Capítulo Um

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Você é minha

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Você é minha.

Acordei de supetão. A voz ecoando na minha cabeça, com a frase já conhecida até demais por causa desses sonhos estranhos e frequentes.

Sentei na cama e passei as mãos pelos cabelos, esfreguei o rosto e suspirei. Completamente atônita com um turbilhão de lembranças e sensações.

— Você está atrasada — a voz da minha colega de quarto me assustou.

Só então eu percebi a sua presença. Parada em frente ao espelho fazendo a maquiagem.

— Que horas você chegou? — minha voz saiu arrastada por causa do sono.

— Não faz muito tempo — balançou a cabeça. — Só vim me arrumar para a aula — explicou. — Você está ficando bem sozinha?

— Uhum — assenti e levantei da cama, para não me atrasar ainda mais.

Hara — minha melhor amiga desde o fundamental e colega de quarto — passa praticamente todas as noites com o namorado. Mesmo que seja proibido transitar entre o dormitório masculino — e vice-versa —, a garota sempre dá um jeito de não ser pega. Se arriscando, até que o apartamento do namorado finalmente ficasse pronto e ela possivelmente acabar se mudando para lá com ele. Me deixando sozinha de vez no nosso quarto.

Meu maior receio era ganhar uma nova colega de quarto, já que, eu já estava acostumada a ficar sozinha. E não seria agradável receber uma estranha agora.

Passei pela garota para ir ao banheiro, com o meu corpo implorando por um banho. Mas ela me segurou e analisou o meu pescoço, franzindo o cenho.

— Parece que bem até demais, hum? — abriu um sorriso malicioso.

— O que?

Ela me puxou para a frente do espelho e apontou para um ponto específico do meu pescoço. Uma marquinha com tons variando entre o roxo e o vermelho. O chupão se destacou na minha pele, uma marca que seria considerada "sensual", que contaria uma história de desejos e momentos ardentes, assim como eu havia sonhado. Mas... Foram apenas sonhos.

Eu não respondi a minha amiga, somente desviei dela e terminei o percurso até o banheiro e me tranquei no cômodo.

Fui direto para debaixo do chuveiro e fechei os olhos, deixando as lembranças dos sonhos tomarem conta novamente. Aqueles que me atordoam, torturam por serem apenas sonhos. Ao mesmo tempo que faz eu me sentir algum tipo de pecadora ou sei lá o que — apesar de eu não frequentar a igreja para ter esse tipo de pensamento.

"Suas mãos passearam pelo meu corpo. Seus dedos tocaram cada centímetro, deixando um rastro quente pela minha pele. Enquanto seus lábios beijavam o meu pescoço, sua mão encontrou o meio das minhas pernas. Eu teria ficado envergonhada se não estivesse tão excitada, quando sua risadinha soou, sentindo a minha boceta molhada com o menor dos toques. Ele estava apenas começando."

Aqueles sonhos eróticos eram vergonhosos. Lembrar das minhas lamúrias por alguém que sequer era real, me deixava constrangida. Momentos e sensações que não passavam de um sonho. Agradeci milhares de vezes por Hara dormir fora, já pensando na possibilidade de algum ruído escapar dos meus lábios em meio aqueles sonhos desconcertantes e prazerosos. Eu morreria de vergonha.

Mas eu sempre ficava confusa ao acordar e me deparar com aquelas marcas pelo meu corpo.

No começo não acontecia, mas ao passar das semanas , eu comecei a precisar me preocupar em cobrir com maquiagem aqueles roxos que pareciam com chupões. Assim como as calças escondiam as marcas que às vezes apareciam pelas minha bunda e pernas. Misteriosamente.

Não tinha explicação.

Eu até comecei a trancar a porta. Comprei uma tranca extra. Temendo que fosse alguém entrando no quarto, mas tudo continuou nos conformes. Eu não teria o sono tão pesado assim para não perceber alguém me tocando daquele jeito. E ninguém conseguiria me fazer apagar usando qualquer porcaria. Eu passava a maior parte do tempo sozinha, e quando acordava, tudo estava trancado, assim como eu deixava antes de dormir.

Eram sonhos bizarros e extremamente prazerosos, mesmo que não fossem reais. Eu acordava cansada, como se realmente tivesse transado a noite inteira — quando eram apenas sonhos pervertidos.

Não demorei muito no banho, afinal, eu já estava atrasada. Me vesti rapidamente e dei um jeito de cobrir a marca em poucos minutos. Antes eu sequer me importava com maquiagem, mas passei a me preocupar em sempre ter os produtos certos para cobrir aqueles desastres. Como seria passar e ouvir piadas sobre chupões, quando na verdade, eu sequer havia tido um momento íntimo?

A Hara ficou esperando eu ficar pronta, e saímos juntas do prédio dos dormitórios para ir até o campus.

— Essas suas noites parecem ser selvagens — a minha amiga provocou, com um sorriso malicioso.

— Não é nada disso — neguei, odiando ter que falar sobre aquilo.

— O chupão no seu pescoço me diz outra coisa. — prosseguiu com a provocação. — E não é a primeira vez que eu vejo! Só nunca falei para não ser deselegante.

— Eu já disse! Não são chupões! — grunhi.

— É difícil de acreditar que alguém de 19 anos, que já está na faculdade, ainda seja virgem — desacreditou. — Ainda mais depois dessas vezes que você apareceu com chupões.

— Não é um chupão. E você sabe que eu sou virgem!

— Então, tá bom — ergueu as mãos como redenção e findou o assunto, me fazendo agradecer mentalmente.

Andamos lado a lado pelo campus, seguindo o caminho até o prédio das aulas. Quando passamos por um grupo específico de garotos, um deles atraiu o meu olhar, roubou totalmente a minha atenção. Foi como um ímã. Ou talvez por ele já estar me encarando. Seu olhar penetrante permaneceu queimando em mim mesmo quando eu o olhei de volta. O garoto sequer piscou olhando na minha direção.

— Hara... Sabe quem é aquele? — Perguntei, diminuindo a velocidade dos passos.

A garota conhecia pelo menos 90% daquele campus, devido às suas saideiras e festas frequentes. Então, imaginei que ela provavelmente pudesse saber quem era.

Eu sequer sabia o motivo da minha curiosidade.

Mas eu não tive resposta, ela continuou cega encarando o celular, respondendo o namorado, como se não tivesse ficado com ele a noite inteira — para variar.

Desviei o olhar e segui o meu caminho. Desconcertada.

Mas tive a sensação de que seus olhos continuaram a me seguir. Minhas costas queimavam. E quando olhei para trás, tive certeza da minha teoria. Seus olhos grandes e intensos ainda estavam presos em mim.

Eu lembrava de tê-lo visto antes. Entre as aulas, ou em alguma festa que a Hara conseguiu me convencer a ir — raras vezes.

Mas nunca havia notado como naquele dia em específico.

Seu jeito despojado sentado entre os amigos, roupas bonitas, com olhar confiante e intenso grudado em mim. Quem não notaria?

Talvez isso acontecesse com frequência.
Mas como eu nunca percebi antes?

Somente quando chegamos a nossa sala de aula, que a garota largou o celular, e decidiu desviar a sua atenção para mim até o professor chegar. E só então — finalmente —, consegui esquecer os sonhos, e melhor ainda: as encaradas daquele garoto estranho.

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