Primeiramente, eu gostaria de deixar claro que minha intenção com esta carta não é, de maneira alguma, tentar explicar o pretexto de minhas ações visando alcançar a compreensão ou empatia de qualquer pessoa que venha a ler isto. Eu, enquanto humano, nunca devi satisfação de minhas ações à ninguém, nem mesmo para aqueles que se diziam ser meus pais. Mas, o que busco de fato, é registrar aqui minha total desilusão com este mundo perecível e, simultaneamente, minhas conquistas, para que um dia saibam que deus existiu.
Enfim, permita-me introduzi-lo ao meu trabalho, para que possa compreender que não brinco quando afirmo meu posto de divindade. Eu sou um artista. De um tipo que trabalha com uma forma bem diferente de arte. Bem, devo dizer que não nasci com este talento. Tive que me esforçar muito, durante três anos, para conseguir meu diploma em engenharia genética. É isso que fazia. Brincava com o DNA de seres vivos. Eu me deleitava naquilo, como uma criança em uma piscina de bolinhas, me sentia eufórico, vivo, agitado, quase explodiria com a energia que me era concedida ao realizar cada uma de minhas obras. Eu poderia criar ali um vírus que assolasse toda a espécie humana, um ser vivo com características físicas atribuídas a ele que antes pertenciam a outro organismo. Como dar a visão de um gato à um ser humano! Seria belo! Exuberante!
Mas como o leitor deve imaginar, esse tipo de atividade não poderia ser praticada em um ser humano. Eu nunca entendi o porquê. Talvez se achassem especiais de mais para serem confrontados com a realidade de estar em um laboratório tendo cada coisa o que os torna individuais decididas por outra pessoa. Por ora, preciso esclarecer que me denominei como “pessoa” anteriormente porque nesta fase de minha vida eu ainda era mais um simples membro deste agrupamento de seres vivos, os Homo Sapiens. Apesar de possuir todo aquele poder estonteante nas mãos, eu ainda não me considerava algo transcendental. Ora, seria muita tolice minha acreditar que a humanidade não pudesse alcançar algo como aquilo. Pois é, tenho que reconhecer que este espécime, apesar de ter me causado diversas frustrações, é fabuloso quando se trata do domínio do conhecimento. Parte disso deve ser por causa de sua natureza ímpia, que os leva a buscar ao máximo estar acima de outras criaturas vivas e se colocarem na ilusão de que estão acima de tudo, até mesmo das leis naturais. De qualquer forma, isso não invalidaria o fato de que os humanos eram sim capazes de chegar a esse nível, e eu sabia disso. Outro fator que também foi determinante para que eu não duvidasse de meu ordinarismo, era que qualquer um que estudasse engenharia genética e tivesse acesso a um laboratório com aqueles equipamentos poderia fazer aquilo. Eu até então não tinha nada de especial. Mas o que eu conseguiria fazer em seguida, sozinho, isso sim seria transcendente. Isso sim me colocaria no pedestal que estou agora, enquanto escrevo esta carta.
Mas afinal de contas, o que eu fiz? O que eu concedi para alcançar o entendimento de que, de fato, pertenço a um lugar no Monte Olimpo, ao lado de todo o panteão grego? Eu fui capaz de reverter a morte. Trazer de volta ao mundo dos vivos quem já não mais pairava sobre ele. Fui capaz de enganar o destino, pelo menos por uma vez.
Deixe-me primeiro revelar quem foi a pessoa que trouxe de volta do mundo dos mortos. O ser que eu acreditava, quando ainda era um ingênuo homem comúm, ser um anjo na Terra. A mulher que foi responsável por toda a felicidade na qual pude me deleitar em minha adolescência. Não é de minha intenção revelar seu nome, mas para que este que lê minha carta não se confunda, chamarei ela pela alcunha de Eliz. Eu conheci Eliz ao entrar no ensino médio. Ela era de minha turma. Desde o primeiro momento que a vi, senti um forte sentimento no meu peito, que logo se espalhou para todo o meu corpo, como uma vibração contagiante e calorosa, que fizera meus batimentos cardíacos acelerarem. Era o amor. O amor que senti desde a primeira vez que vi aquela mulher, como se, diante de meus olhos, eu olhasse para uma criatura angelical. Criatura esta que me salvaria da solidão na qual me estanciava há tantos anos. Foi algo maravilhoso. E melhor, era recíproco. Não demorou muito para que eu e ela começássemos a nos aproximar cada vez mais e então, nos tornamos namorados. Ah! Aqueles momentos aveludados na qual vivi ao lado de Eliz e pude desfrutar do mais puro amor com aquela mulher que, até então, significava tudo pra mim, foram fantásticos! Cada vez mais nos apaixonávamos, cada vez mais estávamos perto de nosso matrimônio.
