Fiquei olhando em volta, enquanto a garota que morava comigo conversava com a Kara e uma ruiva de expressão séria. Elas falavam quase em sussurro, mas eu conseguia ouvir tudo.
— Kara tem algo de errado com ela. Você falou que ontem ela estava bem irritada e hoje ela acorda com a memória apagada e perguntando pela mãe dela e pelo Non? Você já contou que a Astra…
— Não. Primeiro precisamos descobrir o que aconteceu e se dar para reverter.
— Preciso tirar sangue dela. E a Lena já está a caminho com um aparelho que irá acessar as ondas cerebrais da Seeg, para descobrirmos se há danos na cabeça dela.
A ruiva se aproximou, ligou algumas lâmpadas que saíam luzes vermelhas e que me faziam lembrar do sol de Krypton.
— Eu vou tirar um pouco do seu sangue, Seeg. Talvez ele possa nos dar alguma informação do que está acontecendo.
— Você é irmã da minha irmã?
— Sim. Os meus pais adotaram a Kara quando ela chegou a terra e o Kal-El a trouxe para a família Danvers.
— Eu não lembro de ter deixado Krypton e de vir para esse outro planeta e aprender esse idioma que eu estou falando.
— Você também fala Japonês, a língua do País que você viveu ao chegar a terra.
— Eu tenho alguém? Um par?
— Não! Você está solteira após terminar comigo e dispensar um futuro relacionamento com a Samantha. — fitei a ruiva com surpresa. — Sam, não quis me falar porque vocês terminaram o que ainda não haviam começado, mas eu desconfio que você está apaixonada.
— Por quem?
— Você vai descobrir.
— A Kara tem alguém?
— Tem, e você já vai conhecê-la. — naquele momento uma mulher de pele extremamente branca, olhos verdes e cabelos muito pretos entrou na sala que eu estava. Que mulher linda.
Fiquei a observando, não dando atenção para o que a ruiva estava falando sobre a dona daqueles belos olhos verdes ser o par da minha irmã.
— Seeg. — ela sentou ao meu lado e segurou a minha mão de forma carinhosa. — Estou aqui e vou fazer tudo o que for possível e impossível para te ajudar a recuperar sua memória.
— Obrigada…
— Lena.
— Lena. — era um lindo nome, combinava perfeitamente com a mulher linda à minha frente.
***
Enquanto a Lena e a Alex estavam examinando o meu sangue e todos os resultados dos vários exames que eu fiz na agência, Kara e Nia levaram-me para uma sala de treinamento. Onde eu deveria treinar os meus poderes.
— Vamos começar pela sua velocidade e força. — Kara falou e eu concordei.
Kara avançou contra mim e tentou me golpear com alguns socos e chutes a qual eu interceptei de forma rápida. Não acreditando na minha capacidade de ser rápida.
— Agora se livra disso, Seeg. — Nia me envolveu com uma espécie de energia prendendo meus braços junto ao meu corpo. — Vai lá garota de aço. — fitei o sorriso daquela menina e me irritei com sua presunção por conseguir me prender com seus poderes. — O que foi, Seeg, não consegue se livrar desse laço?
— Não me provoca menina. — concentrei minhas forças em meus braços e me livrei da prisão que eu estava, arrebentando a energia que estava em volta do meu corpo. Eu só queria me soltar, mas ver que o meu ato jogou a Nia longe, me encheu de preocupação. — Nia… Me desculpa.
— Eu tô bem. Acho que preciso treinar para não ser golpeada por meus próprios poderes. — a ajudei a ficar de pé e a trouxe para perto do meu corpo, o que provocou um frio dentro de mim. — O que acha de treinarmos sua visão de calor ou o seu sopro congelante?
— Faço qualquer coisa que você me pedir. — falei olhando nos olhos da Nia e vi o rosto dela ruborizar, o que eu achei fofo.
— Vamos focar sua visão de calor, Seeg. Não queremos que você queime o seu apartamento. — Kara falou chamando minha atenção e eu concordei.
Após treinar por um longo tempo a minha visão de calor e o meu sopro congelante, que eu achei incrível, seguimos para o laboratório onde a Alex e a Lena nos aguardava com novas informações. E pela expressão das duas, não era nada bom o que elas descobriram.
— Pela expressão de ambas, eu imagino que vocês descobriram o que provocou a minha falta de memória. — perguntei e nesse momento a Nia se colocou ao meu lado e entrelaçou sua mão a minha, o que me fez olhar para ela e não conter um sorriso.
— Alex, o que vocês descobriram? — minha irmã perguntou com ansiedade.
— Seeg está contaminada com Kryptonita vermelha.
— Kryptonita vermelha?
— E o que é isso? Algum veneno? — eu não fazia ideia do que estavam falando, mas deveria ser algo importante.
— Kryptonita vermelha é uma espécie de pedra vermelha que envenenou-me uma vez, e me fez ser uma estúpida com as pessoas à minha volta.
