Um tomatinho Falante

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Luz Noceda era uma bela jovem humana de quinze anos que vivia com sua mãe, Camila Noceda. A família de Luz tinha um pequeno negócio com lojas de conveniência, e uma delas era de sua mãe. Eventualmente, a Noceda ia ajudá-la nas vendas praticamente a semana toda, e naquela não seria diferente.

     Saiu da escola, era mais um dia bonito e ensolarado na cidade de Hexside, um município pacato e simplório, mas com muitas pessoas boas vivendo suas vidas no maior conforto. Chegou em sua rua, e já foi avistando a estranha casa com campainha de coruja ali mesmo na calçada.

     Eda, sua vizinha, era uma mulher estranha daquelas que vivem juntando tralha no quintal pra vender o que prestar. Mesmo assim, sempre recebia Luz com muito carisma quando sua mãe a pedia que levasse bolo de cenoura para ela.

     Seu cachorrinho também era um amor, e vivia sempre com sua pelúcia preferida, François, na boca. Por vezes, a garota dos cabelos curtos levava alguns mimos para ele, como comida e outras guloseimas que sabia que King iria gostar. Sim, o nome do cachorro era rei, e Edalyn o tratava realmente como se fosse o rei da casa, sempre com os devidos cuidados dignos de uma mãe orgulhosa.

     Chegou em casa, finalmente, e tirou a mochila das costas, teria de almoçar rápido se quisesse chegar cedo à mercearia naquele dia. Lavou as mãos sujas

   – To chegando, mama está em casa? Vou comer aqui na velocidade da LUZ pra poder ir correndo pra lojinha, onde a senhora deixou meu almoço mesmo? – disse ela remexendo a geladeira.

   – Oh querida, já está tarde! É isso que você ganha por não me deixar ir te buscar de carro na escola, seria muito mais prático – reclamou a outra Noceda.

   – Mas poooxa, a Willow e o Gus vêm a pé também, e eu queria muito acompanhar os dois. Aliás eu vou levar esse pão aqui que era pra ter comido no recreio, vai ser meu almoço. Tenho que ir mama, adiós! – respondeu Luz pegando um saco de papel e abrindo a porta.

   – NÃO ESQUECE DE SEPARAR AS NOTAS DE DINHEIRO NA CAIXA POR COR, DA ÚLTIMA VEZ VOCÊ COLOCOU AS DE CEM JUNTO COM AS DE DOIS! – exclamou Camila.

   – Sim chefia, já sei como é a mania de perfeccionista da senhora, deixa com a profissa aqui – Luz saiu pela porta antes que a mãe a jogasse um chinelo na cara por se atrasar.

     Ficava logo ali, depois de uns três quarteirões no máximo. Luz estava comendo seu pão de forma com mortadela e maionese, era o preferido. Especialmente quando a mãe o fazia com todo seu amor e carinho justamente para a filha. Camila era uma ótima mãe, tanto que criou a filha por todos esses anos sozinha sem reclamar nunca.

     Luz era seu maior presente, e para a garota, sua mãe era uma guerreira, só que não iguais as dos animes de isekai ou livros de aventura que tanto tinha o prazer de ver. Era uma guerreira sem capa, armadura e nem espada, muito menos usava chapéu pontudo, embora Luz sempre imaginasse o quão perfeito seria um cosplay de Azura em sua mãe.

     Pegou as chaves da loja no bolso esquerdo do moletom, e abriu de uma só vez. Mais um dia árduo de trabalho, e mais clientes para perguntar o por quê de Camila não ter vindo. Ultimamente a mulher estava com alguns problemas financeiros para sustentar o negócio da família, então Luz se propôs a tomar conta daquela filial para que a mãe pudesse focar em racionar o dinheiro que tinham.

     Pôs o costumeiro banquinho de madeira em frente ao único caixa da pequena mercearia. Luz ainda culpava o bendito banco por ter a bunda achatada, e não ser tão bonita quanto as outras meninas da escola, como Willow. Era extremamente duro e desconfortável, quase pior que quando a garota caía da cama logo pela manhã. E olha que isso acontecia com uma frequência quase que diária.

     Um cliente, dois, três. Passava se o tempo até que bem rápido, visto que a própria Noceda tirava selfies para não ficar sem fazer nada. Tinha a auto estima pra lá de grande, e com o ego bem inflado. Separou as notas por cor como Camila havia pedido. Desenhou um rostinho feliz em um post-it amarelo e colou nas divisórias da máquina registradora do caixa.

Quando se deu conta, já haviam se passado mais de quatro horas. As vendas tinham sido boas, e o dia foi relativamente calmo, exceto pela criança irritante que derrubou a prateleira dos salgadinhos por pura birra, e pra não xingar o encapetadinho na frente da mãe, que por sinal nem falou nada sobre o filho surtado dela, apenas disse que tudo bem, e que iria limpar tudo depois.

     Resultado: até agora os saquinhos de fandangos e cebolitos estavam no chão. Não apareceu mais nenhum cliente, e Luz sabia que não era por pura mágica que os salgadinhos iam pular na prateleira, mas bem que podia ser. Se agachou no chão e começou a colocá-los novamente no lugar certo, resmungando mentalmente sobre aquele mimadinho de merda.

   – Ei, você aí garota!

     Luz ouviu uma voz feminina vir da parte de verduras da loja. Até achou estar louca, será que era alguma ladra noturna tentando roubar as batatas? Ou pior, sequestrar alguns dos pepinos preferidos de sua mãe! Não podia deixar. Pegou uma vassoura que estava ao seu alcance e se aproximou do setor de frutas. Mais tremia do que andava, e quase caiu sobre os pêssegos.

   – Quem é que está aí? Escuta aqui sua salafrária, se você não se revelar logo eu vou contar pra minha mamãe! Q-quer dizer, ligar pra polícia, é, vou ligar pra polícia, isso aí mesmo! Ta com medinho agora é? Aparece covarde – gaguejava a menina, quase infartando de nervoso.

   – Eu estou aqui olha!

   – EU ME RENDO, PODE LEVAR AS BATATAS, OS PÊSSEGOS E ATÉ ME SEQUESTRAR SE QUISER, MAS NÃO ENCOSTA NO MEU CELULAR POR FAVOR, ESQUECI DE FECHAR A ABA DO SPIRIT, DESCULPA DESCULPA EU ME RENDO AAAAAAAH!!! – mal tinha se virado para onde vinha a voz e começou a chorar de medo, muito provavelmente feito até xixi nas calças.

   – Eu estou com muito muito medo, por favor, me ajude humana – a voz ficou um pouco rouca, mas estava muito próxima de seu ouvido àquela altura.

     Luz se levantou do chão menos histérica, e olhou para a seção dos tomates. Ali, com perninhas e bracinhos vermelhos, estava um tomate de cabelo verde a olhando. Sim, um tomate com olhos e boca também, que por sinal parecia estar chorando.

   – Meu nome é Amity, prazer!

     Mas o que...?

Amity, o TomateWhere stories live. Discover now