OLÁ babies, AVISO NO FINAL DO CAPÍTULO!
O relógio da portaria piscava 23h58 quando empurrei a porta de vidro e entrei no prédio. As luzes artificiais espalhavam sombras compridas pelo chão de mármore, e cada passo meu ecoava como uma denúncia. Eu só queria chegar ao meu apartamento, tirar os sapatos e esquecer o peso daquele dia. Mas havia algo diferente no ar. Um tipo de tensão que me deixou alerta antes mesmo de entender o que era.
Fui remexendo na bolsa atrás das chaves, e foi aí que ouvi uma voz.
— Boa noite.
Olhei rapidamente, e meu coração disparou sem explicação.
Encostada na parede, ao lado da porta de entrada, estava uma mulher — altura média, de postura firme, cabelo preso de qualquer jeito num coque alto. Ela usava uma jaqueta de couro escura e tinha um crachá pendurado discretamente na cintura. Seu olhar era sério, atento... e, ainda assim, havia uma estranha gentileza na forma como me observava.
Eram verdes, bem verdes.
— Boa noite — respondi, tentando soar natural, mas minha voz saiu mais fraca do que eu queria.
Atrás dela, dois homens de colete da perícia lacravam o apartamento 302 — o andar de cima do meu. Notei pela prancheta na mão de um deles com o nome do apartamento escrito. Já tinha visto algumas vezes em algum TV Show.
Franzi a testa, desconfortável. Não era comum ver movimentação ali àquela hora. Não era comum ver movimentação nenhuma no meu prédio, para ser honesta.
Ela não disse mais nada. Apenas acompanhou minha passagem com o olhar.
Subi as escadas mais rápido do que o normal. Entrei em casa e me preparei para dormir.
O dia seguinte seria longo.
(...)
No dia seguinte, tudo parecia ainda mais estranho. No trabalho, abri meu e-mail como de costume, com a cabeça indo e voltando da imagem daquela mulher da noite anterior — e encontrei uma mensagem sem remetente.
Anexado, havia uma pasta com documentos, contratos adulterados, esquemas de lavagem de dinheiro que envolviam diretamente a diretoria da rede onde eu trabalhava. Pessoas para quem eu sorria todos os dias. Pessoas que, agora, pareciam muito mais perigosas do que eu jamais imaginara.
Por um segundo, pensei em apagar tudo. Fingir que nunca vi.
Mas algo dentro de mim — talvez o mesmo instinto que me fizera acelerar o passo ontem — me impediu.
Copiei tudo para um pen drive e guardei como se fosse uma arma carregada. Não sabia quem tinha mandado aquilo. Não sabia no que estava me metendo.
Só sabia que estava sozinha.
Ou pelo menos, era o que eu pensava.
O relógio do computador marcava 15h17 quando o primeiro calafrio me percorreu a espinha.
Fazia mais de três horas que eu tentava agir normalmente no escritório, respondendo e-mails, organizando planilhas, participando de reuniões que pareciam intermináveis. Mas minha cabeça estava em outro lugar: nos arquivos que escondi em um pen drive minúsculo e guardei dentro do forro da minha bolsa.
A todo instante, tinha a sensação de que alguém me observava. Um colega que demorava demais a desviar o olhar, um gerente que sorria de um jeito estranho, o telefonema que caiu antes que eu pudesse atender.
Talvez fosse paranoia. Talvez não.
Quando finalmente consegui sair mais cedo — sob o pretexto de uma "enxaqueca súbita" —, meu celular vibrou.
Número desconhecido.
Mensagem curta:
''Oi, Camila. Esbarrei em você ontem no seu prédio! Precisava falar com você."
Meu estômago afundou.
A mente disparou em direções diferentes: Viu o que eu recebi? Sabe de alguma coisa da minha empresa? está... flertando? Não, essa seria a menos provável.
Parei no meio da calçada, o trânsito fervendo à minha volta, e senti a garganta apertar em ansiedade.
Lauren
O cheiro de mofo e ferrugem impregnava o apartamento 302. A cena era clássica: um corpo no chão, poucos sinais de luta, a violência meticulosa de quem sabia o que fazia. Mas havia algo estranho — pequenos detalhes que não se encaixavam na narrativa apressada da primeira equipe de investigação.
Revirei o ambiente com os olhos treinados, buscando anomalias. E foi no corredor, perto do tapete de entrada, que encontrei. Um chaveiro caído, simples, desgastado pelo tempo.
A letra "C" gravada num metal barato.
Ergui a peça com cuidado, usando luvas. Olhei em volta. Nenhum registro de visitantes. Nenhuma justificativa para aquele objeto estar ali.
Foi então que a lembrança me atingiu — a jovem mulher que cruzara comigo na noite anterior. Bolsa aberta, olhar inquieto.
E, por instinto ou talvez por algo mais que eu não quis nomear na hora, soube: aquilo era dela.
Sentada na cadeira, o cheiro de café inpregnava minha sala de estar. Abri a tela do meu celular, um antigo Motorola Razr v3 flip, e enviei uma mensagem pra quem eu sabia que responderia àquela hora.
''Preciso que me empreste sua moto. Prometo devolvê-la inteira :).''
AVISO: Lauren Intersexual.
Foi um capítulo mais de introdução, os seguintes serão bem mais longos.
YOU ARE READING
Entre Linhas e Sombras
FanfictionKarla Camila, secretária de uma poderosa rede de vendas, leva uma vida discreta, até que uma noite, ao chegar em casa, cruza na entrada de seu prédio com Lauren Michelle: uma renomada perita criminal, chamada para investigar um caso de morte suspeit...
