𝒫𝓇ó𝓁𝑜𝑔𝑜

294 80 517
                                        

Outono, 16 de março de 1970

       A última vítima está de joelhos, coberta de sangue e nu. Ela está fraca e sem força, dias sem comer e beber, seu corpo está com diversas marcas de tortura. Há algumas semanas ela foi sequestrada e tudo começou.
— Implore, Implore por sua vida! Eu sou seu deus, não chame por ele, eu sou o único que pode te livrar da morte.

— Solte ela!
Grita um policial que aponta firmemente a arma. Que tenta a 1h negociar sua vida, que já está entregue a morte mesmo sem morrer.

— Sabe de uma coisa, não quero a livrar. Tu és imunda como todos eles.
Enfia uma faca em sua barriga e sorri respirando fundo, apreciando o último grito de dor dela.

Os policiais disparam cerca de 10 tiros de cada arma, perfurando seu corpo e deixando seu terno de cinza, negro de sangue, ele cai com os olhos abertos, suas pupilas dilatadas fazem parecer que seus olhos azuis são negros como a noite. A jovem que levou a facada e caiu no chão está com os olhos parcialmente fechados, sua mão cruza com a do assassino e por um momento de não lucidez ela ver ele sorrir.

- Não! Grita com dor o comandante da operação, cai de joelhos e chora. - Deus! Minha filha não, por favor -

Não só a cidade, como o mundo inteiro ergueu bandeiras pretas em luto pelas vítimas, cerca de 800 mulheres violentadas, torturadas e mortas. Duzentos homens envenenados e queimados.

O comandante se aproxima e pega sua filha banhada em sangue no colo, corre para o pronto-socorro. Ele reza diante do corpo dela e chora em prantos, os médicos tira ele da sala e depois de 2 h de cirurgia os médicos dão a notícia maravilhosa, ela está viva. Mas eu o digo, ela apenas voltou a respirar, e não sei se isso é uma benção ou uma maldição.

— Consegue-me dizer o que sentiu aquela noite?
Pergunta a Dra. Mackenzie.

— Dor, doutora. Muita dor.
Repetir tudo isso em todas as sessões são mesmo necessário?
Pergunto.

— Tudo é parte da sua cura.
Ela responde.

- Estou bem!
Afirmo.

— Pode-me dizer seu nome e quem foi a última vítima?

—  Meu nome é Justine e eu era a última vítima. —

Hoje faz 50 anos que o mundo chorou com o relatado da jovem sobrevivente do massacre de...

Desligo a TV, chega! O dia inteiro essa mulher falando disso, que saco e horripilante. Pego Luna minha gata no colo, dou um beijo em seu rosto e vou para o elevador.

Vejo Sophie vindo em minha direção e reviro os olhos, tiro os óculos escuros para cumprimentar.

— Viu nos jornais? aquilo me dá calafrios.
Diz ela após me dar dois beijos no rosto.

— Não aguento mais ouvir sobre aquilo, se me desculpa viu.

—Ouvi dizer que, na verdade, a garota era amante do sociopata.
Sophie fala rindo e percebo que a recepcionista revira os olhos e sussurra algo. Ela percebe que a olhei e ergue as sobrancelhas.

— Bom dia, você é?
Pergunto a ela.

— Bom dia! Apenas uma funcionária como qualquer outra.
Responde sem ao menos olhar em meus olhos.

— Avery!
Digo olhando seu crachá. Ela sorri ironicamente e coloca fones no ouvido, me deixando constrangida.

Sophie se despediu e seguiu para o elevador. Pego meu carro e dirijo até o centro da cidade. Ligo o rádio e ainda estão falando sobre o caso da sobrevivente, quem liga pra isso, já se passou tantos anos, e se Sophie estiver certa sobre os boatos, essa tal sobrevivente saiu ganhando com tanta fama. Imagina, ser amante de um sociopata. Dou uma risada irônica, coisa de filme mesmo. O povo gosta é de um Ibope, desligo o rádio e olho para o relógio no meu pulso, 7h 15min.

Um garoto passa na frente do meu carro e quase o atropelo, aperto a buzina
— Toma mais cuidado! Grito.
Que infeliz, penso. Pego um cigarro na bolsa e levo até a boca, solto o volante e acendo o cigarro.

Que droga de trânsito, desço do carro para olhar e uma fileira de pessoas passam, com bandeiras brancas.

— O que é isso?
Falo alto sem perceber.

— Homenagem para Justine!
Diz o homem do carro ao lado. Balanço a cabeça sem entender.

— A única sobrevivente daquele massacre.
Diz a mulher que está ao seu lado.

— Ah! Sim. Triste isso tudo não é mesmo.
Digo. A mulher concorda e volto para dentro do carro. Bufo e reviro os olhos, acho que tem gente que se importa. Bato a cabeça no volante, e cogito em voltar para casa, mas os carros começam a andar.

A cidade está decorada para homenagear Justine, deveriam homenagear os mortos, quem dá flores em vida para alguém? Aposto que Justine acha tudo isso uma grande porcaria "Aí meu deus, obrigada por me lembrarem do pior dia da minha vida, eu amo o presidente" que se dane, mas eu aposto que ela não dá a mínima.

Propósito de SangueDonde viven las historias. Descúbrelo ahora