— A Seeg estava sendo bem grossa nos últimos dias. — Nia comentou e eu a olhei com preocupação. — O sintoma evoluiu para a perda de memória?
— Sim! E precisamos tirar ela do corpo da Seeg, para que não evolua para outro sintoma. — Lena falou.
— Lena e eu iremos trabalhar em uma arma que vai retirar toda a Kryptonita do organismo da Seeg, a arma que usamos para retirar Kryptonita da Kara é de potência menor. A quantidade que a Seeg possui é bem maior do que a Kara teve.
— Não podemos errar na tentativa de retirar a Red-K.
— Após retirar, a minha memória será restaurada?
— Infelizmente não temos uma resposta para essa pergunta, Seeg.
— Há uma grande possibilidade da Red-K ter apagado definitivamente suas memórias Seeg. Essa é a minha opinião, a qual Alex não compartilha. — suspirei ao imaginar a possibilidade de não me lembrar de tudo o que aconteceu em minha vida vida após ter deixado o meu planeta. — Tudo bem, Seeg?
— Eu vou ficar. — me virei para Kara. — Mas, se isso acontecer. Se mesmo com o meu corpo livre da Red-K eu não lembrar de nada, você promete me contar tudo sobre o que aconteceu com o nosso planeta e o que aconteceu com os nossos pais?
— Prometo, Seeg. Você vai saber tudo o que aconteceu com Krypton e as nossas famílias. Provavelmente, você sentirá raiva ao descobrir algumas informações, mas eu prometo que não vou te esconder nada.
— Obrigada. — me virei para Alex e Lena. — Eu posso sair para andar um pouco? — Alex olhou-me com preocupação e eu já estava esperando pelo não, quando Nia interveio.
— Eu vou com ela, Seeg não vai se perder. E eu garanto que ela não vai usar os poderes dela em público.
— Seeg eu trouxe algo pra você. — olhei para uma mulher de olhos azuis e ela se aproximou colocando um óculos em meu rosto. — Eu o encontrei caído no chão do seu quarto. Ele vai te ajudar com os ruídos e a visão. Eu sou a Imra. E eu passei no seu apartamento para pegar algo que eu havia esquecido na noite em que eu dormi lá.
— Dormiu em meu apartamento?
— Sim. E foi no quarto de hóspede, a Nia ainda precisava de ajuda por causa do ferimento da perna e você me pediu para cuidar dela. — desviei o meu olhar para perna de Nia e notei que realmente ela possuía um leve machucado.
— Está tudo bem, já não estou sentindo dor. Vamos ao Parque, eu aposto que você vai adorar o hot dog de lá. — concordei com ela, e saímos em seguida da agência.
***
Eu estava sentada na grama bem verde apreciando a movimentação de pessoas e seus animais, enquanto Nia havia ido comprar algo para comermos.
— Não é a sua comida preferida, mas eu sei que você gosta. — Nia sentou ao meu lado e me entregou um hot dog. Não era ruim, mas achei pouco. — Sua comida preferida é a culinária japonesa. Você viveu no Japão após chegar a terra. Eu não sei muito desse tempo, porque você não falou muito. O que eu sei, é que seus pais adotivos eram incríveis e que você os amava.
— Algum amigo?
— Uma amiga, que eu acredito que foi algo a mais em algum momento da vida de vocês. O nome dela é, Aimi.
— Em que momento eu fui contaminada por essa Red-K, Nia?
— Eu não… A explosão no laboratório antes de voltarmos para a terra. — a olhei sem entender suas palavras. — Alguns dias atrás eu fui sequestrada e o sequestrador me levou para fora da terra, quando você me resgatou, antes do portal que nos levaria de volta à terra fosse aberto, ocorreu uma explosão a qual liberou um gás vermelho. Aquele daxamita, a culpa é dele.
— Daxamita? O Non me contava história sobre os daxamitas, de como eles eram cruéis com seu próprio povo. — suspirei ao pensar no Non e na minha mãe. — Eles estão mortos, Nia? A minha mãe e o marido dela?
— Seeg…
— Tudo bem, você não precisa responder, o seu olhar já me deu a resposta. — respirei fundo e terminei de comer o hot dog. — Como nos conhecemos?
— Você estava indo para Metrópolis e eu estava me mudando para National City. Eu tive um problema com a pessoa que eu havia pego carona e você me resgatou em um posto de gasolina. Seeg, te conhecer foi o melhor que aconteceu na minha vida.
— Eu sinto o mesmo, Nia. — falei olhando nos olhos dela. — Eu olho para você, e sinto que seria capaz de qualquer coisa, só para te proteger.
— E eu não duvido. — Nia se aproximou e eu a envolvi com um braço trazendo-a para junto do meu corpo. Depositei um beijo sobre os fios pretos dela e fiquei apreciando o momento.
***
Entrei em meu apartamento acompanhada da Nia, e ela me informou que iria tomar um banho e depois faria o nosso jantar.