Bem, para minha tristeza, não demorou muito para que a vida derrubasse os muros que nosso amor havia erguido. Como um chute em uma parede de algodão, tudo desmoronou rapidamente. Desmoronou em cima de nós dois. E o pior é que não era algodão, como a vida fez parecer. Então machucou. Machucou muito.
Minha doce Eliz foi diagnosticada com aquele mal terrível, que existe neste mundo como uma punição divina, levando todos na qual amamos. E como um carrasco, nos faz assistir enquanto a pessoa amada é tirada de nossos braços. Bem, se ao menos essa maldição fosse semelhante a um carrasco na maneira como executa suas vítimas e tirasse vidas de um modo célere e indolor, então estaria bom. Mas esta praga mata lentamente, nos levando a passar por experiências de dor inconcebíveis e aniquila nossa alma até não sobrar mais nada. Sim, eu sei de tudo isso, porque eu pude sentir através das dolorosas súplicas de Eliz. Eu estive com ela o tempo todo, durante sua saúde, seu tratamento e enfim, tive que vê-la partir. Assisti afoito enquanto aquele ser gracioso era tirado de mim. Ali se foi também uma parte de minha pessoa.
Após a triste perda que sofri, passei a me dedicar apenas aos estudos. E ali estava eu, perdido no conhecimento infindável que adquiria. Minha vida então se tornou monótona, mais ainda que antigamente. Agora era apenas estudar, dormir, comer e claro, se embriagar. Me encher de álcool até que eu não pudesse mais permanecer em pé. Quando dopado por causa das bebidas, eu ainda conseguia vê-la em meus sonhos. A sensação me colocava em uma ansiedade terrível e eu não aceitava que meu amor fosse embora ao abrir meus olhos.
Por dias fiquei assim, até que não aguentei mais. Comecei a vê-la até quando não estava sonhando. Ela estava por toda a parte. Até mesmo no espelho de meu banheiro eu podia ver sua sombra atrás da porta. E ela permanecia assim, me observando como se esperasse que eu a alcançasse. Era impossível suportar tudo aquilo.
Então, me lembro vagamente que, em uma madrugada eu me levantei, desesperado, e fui em busca de uma pá que estava em minha garagem. Entrei em meu carro, com o sangue borbulhando de variadas emoções, e dirigi até o cemitério onde Eliz estava. Não demorou muito para que eu encontrasse seu túmulo. Minhas memórias podem me enganar, mas eu acho que o encontrei tão facilmente porque ela estava parada diante dele. Pelo menos foi o que observei por um momento.
Eu fiquei cavando no meio daquela escuridão, na qual a única coisa que me cercava eram corpos sem vida, que pareciam fazer os mais variados sons enquanto eu desenterrava a minha amada Eliz. Por algum motivo eu não senti medo de estar ali, pois era como se eu fosse mais um entre os corpos sem alma. Sem Eliz ao meu lado, eu já não vivia mais.
Quando finalmente alcancei seu caixão, eu ignorei todos os vermes da terra que estavam por perto, toda a sujeira da cena, e não pensei duas vezes para abrir o caixão e ter a triste visão do corpo de Eliz, já sem alma. Senti um frio. Ela já estava ainda no início de sua decomposição. Eu acariciei seu rosto, com lágrimas derramando e caindo sobre o cadáver, lembrando da solenidade de nossa vivência juntos. Usando minha força, arranquei fios de seu cabelos direto da raíz e agora eu tinha posse de seu DNA. Era tudo o que eu precisava. Eu fechei o caixão e comecei a jogar a terra sobre ele novamente com minha pá. Não me esforcei muito para fazer parecer que o túmulo estava intacto, afinal, isso nem importava, ninguém perceberia.
Saí o mais rápido que pude daquele cemitério e conduzi meu veículo de volta à minha moradia. A partir de então, comecei a planejar. Eu tinha estudado sobre isso mas nunca havia tentado. Brinquei de várias maneiras com o DNA de inúmeros microorganismos em meu laboratório, fiz alterações aqui e ali, mas nunca havia tentado uma clonagem. Sim, clonagem. Era o que eu faria. Era a única maneira em que eu acreditava que poderia trazer de volta o que me foi tirado.
A partir de então, comecei a trabalhar clandestinamente para pessoas poderosas que recorriam a mim para realizar seus mais variados desejos egoístas. Seja o de que seu filho fosse alto, saudável, com tendências a ter talento em certas áreas, enfim, o que quer que esperassem que seus descendentes tivessem, eu os concederia. Mas claro que tudo isso tinha um objetivo que logo consegui alcançar. Uma dama de demasiada riqueza me procurou buscando unicamente que sua criança fosse portador de uma beleza infindável e que estivesse livre de certas anomalias genéticas que pairavam sobre sua família. Logo me lembrei de Eliz. Era a oportunidade perfeita. Eu realizaria um implante na mulher com um óvulo fertilizado de DNA modificado, que, a pedido da mulher, fizesse com que a criança que nascera possuísse boa aparência e saúde. É claro que o DNA que coloquei naquele óvulo era o que estava no cabelo que arranquei do cadáver, afinal, a beleza de Eliz era incomparável e seus traços físicos cumpririam muito bem as exigências de minha cliente. Eu traria ela de volta à vida. É claro que me passara pela cabeça pensamentos a respeito do quanto poderia funcionar. Afinal, aquele seria um clone e não ela de fato, mas eu não conseguia me manter nessas reflexões por muito tempo. Minha alma só estaria confortável ao concluir aquilo.
