A Rosa Branca

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     Certa vez, acordei assustado com um som alto seguido de um flash de luz azul e vermelha que iluminou minha janela, o barulho das sirenes fez com que os cachorros acordassem toda a vizinhança. Então desci as escadas e fui até a cozinha, o café da manhã estava na mesa enquanto minha mãe olhava pela janela, "acho que não vão encontrar ele".
      Foi o que eu disse naquela manhã, mas vamos começar do começo, me chamo Vincent, mas pode me chamar de Vince, meus amigos me chamam assim, enfim, essa é a história de Wann, um vilarejo pacato, esquecido por Deus, pequeno e sem muita gente, Wann é tão simples quanto é enigmático.
     Já faz um tempo que crianças vem sumindo em Wann, aconteceu com o irmão do meu pai quando eles ainda eram crianças, mas já faz muito tempo, desde o sumiço do tio Charlie muitas outras crianças vem sumindo, as vezes mais de uma por ano e ninguém sabe quem ou o que está por trás disso
     Faz três dias que meu irmão sumiu, a polícia já iniciou as buscas mas assim como nos outros casos ninguém sabe de nada, o último a vê-lo foi Ethan, nós três estávamos no bosque mas eu me perdi deles, voltei pela trilha de pedras e sentei em um banco que fica na entrada do bosque, minutos depois Ethan apareceu, se sentou do meu lado e disse que achava que o Dylan estava comigo, a demora do Dylan era estranha, mas ele era meu irmão mais velho e sabia como voltar então não fomos procurar ele, eu e Ethan esperamos ali até escurecer, Dylan deveria ter saído antes de nós e a polícia proíbe a entrada de crianças no bosque a noite devido aos mitos locais, estão me despedi de Ethan e fui pra casa, não preciso nem falar que o Dylan não tinha chegado lá, minha mãe ligou pra polícia e lembro que ela já chorava ao telefone.
     Em Wann tem um pequeno bosque, as crianças costumavam brincar lá até os desaparecimentos começarem, hoje em dia só o Dylan gostava de ir lá, ele sempre me levava lá para brincar, mas ele não brincava, ele achava que algo no bosque estava ralecionado com os desaparecimentos, então o Ethan começou a ir comigo, assim eu não me sentia sozinho e tinha um amigo para brincar.
     Dizem que no meio do bosque tem uma cabana velha, lá moraria um homem velho que pega as crianças que entram no bosque e depois elas nunca mais são vistas denovo. Esse boato é bem antigo, mas o Dylan disse que esse homem da cabana deveria ser preso, no entanto a polícia não tinha nenhuma prova contra ele, meu irmão queria achar provas que condenassem o velho e por isso ele vivia dentro daquele bosque investigando.
     Mas eu e Ethan não íamos com ele, não pra investigar, a gente ficava brincando de esconde-esconde nas árvores ou de pular em pedras no riacho, os adultos diziam que não podíamos entrar no riacho, a correnteza machucaria a gente, também não podíamos jogar coisas no riacho pois a água de Wann vinha dele.
     A nossa casa é do lado do bosque e quando Dylan não estava lá ele estava no porão, lá era como uma casa para ele, as vezes ele subia para comer e as vezes nem isso, ele estava obcecado por aquele bosque, uma vez ele me disse que pensava ter ouvido sussurros vindo de lá de dentro, dias depois ele sumiu.
    Alguns dias atrás entrei no porão, lá estava um pouco sujo, tudo meio empoeirado,tinha até umas aranhas mortas nas próprias teias, era úmido e tinha um cheiro forte de mofo, meu irmão não cuidava muito bem daquele lugar, não aparentava ser muito "habitável" mas era a cara do Dylan, na perede eu vi um daqueles painéis, cheio de fotos de crianças, todas desaparecidas, no verso das fotos estavam escritos dados sobre cada pessoa, como a idade, nome e último local onde foi visto, algumas estavam ligadas entre si com um fio roxo de lã e todas estavam ligadas a uma foto do bosque bem no meio do painel com um fio vermelho, na escrivaninha ao lado tem uma planta do bosque visto de cima, foi desenhada a mão, provavelmente pelo Dylan, não estava tão bonita assim, segurando um dos lados do papel tem um diário, quando eu peguei ele a planta se enrolou e caiu no chão, coloquei tudo de volta no lugar e olhei para uma prateleira em cima da escrivaninha tinha um copo com uma rosa e com um bilhete dizendo "tem cheiro de ferro e nada de espinhos" eu cheirei e ela realmente tinha cheiro de ferro era muito estranho, mais estranho ainda era que nunca tinha visto uma rosa em Wann antes disso, depois eu peguei o diário do Dylan e subi para o meu quarto porque o cheiro de mofo e ferro ali era insuportável.
     Acho que o Dylan tinha recém começado a escrever, não tinha nem dez páginas escritas no diário, lá ele escreveu sobre a flor "Hoje eu estava andando no bosque ouvindo nikita no meu walkman, então eu resolvi atravessar o riacho, acho que eu nunca tinha ido lá antes, logo depois de atravessar eu senti um cheiro muito forte, de ferro, vinha de uma parte mais densa do bosque, eu fui atrás e fiquei surpreso ao me deparar com uma roseira, acho que nunca tinha visto uma rosa por aqui, ela era muito grande e era dela que vinha o cheiro, tinha uma rosa branca no meio da roseira cercada por muitas rosas vermelhas, eu teria pegado ela mas não queria pisar nas rosas então peguei uma rosa vermelha e coloquei na minha prateleira com um bilhete avisando sobre o cheiro e a ausência de espinhos que eu também achei muito estranho."
