo do que realmente tinha.

Nos últimos dias, caminhar tinha se tornado um ritual silencioso. Não era algo que ele planejava conscientemente; simplesmente acontecia. Às vezes tarde da noite, quando o sono demorava a chegar, ou quando os pensamentos começavam a se acumular em sua cabeça de maneira caótica demais para serem ignorados. Era mais fácil colocar os pés na rua e deixar que o movimento organizasse o que estava bagunçado por dentro. A cidade oferecia uma espécie de anonimato reconfortante durante aquelas horas tardias, um intervalo raro em que ninguém parecia reconhecê-lo ou esperar algo dele.

Ser o líder do BTS sempre tinha significado carregar uma responsabilidade que ia além da música. As pessoas costumavam imaginar que a maior pressão vinha dos palcos gigantescos, das turnês internacionais, das entrevistas intermináveis e dos olhares atentos de milhões de fãs ao redor do mundo. E, em parte, isso era verdade. Mas havia outra camada que quase nunca era mencionada, a responsabilidade silenciosa de ser o primeiro a pensar nos outros, de perceber quando alguém do grupo estava cansado demais, frustrado demais, ou simplesmente perdido. Namjoon havia aprendido a carregar esse papel com naturalidade ao longo dos anos, como se fosse uma extensão inevitável de quem ele era.

Mesmo assim, voltar para casa depois de tanto tempo fora tinha despertado algo que ele não conseguia explicar completamente.

Uma espécie de espaço vazio entre o passado e o futuro.

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