Não sei porque, mas naquele dia eu acordei muito cedo, sendo que nem aula tinha.
Ansiedade?
Eu nunca fui do tipo ansiosa, talvez porque eu não tivesse motivo para ser, mas naquele dia...
— O que eu faço? O que eu visto?
Eu fiquei com essas e outras milhares e milhares de perguntas na cabeça. Eu nunca tinha ido a um encontro, então a única saída era pedir ajuda à minha mãe, até porque eu não tinha amigas, então não tinha outro jeito. Mas não precisou nem eu ir até ela.
— Nathy? — Minha mãe bateu na porta.
— Estou indo! — Gritei.
Levantei e abri a porta.
— Bom, aposto que você não sabia o que vestir, então tomei a liberdade de comprar esse vestido para você. Eu comprei Lilás. Sua cor preferida é roxo, e lilás é parente de roxo, então está tudo certo.
— Mas é que...
— Não precisa me agradecer, filha!
Eu amava muito a minha mãe, porém odiava o jeito como ela gostava de mandar e decidir tudo.
— E o cabelo? O que você pensou em fazer?
— Sei lá, prender ele talvez...
— Meu deus, Nathalia, você tem o cabelo lindo, e vai ficar bem melhor solto. Sabe, o seu pai amava o meu cabelo solto...
— Sério?
— Sério — Ela sentou sobre a cama — Já passamos tantas noites deitados em um jardim que ficava perto do colégio. Ele dizia que queria ter sempre os meus cabelos longos e negros sobre o seu corpo. Mesmo depois de casados, continuamos com esse costume, por isso, uma vez no mês, nós íamos visitar aquele jardim.
— Agora está explicado...Então era para lá que vocês iam?
— Sim. Eu sinto como se tivesse perdido uma parte de mim. Às vezes é difícil encarar a realidade...
Deu para sentir a tristeza no olhar da minha mãe naquele momento. Eu não era muito boa com palavras, então fiquei tentando encontrar o que dizer.
Sentei ao seu lado e disse:
— Mãe, eu sei que eu não demostro muito, mas eu te amo, e você tem a mim, podemos até estar em pouca quantidade, mas ainda somos uma família.
— Obrigada, meu amor — Ela me deitou sobre seu peito e me abraçou — Mesmo você tendo esse seu lado obscuro e sombrio de ser, eu te amo, nada nunca vai nos separar, Nunca.
Passamos a tarde inteira olhando fotos. Olhamos o albúm de casamento da mamãe e do papai. Ela também me mostrou fotos de quando eles começaram a namorar, eu fiquei me perguntando: como as pessoas conseguiam se vestir daquela forma, e se eu também iria me sentir assim olhando minhas fotos daqui a alguns anos, mas isso era impossível, porque eu odiava tirar fotos.
— Meu deus, Mãe! Já são 18:00 horas.
— Que horas o Dean vem te buscar?
— Eu não sei, mas provavelmente deve ser às 19:00, então já vou me arrumar.
Eu me arrumei o mais rápido possível, fiquei com medo do Dean chegar e ter que ficar me esperando. Aquele vestido era até bonito, só que não tinha nada haver comigo, e aqueles saltos menos ainda, achei que estava até meio exagerado para alguém que iria apenas ao cinema, mas até que para uma pessoa que nunca tinha usado um salto alto, eu não estava indo tão mal.
— Amor?
Minha mãe estava parada na porta do meu quarto.
— Oi, mãe.
— Como você está linda! Parece até uma princesa.
— Você acha?
— Lógico que acho! O Dean já esta lá em baixo te esperando.
Ela sorriu para mim.
Quando minha mãe disse aquilo, eu senti um enorme frio na barriga, e me vieram milhões de coisas na cabeça do tipo:
— E se eu tropeçar na escada? Ou cair? E se ele não gostar desse vestido?
Mas, como eu já havia aceitado, não podia voltar atrás, então desci e tentei parecer o mais normal possível.
