Às seis da manhã as ruas do centro estavam frias, escuras e cerradas quando Zé Carlos abriu o primeiro container. Há anos vivendo nas ruas, ele já tinha se acostumado com o cheiro do chorume — que se confundia com o seu —, mas preferia não tocar nas partes úmidas do lixo, desviando dos pacotes de salgadinho e sacolas de supermercado, que sempre estavam molhadas.
As mãos se mexiam intuitivamente. Ele sabia que se tivesse alguma coisa boa ali, além das latas de cerveja, encontraria fácil — coisas desagradáveis também, como mostram os cortes nos dedos e nas palmas das mãos.
Sem refeição há um dia, fica contente com as quatro latas encontradas, mas sabe que tem de achar outras se quiser comer, então continua remexendo o lixo até esbarrar em alguma coisa embolada num pano, que estava... MOLHADO.
Involuntariamente ele arrancou as mãos do container e levou ao nariz.
— UHHHGH
O cheiro era uma mistura de sangue coagulado com carniça. Sou um idiota, pensa enquanto engulha. Se tivesse alguma coisa no estômago teria posto pra fora.
A praça onde ficava o container estava deserta e meio morta. Parecia que o vento não batia e o som era sufocado por alguma coisa, como se fosse uma paisagem cinza num quadro com moldura preta. Na ponta da praça, a igreja matriz contribuía para sensação de morbidez.
Zé não conseguiu controlar a curiosidade e quis abrir o embrulho. Pegou uma ripa que estava no chão e enfiou-a no pacote, jogando-o na calçada.
Um cheiro podre toma conta da rua estreita quando ele consegue abrir.
— Nossa senhora! — berrou ao ver as varejeiras que devoravam um par de mãos decepado.
Era a primeira vez que encontrava coisa assim nos containers. Não sabia o que fazer. É caso de polícia, pensa, mas não posso chamar "os homem" porque eles vão embaçar, me levar pra depor... Já sou fodido demais... tenho é que mostrar pra alguém.
Zé apurou a vista, olhando nos arredores da praça, mas só viu os cachorros que corriam duas quadras acima. Deixou as mãos decepadas no chão, num lugar visível, e subiu cambaleante a rua.
Deu com uma gorducha na frente do boteco do Sr. Manoel. A mulher parecia seguir para a rodoviária. Ia apressada, com uma bolsa nas costas e outra na mão. Zé a abordou:
— Moça, moça, tem uma mão ali jogada na calçada!
A moça virou o rosto e continuou andando, como se, apesar do susto, não tivesse visto ninguém. Zé ainda pensou em abordar um homem que levava os filhos pra escola, mas logo se tocou e foi pro próximo container.
O sol dava tons alaranjados ao céu, a neblina tinha se dissipado e Zé agora estava na Rua Limoeiro, que era composta por lojas de roupas e casas grandes, cercadas por cercas elétricas e câmeras. Na esquina, mais à frente, ficava o supermercado Dois Irmãos de um lado e o bar Night do outro. Chegando na esquina, do lado do bar, avistou o container laranja, pro qual se dirigiu.
Meteu as mãos com gosto. Estava tão contente com um pedaço de pizza que encontrara na tampa do container que mergulharia dentro facilmente se soubesse que encontraria outro. Engoliu o pedaço em menos de um minuto. Estava bom, mas não era o suficiente para mantê-lo de pé por um dia.
A véspera tinha sido domingo. Domingo tem festa, drogas, comida e latas, muitas latas. Quando esbarrou na sacola branca do supermercado Dois irmãos e sentiu um calafrio, o mesmo de antes. algo de podre rondava a sacola.
Abriu pra confirmar.
O dia acabava de ficar mais bizarro. Dentro da sacola havia as larvas de antes e agora um par de pés.
Zonzo, fez com os pés podres o mesmo que fizera com par de mãos de mais cedo: tirou da sacola e jogou na rua. Depois seguiu desnorteado, pensando nas partes do corpo encontradas e nas que ainda faltavam. Cabeça, barriga, OLHOS, os olhos, talvez encontrasse um par de olhos verdes ensaguentados dentro de uma sacola. NÃO! isso seria demais... isso me faria jogar o pedaço de pizza fora.
