Capítulo I: Flores de Cerejeira

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As carpas deslizavam sob a superfície do lago. Douradas, alaranjadas, uma ou outra manchada de branco, iam e vinham sem destino aparente, traçando caminhos que se desfaziam na água turva antes que alguém pudesse memorizá-los.

Ryuji Minamoto as observava há tempo suficiente para que o sol tivesse se movido atrás das cerejeiras. A sombra que antes cobria apenas seus ombros agora engolia seu corpo inteiro, e ele não se importava. Estava sentado na borda de pedra do lago, os joelhos dobrados contra o peito, a katana de obsidiana apoiada ao lado como um animal adormecido. A lâmina negra não refletia a luz, absorvia-a.

Ele vestia preto, os servos do palácio já haviam parado de perguntar por quê.

Uma pétala de cerejeira pousou na superfície da água e uma carpa subiu para investigá-la, a boca redonda tocando a flor com uma delicadeza absurda para um animal tão estúpido. Ryuji acompanhou o gesto com os olhos. A carpa desistiu e a pétala continuou flutuando, encharcada, pesada demais para ser bonita.

- Onii-sama.

A voz veio de trás, rouca e baixa, como se cada palavra custasse um esforço que o dono tentava esconder. Ryuji não se virou pois conhecia aquela voz melhor do que a própria.

Kaiser se aproximou devagar, os passos curtos e medidos de quem aprendeu a economizar o corpo. Sentou-se ao lado do irmão mais velho sem pedir permissão, porque entre eles isso nunca foi necessário. Estava mais pálido que o normal, o que já era dizer muito, e as olheiras tinham a cor de ameixas maduras.

- Você não dormiu - disse Ryuji, sem tirar os olhos do lago.

- Dormi o suficiente.

Kaiser sorriu, um sorriso pequeno, quase imperceptível, que só existia quando estava perto dos irmãos.

- Tive uma visão.

Ryuji finalmente virou o rosto, os olhos carmim encontraram os púrpura do irmão mais novo, e ali ficaram. Não perguntou nada por que não precisava, pois Kaiser falaria quando estivesse pronto, e apressá-lo nunca funcionava.

O vento soprou entre as cerejeiras e uma chuva de pétalas desceu sobre o jardim. Algumas caíram no lago, outras nos ombros de Kaiser, outras no cabo da katana negra. O silêncio entre os dois irmãos não era desconfortável.

- A sombra antiga - disse Kaiser, por fim. Sua voz desceu ainda mais, como se as palavras fossem pesadas demais para serem carregadas em volume normal. - Ela voltou.

Ryuji sentiu os dedos se fecharem, apertando o tecido do próprio quimono na altura do joelho. Um gesto pequeno e involuntário, do tipo que só alguém que o conhecesse profundamente notaria. Kaiser notou.

- Não é como antes - continuou o mais novo, escolhendo as palavras com o cuidado. - É pior. Eu vi o palácio... fogo. Vi...

Parou e tossiu, uma tosse seca que sacudiu seu corpo magro como vento sacode um galho fino. Ryuji estendeu a mão e a pousou nas costas do irmão, sem força. Kaiser respirou fundo.

- Vi sangue nos jardins - completou, a voz agora não mais que um sussurro. - E vi a lâmina carmesim.

A mão de Ryuji parou sobre as costas do irmão, seus dedos se tornaram pedra. A lâmina carmesim. Ele não precisava perguntar de quem era pois havia apenas uma lâmina daquela cor no mundo, e ela pertencia ao homem que havia tirado tudo dele antes que ele tivesse idade para entender o que "tudo" significava.

O lago continuava calmo e as carpas continuavam nadando, assim com as cerejeiras continuavam soltando suas pétalas como se o mundo não estivesse prestes a rachar.

- Kai.

- Sim, onii-sama?

- Quando?

Kaiser olhou para as próprias mãos, finas, de dedos longos, que tremiam com uma frequência que ele já não tentava disfarçar.

- Não sei... As visões não vêm com datas. Mas o cheiro... - Ele fechou os olhos. - O cheiro era de agora. De cerejeiras e primavera...