Dean estava sentado no sofá olhando uma foto minha e do meu pai bem antiga.
— Oi, Dean.
Ele se levantou e ficou olhando fixamente para mim.
— Nossa! Como você está linda!
— Obrigado.
— Mas você parece que não está bem, está diferente...
— É que sei lá, eu não estou me sentindo muito bem vestida assim...
— Já entendi tudo...Você não precisa se vestir para agradar ninguém, sabia?
— Mas eu não queria estar de qualquer jeito.
— Mas mesmo assim, seja você mesma.
— Quer saber? Você tem razão. Você espera um minuto? Eu já volto.
— Claro — Ele sorriu.
Eu subi as escadas correndo. Entrei no meu quarto, vesti um Jeans e uma blusa branca, que por sinal, eu adorava. Troquei o salto por tênis e prendi o meu cabelo com um lápis. Sim, um lápis, e logo depois desci.
— Pronto, voltei! E tão bom poder descer as escadas correndo.
— Eu imagino, você continua linda, só que agora, mais feliz. Então, vamos?
— Vamos.
Até que não demoramos muito para chegar no cinema. Dean fez questão que eu escolhesse o filme. Tinha uns nomes bem patéticos lá e que sem duvidas pareciam entediantes, até que encontrei um chamado "Greg". Parecia legal, então foi esse que vimos.
A história era sobre um sobrevivente da segunda guerra mundial. Ele conta toda sua vida desdo princípio ao fim. Ele falava de como foi perder toda sua família e tentar se virar sozinho por sua própria conta. Anos depois descobriu um cancêr no estômago, devido a bomba atômica. Foi bem triste o filme, que parecia mais um documentário, ele chorou em diversas partes, mas no fim de tudo conseguiu formar uma família. "Eu consegui ter o que eu nunca tive" foi a última frase antes de o filme acabar.
— O que você achou do Filme, Nathalia?
— Bastante interessante.
— Eu também achei. Deve ser horrível crescer sem a família...Vamos comer alguma coisa?
Não queria fazer desfeita para o Dean, então aceitei.
Nós fomos até a praça de alimentação do cinema, e Dean pediu uma pizza.
Escolhemos uma das mesas e nos sentamos.
— Você não vai comer? Está esfriando.
— É que não estou com muita fome...
— Está deliciosa, coma, pelo menos um pedaço, por favor.
Eu pequei um pedaço e mordi. Por um segundo, minha cabeça girou, parecia que havia começado uma guerra em meu estômago.
— Desculpa, mas tenho que ir ao banheiro, já volto.
— Ok.
Corri em busca de um banheiro e o encontrei no fim de corredor. Fechei a porta e entrei em um banheiro qualquer. Me ajoelhei ao chão, meu estômago devolveu aquele pequeno pedaço de pizza...
Já era de se esperar...
Lavei meu rosto e voltei. Achamos melhor ir embora, então fomos.
No caminho até em casa, começamos a conversar, acabamos partilhando milhares de micos. Eu nunca tinha sorrido tanto na minha vida. Sei que tinha diversos assuntos para conversar, só que o Dean começou a falar os deles, então falei os meus. Foi aí que descobri que pagar micos era algo que tinhamos em comum. Nós até cantamos, foi muito engraçado, ele tinha uma voz incrível.
— Chegamos! — Ele disse.
— Eu adorei a noite — Eu disse.
— Eu também, para falar a verdade, nem queria que acabasse...
— Eu também não.
Talvez pensem que ele me levou até a porta e me beijou, mas não foi bem assim. Ele me levou até a porta, me abraçou, ficou esperando até que eu entrasse, depois foi embora. Aquela noite tinha sido simplesmente incrível.
Eu tentei fazer o menor barulho possível, já eram quase 00:00, mas eu sabia que minha mãe estava acordada me esperando e que ia querer saber até os mínimos detalhes, só que se ela me visse sem o vestido, aposto que iria ficar muito triste, então entrei no meu quarto, me troquei, escovei meus dentes e fui dormir.