Ás vezes nós nos apegamos ao vazio, nós nos entediamos tanto fazendo a mesma coisa todos o santo dia que, uma hora, você sente falta de fazer a mesma coisa.
Nos apegamos a ilusões, pessoas que nos apunhalam pelas costas e nem dizem tchau, às vezes até mesmo a parentes que nem querem a nossa companhia. Mas no final de tudo, não conseguimos dizer tchau e seguir com a nossa vida, nos apegamos e novamente sofremos.
Meu pior erro foi ter me apegado ao inferno, o meu inferno.
Eu coloquei o meu uniforme ridículo mais uma vez, fiz a mesma torrada com manteiga que eu odiava mas continuava comendo do mesmo jeito pois era mais fácil de fazer e mais rápido.
Eu andava pelas ruas sem vida de meu bairro sem olhar para frente, afinal eu tinha me apegado tanto a essa rotina que tinha decorado o caminho todinho de minha casa para a escola. Mas não fazia questão de olhar para frente, eu apenas veria mais pessoas como eu, alienadas pela nova era e sendo criados para alimentar a sede de poder dos mais poderosos. Quem se importa do mesmo jeito não é mesmo?
É a mesma coisa de sempre, isso me irrita, eu sempre sinto o mesmo cheiro da padaria, sempre vejo aquele estúpido homem de gravata saindo do prédio da sua amante, eu sempre escuto as mesmas crianças brincando no parquinho de terra absolutamente acabado e que o governo nunca vai se importar pois afinal eles tem outras prioridades além de investir no futuro da sociedade.
As pessoas se apegam a coisas fora de nossos controles, e como eu disse anteriormente, eu me apeguei a escola ou para os mais intimos, inferno. Eu me apeguei pela a minha escola destruída, sim, destruída.
Eu andava pelos corredores imundos, enquanto observava os armários destruidos e jogados no chão, o teto com infiltrações, e logo a frente uma poça de água suja por conta do entupimento do vaso no banheiro logo atrás. Ninguém dá valor às coisas quando as obtém, apenas quando elas são perdidas e destruídas.
Eu subo as escadas escorregadias, ando mais um pouco e chego na minha sala, sento no mesmo lugar de sempre e encaro o quadro com sempre o mesmo conteúdo sem sentido algum para mim, mas que eu encaro e tento resolver.
Abro o caderno, pego o lápis, leio novamente o quadro e começo a copiar a matéria pela terceira vez, é o terceiro dia que eu venho para escola desde que ela foi fechada. Começou a ventar muito, e quando resolvi olhar para o céu me dei conta que estava chovendo, o teto nunca me fez tanta falta quato naquele momento.
Me foquei no quadro, pensei por mais alguns momentos e eu percebi que sabia resolver o maldito problema.
"Você ainda se dá o trabalho de vir até aqui, Kim Jongdae?"
Não podia ser verdade, não podia ser o meu pior pesadelo me observando todo molhado enquanto resolvo matemática. Era ele, Kim Minseok.
Ele foi meu amigo por anos, mas percebi que tinha sentimentos por ele, e o filho da puta sabia! Quando ele beijou a vadia da escola que sempre fez bullying comigo ele estava em plena consciência que eu estava assistindo, ele fez questão de esfregar na minha cara que eu era um nada para ele.
"Eu fiz uma pergunta"
Ele se aproximou de mim, a cada passo eu me sentia mais enojado, e não era dele, era por ainda sentir falta do seu perfume forte perto de mim.
"Você tem que seguir em frente, todo mundo já foi matriculado na nova escola e você continua vindo para cá"
"Você sabe que eu odeio 'todo mundo' eu não quero ir para a nova escola, ir para um lugar com cheiro de novo enquanto tenho as mesmas merdas de sensações horríveis que sempre tive, e que você sabe muito bem que eu tenho"
O sinal bate, ou pelos tentou. Ele devia estar sem bateria ou sei lá, eu não ligo.
Kim Minseok some, ele não estava mais lá. Eu fecho o meu caderno e me dirijo para a lanchonete, me sento no mesmo lugar, abro o meu lanche que era basicamente um sanduíche com um recheio qualquer que tinha na minha geladeira.
Você percebe como a escola é injusta? Como tudo que fazemos aqui vai ser uma realidade lá fora. Um ótimo exemplo é a divisão de grupos, os populares sentam em frente a entrada/saída, para que todos que passem por lá olhem as suas carinhas lindas; os nerds sentavam no meio, onde havia mais luz, onde poderiam estudar com mais facilidade, e existia o meu lugar: no canto do refeitório, do lado das últimas latas de lixo que quase ninguem usa.
Onde eu quero chegar? Nós somos criados num ambiente em que sempre seremos julgados, seja por nota ou físico ou rostinhos bonitos, você tem que se encaixar em um padrão e aqueles que não se encaixam em nenhuma das opções são encarados de outra maneira, são excluídos e descartados de certa maneira.
Eu quero gritar, gritar para todos que eu sou diferente, eu não tenho nada para oferecer além de lágrimas e quando eu amo algo, oferecer meu coração. Mas eu estou cansado de entregar meu coração e alguém o partir em trezentos pedaços e eu sair machucado.
- Jongdae? Jongdaaae?
Eu acordo de meu sonho e olho para os lados, uma sala colorida, alunos olhando para mim e Kim Minseok agachado me examinando com seus olhos arregalados.
- Você está bem?
Estampo um sorriso em meus lábios.
- Estou sim.
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Dream In a Dream [kms + kjd]
FanfictionTalvez tudo seja um sonho, mas e se nele só falasse verdades que ninguém nunca teve coragem de dizer?
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