Ryuji olhou para as árvores ao redor. As flores estavam no auge. Cheias, abertas, obscenamente vivas. Em uma ou duas semanas começariam a cair de verdade, e então os jardins ficariam cobertos de rosa e branco, e os servos varreriam os caminhos todas as manhãs, e tudo recomeçaria.

Se houvesse jardins para varrer.

Ele se levantou, pegou a katana de obsidiana pelo cabo, o couro gasto, amolecido por anos de mãos que se agarravam a ele como quem se agarra a uma promessa, e a prendeu na cintura. O peso era familiar e reconfortante, da maneira como só coisas perigosas conseguem reconfortar.

- Não conte ao Yuki - disse Ryuji. - Ainda não.

- Ele vai perceber.

- Eu sei. Mas me dê um dia.

Kaiser assentiu. Levantou-se com esforço, apoiando-se no ombro do irmão por um instante breve demais para ser chamado de fraqueza. Ryuji não se moveu, deixou que o peso do irmão descansasse ali o tempo que fosse necessário, mesmo que fossem apenas dois segundos.

Quando Kaiser se afastou em direção ao palácio, Ryuji ficou sozinho outra vez, com o lago e as carpas e as cerejeiras e a katana negra na cintura. Tocou o cabo com a ponta dos dedos e sentiu o couro morno, sempre estava morno, como se a lâmina guardasse um calor próprio como um pulso que não deveria existir em metal e pedra.

A mãe havia segurado aquele mesmo cabo e havia lutado com aquela mesma lâmina e morrido segurando-a, e com o último fôlego a havia colocado nas mãos de um menino pequeno demais para entender o presente que recebia.

Ryuji fechou os olhos e quando os abriu, Yukiteru estava pendurado de cabeça para baixo no galho mais baixo da cerejeira, os cabelos brancos varrendo o ar como uma cortina de seda, um sorriso largo e absolutamente inadequado para a situação estampado no rosto.

- Yo, nii-chan! Tá com cara de quem comeu umeboshi estragada.

Ryuji o encarou sem dizer nada. Yukiteru balançou no galho, as pernas cruzadas como se estivesse sentado numa poltrona e não pendurado a dois metros do chão.

- Vi o Kai saindo daqui com cara de enterro. Vocês dois ficam nesse lago como se as carpas fossem contar o segredo da vida eterna. - Ele girou o corpo e caiu de pé no chão com a graça de um gato. Sacudiu as pétalas do cabelo. - O que foi?

- Nada.

- "Nada" com essa cara é sempre alguma coisa. - Yukiteru se aproximou, e por um instante o sorriso vacilou mas não desapareceu. Yukiteru nunca deixava o sorriso desaparecer por completo, mas tremeu nas bordas, como uma vela em corrente de ar. - É sobre a mãe?

Ryuji olhou para o irmão do meio. Yukiteru não era filho de Yoshiro e não tinha o mesmo sangue, a mesma dor, a mesma cicatriz, mas chamava Yoshiro de "a mãe" como se fosse a coisa mais natural do mundo, porque para ele era e porque Yukiteru decidia o que era natural e o mundo que se ajustasse.

- Não - disse Ryuji. - Não é sobre ela.

- Então é sobre o quê?

O vento soprou de novo mais pétalas e o lago se encheu de pequenas manchas rosadas que as carpas ignoraram dessa vez, ocupadas demais com o fundo lamacento.

Ryuji olhou para o irmão, para os cabelos brancos, para os olhos vivos, para as mãos que nunca ficavam paradas e estavam sempre mexendo em algo, ajustando a aljava, girando uma flecha entre os dedos.

- Vem jantar comigo hoje - disse Ryuji. - Com o Kai... Nós três.

Yukiteru inclinou a cabeça. O sorriso voltou, mas diferente agora.

- Claro, nii-chan.

Ryuji assentiu e caminhou em direção ao palácio. Atrás dele, as cerejeiras continuaram derramando suas flores sobre o lago, sobre a pedra, sobre o chão que em breve seria campo de batalha. As carpas nadavam em círculos, cegas e douradas, sem saber que a primavera daquele ano tinha cheiro de sangue.

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