Realizei o implante e recebi o pagamento, embora nenhum dinheiro no mundo me satisfazia mais do que saber que eu havia concluído a primeira etapa de algo muito maior. A mulher foi embora acreditando que o implante, na qual apenas eu e ela tínhamos ciência, seria esquecido ali depois de meu pagamento. Mas, utilizando da internet e outros meios informativos, eu consegui manter conhecimento de sua vida para garantir que não sairia de meu alcance. Eu esperei longos dezesseis anos, para revê-la quando já estivesse na idade em que nos conhecemos. Nesse tempo, passei meus dias me enchendo ainda mais com álcool e tendo pesadelos em demasia com Eliz. Isso quando eu conseguia dormir, pois a ansiedade de imaginar que eu poderia vê-la novamente ao final de minha espera não permitia que minha alma descansasse tão facilmente.
Quando chegou a hora que eu tanto aguardara, eu consegui entrar na vida da garota. Eu descobri o colégio onde ela estudava e consegui um emprego como professor de biologia. Não foi uma mera coincidência a escola precisar de um professor de biologia naquele ano letivo, mas isso não vem ao caso, e eu prefiro evitar entrar em tantos detalhes. Vamos ao que realmente importa: o nosso caloroso reencontro.
Ah... Sim... foi supremo. Quando ela entrou em minha sala de aula senti como se fosse eu quem tivesse sido trazido de volta à vida. Foi mágico, algo que jamais esquecerei. Eu tive que resistir fortemente a vontade de abraçá-la, de beijá-la, de dizer o quanto senti sua falta. Foi como ter alcançado aquele sonho que você almejava desde a infância. Foi como chegar ao ápice do que eu poderia realizar e, pensando bem, me lembrou de quando eu vi Eliz pela primeira vez. Ela não só parecia com aquela na qual experienciei meus melhores momentos, mas até mesmo vários de seus gostos e preferências eram como os dela. De certo, não era totalmente idêntica em personalidade, mas eu consegui ajeitar até mesmo isso depois que a conheci. Eu me aproveitava de cada oportunidade em que pudesse interagir com ela para me aproximar. Até que entramos num relacionamento, de professor e aluna. Sim, era uma garota ousada, mas ela pensava que era apenas isto: um relacionamento proibido eticamente. Ela jamais poderia imaginar que não só a ética estava sendo prescindida, mas também as leis naturais. Eu hoje tenho convicção de que aquilo não era um clone. Meu coração acelerava quando eu a avistava, era um efeito que apenas Eliz causava em mim quando ainda estava viva. Só podia ser ela. Talvez estivesse viva o tempo todo e perdeu suas memórias a respeito de si mesma e eu. Talvez ela tivesse sido enterrada viva naquele dia e eu, ao abrir seu caixão, garanti que pudesse escapar. Eu escrevo essa carta agora, aos meus setenta e dois anos. Fazem trinta e oito anos que estamos juntos, eu e... Eliz? Bem, nos casamos assim que ela completou dezoito anos. Sua mãe que, certamente me reconheceria e poderia estragar tudo o que vinha almejando em tanto tempo, veio a falecer um ano antes em decorrência de um acidente de trânsito. Triste, mas eu consegui suprir o luto de Eliz quando isto aconteceu. Eu consegui substituir o papel de sua mãe e também fazê-la feliz. Foi tudo maravilhoso.
Eu havia conseguido ressuscitar alguém que deixara este mundo há anos. Havia recuperado minha amada. É por isso que agora, prestes a deixar este mundo, concluo que meu papel nesta Terra não era convencional. Eu, de certo, estava acima de todos os indivíduos desta espécie, por haver conquistado meus objetivos de maneira tão excepcional. Não sei dizer ao certo o que sinto agora que, mais uma vez, minha doce Eliz foi diagnosticada com esta maldita doença. Sim, novamente. Novamente esta maldição recaiu sobre tudo o que é meu. E, apesar de tudo que pude alcançar, já não posso mais vê-la partir de novo. Eu não aguentaria. É com pesar que informo, por meio desta carta, que Deus está morto. Nem mesmo ele foi capaz de resistir a um coração partido.
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O Geneticista
Short StoryA área da engenharia genética pode nos proporcionar muitas experiências interessantes, mas até que ponto alguém poderia chegar? Descubra o que um homem é capaz de fazer por amor.