     Eu chamei o Ethan e mostrei tudo para ele ao saber que o Dylan estava investigando o bosque, sem pensar duas vezes ele se decidiu a ir para o bosque, eu não queria ir, estava morrendo de medo e ele também estava, disse que eu não iria e imaginei que sendo assim ele também não iria mas para a minha infeliz surpresa, ele foi. Vi pela janela do meu quarto ele entrando no bosque, esperei alguns minutos olhando pela janela, mas ele não voltava, até que eu abandonei o medo e corri para dentro do bosque também, corri por uns vinte minutos pela trilha de pedras passei por uma bifurcação e peguei a direita, corri mais uns dez minutos e cheguei na frente de uma casa, eu estava exausto, nunca tinha corrido tanto, tudo que eu queria era um copo d'água, mas pensando nos  boatos sobre aquele lugar preferi não bater na porta, então me virei e dei três passos no caminho de volta, mas eu estava com muita cede, olhei para a casa denovo por alguns segundos e ouvi:
     - É linda, não é.
     Me virei rapidamente e vi um velho vindo pela trilha de pedras, ele notou que eu estava cansado e me ofereceu um copo d'água, minha sede falou mais alto naquele instante, e eu aceitei entrar, era um lugar aconchegante tinha um cheiro bom de comida, ele me pediu um favor em troca do copo d'água, me disse que um amigo lhe contou sobre uma rosa branca linda que estava do outro lado do riacho, ele me disse que amava rosas mas já não tinha mais idade para pular em pedras, então pediu para que após tomar a água eu procurasse a rosa para ele, eu aceitei já sabia como encontrá-la e talvez o Dylan também estivesse atrás dela, o velho disse que se eu fosse rápido poderia até voltar para o jantar, então sem pensar muito eu corri para o riacho, pulei de pedra em pedra com cuidado e vi que uma pedra tinha sido virada devido a sua superfície molhada, todas as outras estavam secas, então pensei que o Dylan poderia ter acabado de passar por ali, seguindo em frente comecei a sentir aquele cheiro de ferro então sabia que estava indo na direção certa, andando mais alguns metros o cheiro já estava enlouquecedor nunca tinha sentido um cheiro tão forte então entre as árvores vi o Ethan se abaixando para pegar a rosa branca fui me aproximando mais até que vi ele cair e ficar imóvel então gritei o nome dele bem alto ele olhou para mim e foi engolido pela terra, antes que eu pudesse chegar perto o buraco se fechou e mais uma rosa brotou do chão, com lágrimas nos olhos e uma expressão de horror no rosto eu me viro para correr e la está o velho, ele disse:
     - Lamento que tenha visto isso.
     Ele parecia envergonhado e imensamente melancólico, e com a minha morte certa em mente eu perguntei a ele o motivo, o porque dele sacrificar crianças com vidas inteiras pela frente, ele me contou uma breve história:
     - Já faz muitos anos, eu e minha esposa, Rose, nos mudamos para Wann, recém tínhamos nos casado, estávamos dando os toques finais na nossa casa nova, Rose amava esse bosque ela sempre caminhava pra lá e pra cá, ela é uma mulher incrível, doce, gentil, amável todos gostavam dela, nós estávamos caminhando como qualquer outro dia normal, queriamos atravessar o riacho e conhecer melhor o lugar e foi o que fizemos, até que ela sentiu um cheiro "agradável" como ela disse seguimos o cheiro e vimos uma rosa linda, branca como a lua, Rose foi pegá-la e eu nem prestei atenção direito, ela logo caiu desacordada, desesperado eu me ajoelhei no lado dela vi que não tinha batimento algum ela estava fria e eu desabei a chorar até ouvir uma voz, dizendo que tudo ficaria bem, a voz dela, vinha da rosa.
     - E tudo vai ficar bem Quentin, apenas mate o garoto. Disse a rosa.
     O velho balançou a cabeça concordando com ela, ele tirou uma faca de dentro do seu casaco e olhou no fundo dos meus olhos e eu disse:
     - Você acha que a sua esposa é a rosa?
     - Eu sou a Rose garoto, mate ele logo Quentin. Disse a rosa interrompendo a conversa.
     O velho estava obedecendo a rosa e eu disse:
     - Sua esposa morreu Quentin, eu sinto muito, mas essa não é a Rose, ela gostaria disso? Uma mulher doce, gentil e amável faria isso? Mataria crianças inocentes?
     - Não fale mal dela. Disse Quentin.
     Pensei não ter esperança até dizer:
     -Qual sua melhor lembrança?
     Surpreso e com uma certa duvida em mente Quentin disse:
     - No último verão antes do nosso casamento, sentamos na beira de um lago e conversamos sobre a vida durante horas, não é Rose?
     Eu lembro, aquele dia foi reconfortante. Disse a rosa.
     O velho deixou a faca cair no chão, uma lágrima escorreu e ele disse:
     - No último verão antes do nosso casamento a Rose visitou os pais dela, não nos vimos durante o verão.
     A rosa não disse mais nada, Quentin, chorando, andou rápido até ela, pegou sua faca e cortou a rosa branca, todas as rosas murcharam e morreram então ele disse que sentia muito pegou a rosa branca na mão e gritou enquanto os espinhos venenosos perfuravam sua pele, então ele caiu soltando a rosa, porém dessa vez nenhuma rosa vermelha brotou ali.

A Rosa BrancaWhere stories live. Discover now