O trem parou na plataforma exatamente às oito horas da noite conforme o bilhete na sua mão.
Estava tão frio que as respirações das pessoas ao redor se tornavam visíveis em pequenas nuvens brancas. A plataforma estava quase vazia, com apenas alguns empresários carregando mochilas e pastas de couro, provavelmente retornando de congressos ou outros compromissos formais.
O homem esperando a liberação do embarque vestia um casaco preto de moletom com capuz cobrindo a cabeça - tanto para se proteger do frio quanto para ocultar sua identidade - por baixo de um sobretudo longo da mesma cor.
Segurava uma pasta em uma das mãos, como os demais, e ansiava chegar logo em casa para escapar do frio que penetrava até os ossos. Era apenas o começo de um longo inverno que se aproximava, trazendo consigo um ar de mistério e medo.
Ele sentiu uma brisa suave que o fez estremecer ainda mais de frio. O ar estava diferente naquele dia, desde que havia levantado às sete horas da manhã e saído às oito para o congresso de professores de História da Arte. Desde então, o sentimento de perseguição o sondava a cada passo, como se um fantasma o tivesse olhando de longe, espreitando cada esquina.
Por um lado, ele acreditava ser apenas fruto da sua imaginação, uma reação criada pelo cérebro diante da sensação de perigo, por outro, acreditava que essa era sua nova realidade. Anos vivendo em medo constante o levavam à certeza de que algo estava errado.
Uma pequena fila se formou para a subida no trem. Ele se aproximou para entregar sua passagem e adentrar o ambiente aquecido que o aguardava, onde talvez pudesse tomar um chá e tirar um cochilo durante a viagem.
— Bem-vindo, senhor. Tenha uma boa viagem até Londres com a Border Express — o homem alto de uniforme falou, devolvendo-lhe o bilhete rasgado na ponta.
Ele agradeceu e subiu, sentindo o ar condicionado quente de dentro do vagão lhe envolver aos poucos. Procurou a poltrona de número vinte e cinco e colocou sua pasta no bagageiro de cima, finalmente se aconchegando na poltrona de estofado verde musgo. A acomodação era de alto padrão, uma cortesia da Universidade onde ele lecionava, com quatro poltronas, uma mesa de centro e amplo espaço para trabalho. No entanto, ele não pretendia trabalhar durante as quase três horas de viagem, precisava descansar.
Suspirou brevemente e se recostou no banco, tirando o capuz da cabeça e olhando pela janela escura, esperando que o trem logo começasse a se mexer. Ele estava ficando velho, não tinha mais pique para quaisquer eventos muito grandes como aquele que havia participado.
O trem fez um barulho gradual e começou a se mover depois de longos dez minutos de espera. Agora estaria seguro. Pelo menos, era o que ele achava.
Não demorou muito para que sua paz fosse interrompida por alguém adentrando a sua cabine, fechando a porta e se acomodando na poltrona à sua frente. Por um momento ele achou que era algum funcionário do trem pedindo seu bilhete novamente, mas talvez fosse alguém que tivesse se enganado quanto ao número de sua cabine.
— Com licença, senhor. Acho que está no lugar errado. — disse agora olhando melhor para o homem na sua frente.
Não se tratava bem de um homem, mas sim de um jovem rapaz. Possivelmente entre vinte e dois e vinte e três anos, não mais do que isso, sem dúvida. Usava um moletom preto, semelhante ao dele, com o capuz na cabeça e as mãos nos bolsos, como se tentasse se aquecer com aquele gesto. Ele sentiu um arrepio de temor ao ver seus olhos escondidos sob aquele capuz preto, nas sombras, percebia que eram de um azul profundo. Uma grande cicatriz que vinha do seu pescoço até a base do queixo mostravam juntamente com um semblante firme, que tinha presenciado eventos tão aterrorizantes e traumáticos que não possuía mais opções de reação além daquela.
YOU ARE READING
The Lost Spectrum
FanfictionAnnabeth detém de uma informação muito importante, porém, não tem memória alguma da sua vida mitológica. Percy, por sua vez, sedento por vingança, fará de tudo para que ela se lembre, em busca da sua cartada final. Um mundo de deuses e monstros a es...
