Capítulo 1 - Sentirei Saudades

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E então, uma luz cintilou.

Aquelas vozes ríspidas que assombravam seus sonhos tornavam-se reais cada vez que levantava de sua cama ou era acordado por algo.

Cansaço. Era tudo o que sentia. O peso em seu corpo imóvel era devastado pelo que afligia tanto sua mente. Ao menos, aquilo do que se lembrava.

"Está na hora", ouviu. "Não podemos permanecer nesse estado", "Não podemos continuar assim". E após a mesma discussão de sempre, o som impactante veio à tona. Lágrimas de fragilidade escapavam de seus olhos. Lágrimas, mesmo que limitadas, visíveis de sua distância diante à fresta curta da porta.

Pálida. Pele pálida. Assim como seus cabelos estranhamente nevados. Alguns tons rosados eram perceptíveis por seu corpo, mas ele realmente não ligava para isso. Tudo estava congestionado demais para começar a se preocupar com estética, algo o qual determinava tão maçante.

De repente, a luminosidade adentrou seu quarto completamente. Tentou fingir ainda estar dormindo, mas isso não os impediu. Carinhosamente, ela tirou o lençol azul de seu rosto e alisou seus fios de cabelo.

- Bom dia, querido! Dormiu bem? – Pergunta, aconchegando-se em sua cama.

Seus olhos ainda doíam. Esfregou-os e logo a respondeu educadamente.

A figura feminina tentou inclinar-se para beijar a testa do garoto, mas sua ação momentânea foi interrompida por uma voz grossa que demonstrava autoridade.

- Suas malas já estão prontas?

- Sim, elas estão, Nathan. – Ela responde pelo garoto. – O ônibus não passará agora, então se acalme.

Chegara finalmente o dia, e sabia que não poderia fazer nada contra. Estava destinado, e ponto final. Nunca conhecera a cidade, sem chances de fuga. Acabaria perdendo-se por aí e logo o encontrariam.

Ignorando todo o clima formado, decidiu enfim levantar, de certa maneira fria. Abriu o guarda-roupa e escolheu uma toalha qualquer, passando sem olhar na cara de seu padrasto, em direção ao banheiro, logo trancando a porta.

- ...Você sabe que é a única maneira, C...

- Não, não é. Não é a única maneira, Nath. Sabe disso, mas parece que... Eu não sei explicar, parece que esconde dentro de si...

O único som que escutam pertence às gotas d'água que caiam de encontro ao chão dentro do box, escorrendo pelo ralo, junto com as cores que restavam dentro do coração daquele ser humano o qual cuidaram por tanto tempo.

- Você o odeia tanto assim...? Odeia-me tanto assim...?

- ...Eu amo vocês. Amo, de coração. Não teria dedicado tanto tempo da minha vida se não me importasse com ambos. Vocês são minha vida, tudo o que tenho, mas eu...

- ...É incrível como você simplesmente não entende nada. Continue mentindo, ninguém mais irá acreditar mesmo.

Numa tentativa de carinho, um tapa interfere seu caminho, chocando-se contra sua maçã do rosto esquerda. Lágrimas novamente apareceram em seu estado emocional. Não de fraqueza, não de medo, mas lágrimas de vitória, que esbanjavam toda a força que tivera durante tanto tempo.

- Apodrecerá sozinho no inferno.

...

Após escolher sua roupa para partir, o esbranquiçado segue pelo corredor da casa, olhando de canto todos os quadros sobrepostos pela parede uma última vez. Sua mochila estava logo à frente, próxima à mesa de jantar. Quando chegou lá, foi surpreendido por um café da manhã pronto. Não o mais belo de todos, muito menos o mais farto, mas o necessário.

Sentou-se tranquilamente na frágil cadeira e pegou um prato com talheres de plástico. Sentia que não comia aquilo há anos: waffles com calda de mel e suco de maçã. Não uma boa combinação, mas suficiente para agradar seu estômago.

Cada garfada era dada como se fosse sua última, mas não mostrava muito ânimo na mesa. Ela observava-o de perto, sentada na cadeira à sua frente. Demoraria alguns anos até que pudessem ver um ao outro novamente, isso se a cauda do destino balançasse toda a poeira.

Antes que pudesse terminar o último waffle da pilha, sua refeição é descontinuada pelo grave som da buzina do ônibus, quase o assustando. Limpa a boca na manga da jaqueta, põe os pratos na pia e agarra sua mochila. Abraça a figura feminina por severos segundos, e passa na frente do troglodita, em silêncio.

E caminhando até a porta, pôde ver novamente como estava o lado de fora.

O ar fresco perdera seu cheiro durante os anos, fora desintegrado pela poluição em massa, mas ainda era um cheiro que acalmava seus pulmões, dando-lhe a sensação de estar livre novamente.

Tudo mudou muito rápido, de fato. As árvores que antes presenteavam os moradores daquela vizinhança tornaram-se apenas troncos velhos, com poucas folhas em seus gravetos. A calçada de pedregulhos permanecia rachada, culpa das ações naturais. A grama praticamente extinguiu-se do local, sendo raro encontrar alguma com sua viva cor.

O ônibus continuou buzinando, cada vez mais rápido, enquanto aquela figura melancólica não entrava no veículo. A porta é aberta e um sujeito baixinho de uniforme aparece como o motorista.

- Vamos logo, garoto! Você é o último da lista, não me faça esperar mais! – Resmungou o baixinho.

O vento bagunça seu cabelo, fazendo com que ele olhe para baixo e ajeite-o logo em seguida, o que cria certo desconforto no motorista. Então se prepara para subir, sem saber ao certo onde estaria indo, sem saber ao certo se haveria volta. Mas sente uma pancada nas costas antes de adentrar o veículo. Mãos envolvem todo o seu torso, apertando-o forte. Escuta um fungado leve, e logo sente seus cabelos tocando seu pescoço, que era molhado por lágrimas.

- Sentirei saudades... Por favor, não se esqueça de mim... Sabe que não estamos fazendo isso por mal. Eu e seu... Eu e Nathan, digo, não pedimos por isso, só queríamos...

Um beijo em sua testa bloqueia seu diálogo. Lágrimas voltam a se juntar em seus olhos, escorrendo em maior quantidade agora. Ela encosta a cabeça em seu peito, angustiada, sufocando-se entre os próprios soluços. Sua mão vai de encontro aos cabelos negros da mulher. Acaricia-os lentamente, sentindo seu coração pulsar mais forte a cada soluço. E assim, separaram-se.

- Também sentirei saudades, mãe.


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