Enquanto isso, eu deveria seguir para o quarto, mas os meus passos foram interrompidos quando ouvir alguém chamar pelo meu nome, era uma voz de desespero e eu agir no impulso e voei atrás daquela voz que chamava por mim.
Pousei próxima a um enorme galpão, e usei minha visão de raio-x. Havia uma garota presa junto a uma mureta e um pouco distante dois garotos que a observavam com um sorriso estranho.
— Será que seu papai vem te salvar, pequena Sarah? — o mais velho falou com um sorriso que continha escárnio misturado a raiva.
— Eu acho que não, né? Ele é bem atrasado, do contrário o seu pai estaria vivo. — o outro falou chamando a atenção para si.
— Aquele incompetente vai entender a dor que eu estou sentindo por culpa da incompetência dele. — retirou uma faca e caminhou em direção a garota, parando os passos quando eu me coloquei à frente dele. — Quem é você?
— Quem vai impedir você de agir de forma impulsiva e estúpida.
— Nick, acerta ela. — olhei para o outro garoto e prendi os pés dele com o meu sopro congelante, enquanto o outro acertou-me com a faca, o que provocou a quebra do objeto e um corte na mão dele.
— Acidentes acontecem, garoto, mas o que você fez a Sarah é criminoso, e você será responsabilizado pelo seu ato. — o joguei ao chão e em seguida amarrei os dois.
Me aproximei da garota e a soltei das cordas que ela estava presa, em seguida ela envolveu-me em um abraço apertado.
— Obrigada, Seeg. Eu não sabia se você conseguiria me ouvir tão longe, mas você disse que eu sempre podia contar com você, que estaria perto.
— Está tudo bem agora, eu preciso levá-la para sua casa. Você só vai ter que me indicar a direção, porque eu não lembro.
— Não lembra?
— Eu perdi as minhas memórias, eu só sei o seu nome porque ouvir eles chamando.
— Mas, como você veio me salvar?
— Você me chamou. Eu segui o som da sua voz. Você confiou que eu poderia te salvar Sarah, não importava a minha memória, você sabe quem eu sou e confia em mim, eu tinha que estar aqui.
— Obrigada.
— Você sempre pode contar comigo, é só chamar que eu venho voando. — depositei um beijo sobre os fios castanhos dos cabelos dela e a peguei no colo.
Voei em direção a casa da Sarah, e pousei em frente a ela.
— Acho melhor você ir. A mamãe e o papai não sabem dos seus poderes. Eles vão achar estranho te encontrar aqui.
— E o que você vai dizer a eles? Aqueles garotos precisam ser presos, Sarah.
— Eu vou dizer que a Aster me salvou, e que ela já foi embora.
— Aster?
— É o seu nome de heroína, Seeg. Eu vi as notícias do julgamento do Mon-El. — a olhei me sentindo confusa. — Você não faz ideia do que eu estou falando. — dei um leve sorriso. — A Supergirl vai te explicar tudo, ou a Nia. Agora você precisa ir.
Me despedi da Sarah e voltei a voar, agora de volta para National City.
***
Me aproximei da Nia e a observei com atenção enquanto ela terminava de preparar o nosso jantar.
— Você saiu?
— Sim… A Sarah me chamou, ela precisava de ajuda.
— Você se lembrou da Sarah? — Nia perguntou e olhou-me com esperança.
— Não. — me aproximei da bancada que separava a sala da cozinha e me sentei em um banco alto. — A Sarah me chamou de Aster. Eu gostei do nome, lembra o nome da minha mãe.
— Está tudo bem com a Sarah?
— Sim.
— Você viu a Lana? - fitei a Nia em silêncio por alguns segundos. — É a mãe da Sarah. E pela expressão, acredito que a resposta para a minha pergunta é não.
— Eu deixei a Sarah na porta da casa dela. A mãe dela não sabe que eu tenho poderes. É tão estranho não me lembrar de como conheci a Sarah, e como confiei em contar sobre os meus poderes. Poderes a qual eu acordei hoje e não imaginava que os tinha. Nia, você acredita que eu terei minhas memórias de volta?
— Eu acredito que a Lena e a Alex vão fazer de tudo para que você fique bem, Seeg. E só isso importa.
Queria discordar da Nia, mas eu sabia que se eu fizesse isso a deixaria preocupada, e eu não queria ser responsável por uma expressão de preocupação ou tristeza no rosto da Nia.
— Vamos jantar? — concordei e comecei a ajudar a Nia a colocar a mesa.
— O cheiro está incrível.
— Estou torcendo para que o sabor também esteja incrível.
Jantamos em meio a conversas descontraídas sobre como a Nia e eu, nos conhecemos e nos tornamos amigas e colegas de apartamento. E quanto mais eu conversava com a Nia, eu entendia que havia um sentimento que era maior do que somente amizade pela morena de sorriso doce. E entendia que a Nia não fazia ideia dos meus sentimentos e eu precisava mudar isso, precisava mostrar para Nia, que eu a amava como amiga, mas a amava também como mulher e que eu queria construir uma família com ela.