Largado em uma cadeira amarela da Skol, vermelho pela alta quantidade de sol e pouco protetor solar, lá estava ele: Percy Jackson. Seria só mais um de seus dias habituais na praia de Porto de Galinhas, surfando quando boas ondas apareciam, tirando dinheiro de turistas desinformados e salvando meninas e meninos que fingiam se afogar de vez em quando. Tudo isso, claro, se um certo "problema" não tivesse surgido em sua vida. Problema esse que tinha longos e selvagens cachos loiros, sardinhas nas bochechas, olhos azul-acinzentados, como uma tempestade de verão, e se chamava Annabeth Chase, sua melhor amiga desde o fundamental.
Até seus doze anos de idade, Percy por ser um menino um tanto hiperativo e de um talento inexplicável para atrair confusões não se adaptava a nenhum colégio que se matriculava, passou por quase todas as escolas da sua cidade e outras da região, públicas e particulares, chegou a ser expulso de algumas e tinha uma longa coleção de advertências e suspensões que deixava sua mãe, Sally Jackson, louquinha. Até que em um belo dia, no Colégio José Benjamin, em Ipojuca, uma certa menina "sabidinha" apareceu na mesma sala que ele. Ela carregava uma pose igual àqueles adultos corporativos que achavam que sabiam de tudo, e, o temperamento de um. Annabeth tinha um talento nato para organizar e liderar, não é à toa que não demorou muito para que fosse eleita a representante de classe e líder do grêmio estudantil durante muitos anos consecutivos. Quando Percy a viu repreender um dos alunos mais metidos da turma por não respeitar o mapeamento da sala, teve a certeza de que sua nova missão de vida seria se manter o máximo de tempo naquela escola, apenas para importuná-la. Seu plano foi tão perfeito quanto eficiente, o menino conseguia tirar, todo santo dia, não só 1% da paciência de Annabeth como também sua rigidez. Ela sempre teve uma grande questão com a sua necessidade enorme de seguir regras, hábito esse que vinha de família. A mãe de Annabeth não era daqui, era uma arquiteta renomadíssima que dedicava todos os dias de sua vida a seu trabalho, na Grécia. Como consequência, se tornou uma mulher fria e distante de sua família após o fim do casamento, ela nunca chegou a conhecer a filha de verdade, mas a pobre loirinha sabia de sua vida por completo. Sabia dos padrões que a matriarca gostaria que ela seguisse e tinha o sonho de se formar em arquitetura e se tornar uma profissional tão excelente quanto sua mãe. Com as brincadeirinhas de Jackson, a menina não saiu do foco, mas aprendeu a se divertir, e foi por isso que a amizade deles não demorou para se fortalecer e com o passar do tempo se tornaram inseparáveis.
Hoje em dia, no terceiro ano do ensino médio, eles continuam sendo os mesmos. "sabidinha" e "cabeça de alga". O detalhe é que eram mais próximos do que seria considerado normal de uma amizade, mesmo que seja de infância, o que fazia o pobre Percy questionar não só os seus próprios sentimentos, como os de Annabeth também. Grover, um moreno alto de cabelos ondulados, era a última peça do trio e sofria diariamente com os dois idiotas que chamava de amigos. Estava estupidamente claro que estavam apaixonados um pelo outro para todas as pessoas que conviviam com eles, menos os dois, continuavam em uma bolha de dúvidas, que sem um empurrãozinho jamais iria se desfazer. Percy sempre foi muito desligado e Annabeth, apesar de muito inteligente, nunca foi boa de perceber ou sequer deu a mínima importância para esse tipo de assunto, então, por essas e outras, Grover decidiu se tornar uma espécie de cupido de havaianas e tem planejado constantes situações onde eles precisam conviver mais um tempinho sozinhos.
- Ei, Jackson! - uma voz feminina muito familiar o chamou, Percy abriu os olhos em um susto. Sem sair da cadeira acenou para Annabeth que vinha se aproximando com um sorriso no rosto. Ele se levantou da cadeira cambaleando um pouquinho para responder.
- Pensei que você estivesse estudando, sei lá, para o Enem - brincou bagunçando de leve os próprios cabelos pretos e molhados. Esse era seu visual de sempre, o corpo bronzeado e ensopado de água salgada, havaianas brancas do Brasil e algum short de tactel que fosse bom o suficiente para que não o atrapalhasse surfar. E estava em seu habitat natural também, o garoto passava a maior parte do seu dia na praia, estar próximo ao mar era uma das coisas que ele mais amava e o fazia sentir vivo de verdade. Vivo e completamente livre.
- E eu pensei que você estaria roubando todos os picolés da barraca do pobre Poseidon - retrucou Annabeth, cruzando os braços - Grover me chamou para te impedir de tomar muitos caldos, ele deve chegar daqui a pouco.
Percy deixou escapar uma risada frouxa e disse:
- Primeiro, sei que sou o maior cliente da barraquinha do meu pai, então na verdade você deveria dizer "obrigada, patriota, por apoiar o comércio local". Segundo, só surfo mal em dias conturbados, como esse.
- E por qual motivo seu dia tão perfeito estaria conturbado, cabeça de alga?
- Ah, você sabe... - ele moveu os braços para frente e para trás, seu corpo acompanhando o movimento - talvez eu esteja com uns probleminhas para chamar uma pessoa para sair.
- Está apaixonado por uma turista? Qual é a nacionalidade dela dessa vez? - a loira estreitou os olhos - por que eu não vou te ajudar a aprender flertes em outro idioma novamente só para você conseguir...
- Não, não! - Jackson arqueou as sobrancelhas enquanto jogava as mãos para o alto, na defensiva - Na verdade, eu a conheço há tanto tempo que chega a ser complicado explicar.
- Já sei então, é uma mulher mais velha que você? Pelo amor de Deus, Percy, uma amiga da sua mãe? - Annabeth falou baixinho, quase como um segredo, em tom de indignação.
- Não, Annie, olha... - tentou explicar, mas foi interrompido, agora por uma voz alta e carregada de rancor, quase como estivesse se sentindo ofendida.
- Só não me diga que se apaixonou de novo pela sua ex-namorada! Todo mundo sabe que aquela menina além de ser sonsa, consegue ser incompetente o suficiente pra deixar aquele cabelo ruivo todo manchado e ainda sair por aí dizendo que é natural. E pior, dizer que eu sou a "loira burra" da história!
- Por Deus, sabidinha, pare de tentar adivinhar e me escute por um segundo! - o garoto falou um pouco mais alto para chamar sua atenção.
Ele olhou para Annabeth por um segundo que durou mais como uma eternidade. Seus cabelos claros estavam bagunçados, presos por uma piranha em formato de borboleta, alguns cachinhos voando no ritmo ditado pela brisa do mar, as sardas em seu rosto mais aparentes devido ao sol. Ela vestia uma regata simples de um modelo mais solto, no tom de um amarelo manteiga e um short jeans curtinho, perfeito para a praia. Era uma roupa que aos olhos de muitas pessoas não era muito especial, mas para Percy, ela nunca esteve tão bonita antes.
E foi aí que ele Jackson se deu conta de que não poderia mais ficar apenas idealizando o que seria se contasse sobre a confusão que sentia, que precisava fazer alguma coisa. Não poderia mais fingir que ela era só uma amiga muito querida e era por causa disso que seu coração errava as batidas quando eles se olhavam desse jeito. Ele precisava admitir que estava não só apaixonado, mas também, completamente hipnotizado nesse exato momento. Admitir para ele, para a própria Annabeth, para Grover, que a essa altura já os olhava de longe e para quem mais passasse.
- É você, Annie.
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Azul da cor do mar | one-shot percabeth
Fanfiction▹ Em Porto de Galinhas, Percy Jackson só queria aproveitar o verão, surfar, trabalhar na barraca de seu pai e, talvez, conseguir um pouco de dinheiro fácil com turistas distraídos. O problema? Annabeth Chase.
