𝐏𝐚𝐫𝐭𝐞 𝐔𝐦 - 𝐍𝐘 𝐄𝐬𝐜𝐚𝐩𝐞𝐞𝐬

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Capítulo 1

​Olha, eu sei como isso vai soar. Seis amigos ricos de Nova York decidem ‘se reconectar com a natureza’ alugando motorhomes ridiculamente caros para dirigir até o meio do nada.
​Eu sei. Parece roteiro de filme de terror ruim, certo? Tipo aqueles onde você grita "NÃO ENTRA NA FLORESTA, IDIOTA" pro personagem na tela. Eu, a Daphne, faria o mesmo. E, francamente, estávamos agindo como idiotas, mas na época, parecia menos sobre a natureza e mais sobre… fugir. Fugir daquele tipo de pressão que só Manhattan sabe impor, mesmo quando você tem todas as portas abertas.

​Eu, Soren, Marcus, e Matthew — nós éramos o quarteto principal desde a sexta série. A gente tinha o tipo de intimidade que só acontece quando você vê alguém vomitar na festa de quinze anos da herdeira do banco e ainda assim senta com ele na primeira aula na manhã seguinte. A gente cresceu junto, em bolhas separadas, mas em sincronia.

​Aí tinha a Mercy.

​Mercy Clementine. Ela era a anomalia do nosso grupo. Não do nosso ciclo social, onde ela era amada, mas da nossa situação econômica. Ela trabalhava, pegava metrô, morava com a mãe (que Mercy jurava ser tipo uma xamã, mas só parecia uma senhora que lia muito tarô no Brooklyn) e estava na faculdade porque precisava, não porque era uma opção. Ela era a única que não tinha um apartamento vazio esperando por ela no Upper West Side. Ela nos aterrissava, e eu a admirava por isso. Ela era o nosso centro moral, o que, olhando agora, foi uma pressão injusta que colocamos nela.
​Eleanor, a gêmea idêntica de Matthew, ela era a mais nova a entrar no nosso círculo. O Matthew nos disse que ela estava “estranha e distante” ultimamente. Como se a conexão telepática deles tivesse pifado. Ele insistiu que a viagem faria bem a ela. O que, claro, significava que estávamos arrastando a única pessoa que já estava sentindo a frequência errada para o epicentro dela.

​O motorhome alugado, um Winnebago gigante que Marcus insistiu ser “vintage chic,” era o ponto de encontro. Na verdade, parecia que tínhamos sequestrado um condomínio de luxo com rodas.

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​Marcus Vesper: Certo, minhas beldades. Estou na Houston Street. Winnebago Cinzento. Tem uma aura de glamour envelhecido, não acham?

​Soren Gottenberg: Tem uma aura de péssima eficiência de combustível, Marcus. E o motorhomes tem que ser limpo antes de partirmos. Chega de glamour. Estou a dez minutos. Não me faça esperar.

Matthew Mellwood: Eu e El 
estamos quase lá. ela tá checando pela décima  vez se pegou os fones de ouvido.

​Daphne Brontë: Gente. gastei US$ 400 em repelente industrial na Bergdorf Goodman. E comprei botas de chuva rosa choque de brincadeira. Quem vai rir agora, hein?


Eu sei. Estávamos leves. Irônicos. Usando o humor como escudo, como sempre. Naquele dia, a maior tensão era saber se o Soren e a Mercy já tinham falado para o Marcus sobre eles. Eu, no fundo, sabia que não. O Matthew também.
​A gente ria de tudo, porque rir era de graça, e era o único luxo que a gente podia pagar sem sentir culpa. Mal sabíamos que estávamos rindo da nossa própria morte social.
​O cheiro do asfalto quente e de poluição pairava pesado sobre nós. Eu gravei um áudio rápido na minha Mini-DV, que ainda tinha bateria completa naquele momento. Minha voz soava absurdamente rápida.

​— Dia Um. Estamos indo. Hollow Pine. Noroeste do Pacífico. Vibe Twin Peaks. Que a beleza me salve. Ou pelo menos me inspire a fazer um bom vlog. Depois disso, tirei o batom vermelho-cereja para beber meu café e olhei para o relógio. Tínhamos horas de distância de tudo que conhecíamos. E tínhamos certeza que, no fim, estaríamos bem. Sempre estávamos.

OllalieWhere stories live. Discover now