Não era apenas nojo o que sentia pelos containers, era também uma espécie de preocupação, um pé atrás. Alguém jogou ali dentro, pensava, mas quem? E por quê?
Quando chegou na rua paralela à principal do centro, alguém o arrancou de seus devaneios:
— Zé! Tá indo aonde, doido?
Era Paulinho, conhecido velho das ruas
— Num sei... Rapaz, você não sabe o que eu encontrei...
— É mesmo? — perguntou o amigo, fazendo pouco caso enquanto erguia uma garrafa com o selo da Corote.
Zé cruzou a rua e parou à frente dele, encarando-o. Apesar da comida escassa, sempre encontravam algo para beber. Sabia que não pararia se tomasse o primeiro gole. Paulinho também sabia.
— Tá esperando eu colocar na sua boca? Pegue, homem, deixe de ser besta!
Zé deu uma golada e os dois se sentaram no chão, onde ficaram até a garrafa secar.
Pela rua, enquanto bebiam, passaram carros, pessoas, animais..., mas ninguém parecia dar muita importância pra algazarra dos mendigos.
Com o fim da garrafa, Zé lembrou que estava com fome. Olhou pro saco no qual colocava as latas. Poucas, quase nada. Talvez eu devesse procurar mais alguma coisa pra comer uma coxinha. Foi o que fez, e se dirigiu à principal do centro, subindo em direção a praça do cemitério.
Quando chegou na praça já eram três da tarde. A praça era composta por dois quiosques que vendiam água de coco, caldo de cana e pastéis. No centro ficava uma lanchonete, com mesas distribuídas ao redor. As mesas estavam todas vagas e em cima delas não tinha nada.
Zé Desanimou. Pensava que encontraria alguma coisa em cima das mesas, nem que fosse um pedaço de pastel ou um suco pela metade, mas nada. Só restava o container do final da rua.
Quando abriu o container, viu que estava pela metade, composto principalmente por latas de refrigerante. Ele recolheu todas as latas e viu que no fundo do container havia uma caixa de papelão lacrada. A experiência lhe dizia para não abri-la, mas quem liga pra experiencia quando se está sem comer há dias.
Por trinta segundos seu rosto não esboçou nenhuma emoção. Era como se o mundo tivesse parado e junto com ele a respiração e as batidas do peito. Se não estivesse de pé, pensaria ter desmaiado. Talvez tivesse. O que sabe é que por um tempo a alma deixou o corpo. Quando voltou a senti-lo, foi como se tivesse levado uma paulada no peito, que começou a pulsar com tamanha velocidade que ele pensara ser um taquicardia. Ouviu o barulho da cidade inteira na cabeça, até os ratos que se moviam no esgoto. Parecia que tinham tirado uma venda dos seus olhos e agora ele via que não era uma miragem. Era uma cabeça dentro da caixa. Mas não era qualquer cabeça. Era a sua. E não tinha os olhos.
Quis correr, fugir daquela cena e daquele lugar, mas as pernas não obedeciam à mente. O máximo que conseguiu fazer foi dar alguns passos arrastados. As passadas aumentaram gradualmente e quando percebeu trotava. Sem saber aonde ia, com a visão turva, só parou quando o folego lhe abandonara.
Ele olhou pros lados, sem saber onde estava, e viu lápides em todas as direções. O mundo girou e ele se percebeu dentro de um labirinto. Pra onde olhava, via túmulos e pequenos corredores que não levavam a lugar algum.
Quando apurou mais a vista, viu um homem que parecia dar os últimos retoques numa cova rasa. Do lado dele, um corpo esquartejado, sem mãos e pés e cabeça dentro de um caixão de papelão.
Zé desmaiou.
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A Morte Em Containers
Short StoryNuma manhã comum igual a tantas, o mendigo Zé Carlos encontra algo incomum enquanto caça o que comer nos containers de lixo de sua cidade: restos de corpos humanos. De repente a morte, de quem ele tenta fugir constantemente vivendo nas ruas, passa a...
