Nossa Senhora

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Joyce se maquiou com cuidado em frente a um espelhinho de mão enferrujado. Ela esperava ter feito o melhor trabalho possível, ainda que as condições não fossem, sequer de longe, as melhores. É um pouco difícil passar batom (seco e contrabandeado) num cubículo de dois metros quadrados, sentada na ponta de uma privada lascada, com vinte outras detentas do lado de fora do banheiro, sendo que uma delas esmurrava sua porta. Mas aquilo era tudo o que tinha no momento e ela se sentia feliz mesmo assim.

Como não estar? Era dia de visita, finalmente, o primeiro depois de todo o desespero e o inferno que ela passara entre ser pega em flagrante com mais crack do que poderia fumar, a delegacia, celas imundas (não que fosse melhor agora), o julgamento e, enfim, a prisão. Ela tinha feito tudo aquilo por Nando – faria de novo se preciso – e agora ele a esperava na sala de visitas.

Ela precisava estar bonita para ele. Nando era o cara mais gostoso de todo morro. Sua pele brilhava no sol de verão e, mesmo com todo o calor que fazia naquela cidade, ele nunca parecia suado e ainda por cima cheirava bem, não era perfume, claro, mas sim cheiro de homem, de um bom homem.

E ele era seu.

Joyce sabia que ele estaria agradecido e ainda mais apaixonado. Não era uma visita íntima ainda, mas pelo menos eles poderiam se abraçar e trocar beijos desesperados como nos reencontros das novelas. Ela até conseguia ouvir a trilha sonora, Ivete Sangalo com sua voz suave como pêssego, o refrão de "Se eu não te amasse tanto assim" arrancando lágrimas dos telespectadores do horário nobre.

— Vaza daí! – repetiu a mulher que quase arrancava a porta do banheiro a pauladas. Uma metralhadora de palavrões veio logo em seguida. Tanto faz, ela era só mais um número na prisão, um rosto na multidão.

Joyce só via o rosto de Nando entre todos os outros. O resto era resto.

— Todo seu – Joyce disse, escancarando a porta com força e indicando o minúsculo cubículo para a magrela, que segurava um modes encardido, item raro por ali. Não tinha nenhuma bunda, a coitada.

Joyce nem respondeu à nova leva de palavrões, não valia a pena se dar ao trabalho, não por uma pobrezinha daquelas em seus piores dias. Ela tinha um homem para ver. O seu homem.

Por isso esperou, ansiosa, tentando não roer as unhas recém-pintadas de vermelho. Até a noite anterior estavam descascadas, horrorosas, mas uma alma caridosa em sua cela lhe emprestou o esmalte, tão legal quanto o batom dentro daquele lugar. Era uma senhorinha redonda e risonha, que adotava todas as garotas mais novas no bloco como filhas, e Joyce era seu bebê mais recente. Ela já gostava mais da matrona do que da própria mãe.

Nem se importou em ser revistada (e apalpada) pelo guarda bigodudo, que cheirava a loção pós-barba barata. Fez todo o ritual antes da visita sem reclamar, até mesmo mostrando a bunda e afastando as duas bandas, metade para que tivessem certeza de que não havia drogas ali no meio, metade para que o guarda desse uma boa checada em seu bumbum invejável. Ela não se importou. Nando estava do outro lado, e isso era tudo.

Joyce ajeitou pela última vez os cabelos e respirou fundo.

Mas não era Nando que estava sentado na cadeira de plástico da salinha encardida, esperando por ela.

Era sua mãe.

As pernas de Joyce ameaçaram ceder. Onde ele estava, afinal? Ela procurou por todos lados, algo verdadeiramente inútil, a menos que Nando estivesse escondido dentro da lata de lixo e pulasse dali como se fosse a maldita surpresa dentro de um bolo de aniversário. Joyce podia muito bem ter ficado parada ali por uma eternidade de dois minutos até que uma guarda de plantão a empurrasse no meio das costas.

— E aí, garota, vai ficar aí plantada feito uma samambaia? Fale com sua visita ou tire sua bunda nojenta daqui de uma vez!

Joyce deu dois passos à frente, tropeçando nos próprios pés, e então mais dois, sentindo-se flutuar como um dos malditos santos para os quais sua mãe tanto rezava. A velha, por sua vez, abria mais e mais o sorriso a cada passo da filha, lágrimas silenciosas escorrendo por seu rosto maltratado.

— Filha! Graças a Deus! – a mãe exclamou, agora aos prantos, abraçando Joyce, que poderia muito bem representar um poste na novela das nove. Onde estavam os amassos, os beijos apaixonados de Nando, Ivete Sangalo cantando na porcaria dos alto-falantes? Não era uma novela, era a droga do programa de comédia que passava aos sábados. — Como você está? Está se alimentando bem? Parece mais magra. Está indo ao banheiro? Não estão machucando você, Joyce?

— Mãe, o que 'cê tá fazendo aqui? Falei que queria que o Nando viesse me visitar primeiro, não você!

A mãe empalideceu por um instante, rígida como uma pedra, soltando Joyce do abraço. Ela se sentou, levando as mãos à cabeça, sem olhar para a filha.

— Fala, mãe! O que aconteceu? – Joyce se sentou também, o coração aos pulos, sem conter o desespero que escorria por seus lábios pintados. Tudo para nada. Onde estava aquele filho da mãe? Ela fizera tudo por ele. Tudo!

A mãe finalmente levantou os olhos torturados.

— Ele fugiu, filha.

— Da polícia?

— Com outra.

— O quê?! – Joyce espalmou com força as mãos na mesa, erguendo-se, e só sentou novamente ao ouvir o grito duro da guarda "Ei, detenta!". – O que 'cê tá dizendo, mãe?

— É isso mesmo, filha. Eu disse, disse pra você que ele não prestava, Joyce! É culpa dele que você esteja aqui. E agora, olha só!

— Isso é mentira, mãe! 'Cê não falou onde eu tava, foi isso! O Nando não ia me deixar, ainda mais por uma vagabunda qualquer, não ia!

— Mas deixou, como todo homem faz no final! Claro que eu não ia mentir, filha... – a mãe tentou segurar suas mãos, mas Joyce se retraiu. — Nunca! Eu sei o quanto você ama aquele desgraçado. Você acha que eu ia mentir uma coisa dessas? Ele se mandou, Joyce, com uma branquela qualquer! Homens não ligam para as mulheres na cadeia, até parece que você não sabia disso!

— Você jura por Nossa Senhora Aparecida?

A mãe engasgou apenas um segundo. Joyce estava tão angustiada que não percebeu. Graças a Nossa Senhora. Ela perdoaria uma pequena mentirinha de uma mãe, se fosse pelo bem de sua filha.

Nossa Senhora é mãe e sabe das coisas. Ela entenderia.

— Juro, Joyce. Juro, minha filha.

Quando a mãe deixou a prisão aquele dia, sentia-se mais leve, e não era apenas por ter deixado a gorda cesta de queijadinhas com a filha.

Estava feito, como todo o resto. Aquele imprestável vagabundo nunca mais incomodaria sua pequena Joyce, não nessa vida. Tirar a vida do próximo era pecado, ela sabia, mas sabia também que Nossa Senhora perdoava as mães que pecavam pelo bem de seus filhos.

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