Prólogo: O Peso do Ouro Frio

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O teto de gesso trabalhado do Bistrô Belleville refletia a luz morna dos lustres de cristal, criando uma aura quase celestial sobre a mesa circular no canto mais reservado do salão. O som ambiente era uma mistura suave de jazz tocando baixo, o tilintar discreto de taças de cristal e gargalhadas abafadas.

Para Camila, no entanto, o único som que realmente importava era o batimento acelerado do próprio coração, marcado pelo ritmo constante da ansiedade boa. Aquela ansiedade bonita, que arrepia a pele e faz o estômago dar voltas antes de uma grande mudança.

Faltavam exatamente sete dias.

- Eu ainda acho que o tom das flores da recepção deveria ser um pouco mais fechado, puxado para o vinho - Dinah comentou, girando a haste da taça de Chardonnay entre os dedos perfeitamente manicurados, o olhar atento fixo no mostruário de papéis de gramatura alta espalhados sobre o pano de mesa de linho branco. - Mas considerando que você é uma noiva obstinada e turrona, vou fingir que o rosa queimado não vai matar o meu senso estético.

- Deixa a garota respirar, Jane - Normani interveio, rindo baixinho enquanto ajustava o blazer sobre os ombros. Ela se esticou na mesa para dar um toque carinhoso na mão de Camila. - Olha a cara dela. Ela não tá ouvindo uma palavra sobre a paleta de cores desde que a sobremesa chegou. Ela tá em outro planeta.

Camila piscou, saindo do transe suave em que se encontrava, e soltou uma risada curta, o rosto esquentando levemente. Ela levou a mão esquerda ao peito, sentindo o relevo da aliança de noivado contra o tecido fino de sua blusa de seda. O aro de ouro reluzia sob a iluminação ambiente, carregando uma gravação interna simples e definitiva: L & C - Para sempre é o nosso começo.

- Desculpa, gente - Camila admitiu, curvando os lábios num sorriso genuíno, denso de uma felicidade tão límpida que parecia quase ingênua. - Eu só... ainda não caiu a ficha. Sete dias. Daqui a uma semana, a essa hora, nós vamos estar no avião para a Itália. Casadas.

- Casadas - Dinah repetiu, o tom provocativo dando lugar a um carinho genuíno. Ela ergueu a taça. - À maturidade precoce de vocês duas. Às promessas de colegial que milagrosamente sobreviveram à faculdade de Direito da Camila e aos picos malucos da Lauren.

As três brindaram. O som do vidro ecoou como uma promessa selada.

A noite seguiu fluindo com a leveza típica das celebrações inesquecíveis. Falaram sobre o vestido pendurado na capa protetora no quarto de hóspedes, a logística dos convidados que chegavam de fora, o medo bobo de chover na cerimônia ao ar livre e a certeza inabalável de que tudo daria certo. Quando finalmente se despediram na calçada do restaurante, sob o vento frio do fim de noite, Camila sentia o corpo leve, anestesiado por um otimismo raro.

O trajeto de táxi até o apartamento onde morava com Lauren há três anos pareceu passar em um piscar de olhos. Camila passou pela portaria cumprimentando o zelador com um aceno alegre, subiu pelo elevador social ajustando os fios de cabelo e procurando a chave no fundo da bolsa de couro.

Ao encostar a chave no tambor da fechadura, notou que a porta não estava trancada no tetra-passe, apenas no trinco simples.

- Amor? - Camila chamou assim que empurrou a porta pesada de madeira, entrando no hall de entrada.

O apartamento estava em um silêncio absoluto. Não aquele silêncio acolhedor de quem dorme depois de um dia longo, mas um silêncio pesado, oco, como se o ar estivesse retido há horas. A iluminação vinha apenas da luz indireta da cozinha, projetando sombras compridas sobre a sala de estar.

Camila tirou os saltos, deixando-os na entrada, e caminhou pelos tacos de madeira.

- Lauren? Você já voltou do plantão?

Não houve resposta.

Ela avançou pelo corredor, o sorriso aos poucos se desfazendo à medida que a estranheza do ambiente começava a se acumular. O casaco de couro de Lauren não estava no pendurador. As chaves do carro não estavam no aparador da sala.

Ao entrar no quarto do casal, o estômago de Camila despencou de uma só vez, caindo em um abismo invisível.

As portas do closet de Lauren estavam escancaradas. Gavetas puxadas para fora, cabides vazios balançando levemente, como se tivessem sido desocupados às pressas. Metade da sala parecia intocada, mas o lado de Lauren estava sumariamente desprovido de qualquer traço de sua existência. Sem roupas, sem a mala preta que ela usava para viagens curtas, sem seus perfumes na penteadeira.

- O que... - a voz de Camila saiu como um sopro estrangulado, desprovida de ar.

Ela deu três passos cambaleantes em direção à cama de casal. O lençol estava esticado, perfeitamente alinhado. No centro exato do colchão, sob a iluminação fria que entrava pela janela, repousava um pequeno objeto prateado sobre um envelope pardo fechado.

Camila aproximou-se devagar, as pernas tremendo tanto que mal pareciam sustentar o próprio peso. O som da própria respiração desgovernada preenchia o quarto.

Ela se ajoelhou à beira da cama e estendeu a mão hesitante.

Sobre o papel, reluzia a aliança de noivado de Lauren. O mesmo ouro. A mesma gravação. Deixada ali, fria e desamparada.

Com os dedos trêmulos, Camila pegou o envelope. Não havia o nome dela na frente. Não havia um poema, nem uma carta longa explicando os anos que construíram juntas desde os corredores do colégio. Dentro do envelope, dobrado em dois, havia apenas um pedaço de papel arrancado de um bloco de notas qualquer.

Uma única frase escrita na caligrafia firme, mas nitidamente apressada, de Lauren:

Não me procure. Eu não posso fazer isso. Sinto muito.

Camila encarou as nove palavras. Leu uma vez. Duas. Dez. A mente se recusava a processar o significado, como se o cérebro tentasse traduzir um idioma completamente desconhecido.

O papel começou a amassar sob a pressão de seus dedos. A garganta fechou em um nó doloroso, seco, rasgando por dentro. Ela olhou para a aliança sobre a colcha, depois para o closet vazio, e a realidade desabou sobre seus ombros com a força de um impacto físico.

Ela não gritou. O choro não veio de imediato. Apenas um vácuo imenso, um frio dilacerante que começou no peito e se espalhou por cada centímetro de suas veias, sepultando a garota de vinte e poucos anos que, há apenas uma hora, brindava ao resto da sua vida.

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