Orion nunca achou que se meteria numa briga entre deuses por conta de um campista novo. Ele estava muito bem só treinando para uma situação hipotética, obrigado. Mas ai Percy Jackson apareceu - com seus olhos azuis com problemas sérios com autoridad...
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Eu tinha mentido para Percy.
Não quando disse que estava bem. Aquilo já tinha virado praticamente uma resposta automática, uma dessas coisas que saem antes da gente conferir se são verdade. Considerando as últimas quarenta e oito horas, minha definição de bem também tinha ficado flexível o bastante para incluir quase morrer afogado, começar a ver uma sombra a mais onde só deveria existir uma e desenvolver algum tipo de senso de direção sobrenatural que eu definitivamente não lembrava de ter pedido. Eu tinha mentido quando disse que não queria saber o que a menina do urso havia falado. Eu sabia. E esse era justamente o problema.
Você não voltou sozinho.
A frase continuava presa na minha cabeça desde o saguão do M.A.C., voltando nos momentos mais inconvenientes com a voz baixa e distante daquela criança morta. Só que o pior não era exatamente o que ela tinha dito. Era o jeito como os olhos dela tinham deslizado devagar para algum ponto atrás do meu ombro antes das palavras saírem. Ela não estava olhando para mim. Desde então, eu vinha fazendo um esforço considerável para não olhar para trás.
O tronco oco onde estávamos escondidos cheirava a madeira podre, terra úmida e alguma coisa antiga demais para eu identificar. Do lado de fora, os passos dos guardas já tinham desaparecido havia algum tempo, e o último grito chamando pelas Fúrias se perdeu na distância. Percy ainda tentava defender o próprio plano com Cérbero - se é que jogar um pé de cama num cão infernal de três cabeças podia ser chamado de plano - enquanto Grover insistia que "quase morrer" não contava como "quase funcionar".
Annabeth espiou para fora primeiro e fez sinal para seguirmos. Nós quatro nos desenroscamos daquele buraco apertado, e minhas costas imediatamente protestaram. Ser esticado por um vendedor psicopata de camas d'água e depois passar vários minutos agachado dentro de uma árvore era uma combinação que eu não recomendaria. Percy percebeu a careta antes mesmo que eu conseguisse esconder.
- Tá doendo?
- Não.
Ele levantou uma sobrancelha, claramente sem acreditar.
- Você acabou de fazer uma cara.
- Eu ja te disse Jackson meu rosto faz coisas. É uma característica surpreendentemente comum.
Percy continuou me observando com aquela expressão que tinha desenvolvido depois do Mississippi, como se estivesse constantemente conferindo se eu ainda estava respirando. Era irritante. Mas era um pouco menos irritante do que eu gostava de fingir.
- Eu tô bem, Poseidonzinho.
- Eu nem falei nada.
- Não precisava. Você tá com aquela cara.
- Que cara?
- A de quem tá contando minhas respirações.
Ele ficou em silêncio. Ah, acertei. Suspirei, deixando o sarcasmo cair um pouco.