Prólogo

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❝As razões de nossos atos são obscuras e os impulsos que nos impelem para a ação ficam profundamente ocultos.❞

France- Anatole France

• 𖣂 •
- abril -

A frieza daquele lugar a precedia.

Ela se mexe devagar, incomodada, como se algo a pinicasse.

Cruza as pernas. Descruza.

O olhar paira sobre a mesa. Passa o polegar pela unha, como se não soubesse onde pôr as mãos.

Ainda assim, sente que ele a observa.

Lis não precisa olhar para saber que ele está ali. Insinuava-se algo naquela presença que dificultava permanecer confortável. Sua presença a deixava desconcertada. Mesmo assim, seus olhos eram puxados para os dele, como se o silêncio chamasse ela.

Ela ergueu finalmente os olhos.

Seus olhos eram escuros. A penumbra do ambiente quase os fazia parecer negros. Mas perdurava um detalhe neles que a fez permanecer ali por mais tempo do que pretendia.

O direito era diferente.

A pupila não era perfeitamente redonda. Subsistia uma pequena abertura que se estendia para baixo, desenhando algo que lembrava uma fechadura.

Desvia o olhar.

Engole em seco.

Encolhida sob a mesa, Lis encarava o breu entre as pernas de madeira.

Corra.

Fuja.

As palavras vinham sem ela chamar.

O vento atravessava a mata e atingia a cabana em rajadas violentas. As paredes estremeciam. Depois, tudo voltava ao silêncio.

Lis sente que deveria falar algo. Se justificar, perguntar. Mas não o faz. Parece que se passam minutos, horas.

Pigarreia.

Seu ouvido lateja.

Lis sente sua pele fervendo em meio ao frio estarrecedor da cabana.
Será que estou vermelha? Se pergunta.

O homem à sua frente se mexe.

É só um deslocamento curto do ombro, mas o suficiente para despertar a atenção de Lis de volta para ele.
Por um instante, teve a impressão de que ele a pudesse ver por dentro. Seus pensamentos. O coração irregular. A respiração curta.

A luz que entra atrás dele é inábil. Não ilumina. Recorta. Deixa o rosto quase todo em sombra, exceto pelas marcas fundas embaixo dos olhos. Não são olheiras de uma noite mal dormida. São covas. Profundas demais para ser apenas uma noite.

Ele coça a barba. O som é seco.

O frio corta as pontas dos dedos na madeira.

A mão dele desce. A cadeira estrala.

Ele enfia a mão no bolso e tira um caderno pequeno, fino. Está amassado nas bordas.
Tateia o outro bolso. Uma caneta.

Despeja o caderno sobre a mesa.

O barulho da madeira oca ecoa. Escreve. A caneta arranha o papel.

Depois, empurra.

O caderno desliza lento pela mesa até parar na frente dela.

Suas mãos são largas, firmes.
Ele deixa a mão pousada sobre o caderno por uns segundos e depois recolhe a mão, voltando para o breu abaixo da mesa deixando o pequeno caderno amassado na mesa de carvalho escuro.

''Eu não esqueci.''

A letra era torta. Trêmula. Familiar.

Lis não respira. O ar se prende no meio do caminho entre a garganta e o peito.

O polegar volta a procurar a unha. Com mais força, agora.

Inverno de VidroHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora