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1. Primeiro dia

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Toda manhã era igual.

Eu acordava sem despertador por volta das nove horas e criava coragem para levantar.

Não porque eu fosse disciplinado o suficiente para isso. Meu corpo simplesmente decidiu que aquele era o horário oficial de funcionamento.

Fiquei alguns segundos olhando para o teto.

Sem pressa.

Não tinha reunião.

Não tinha chefe esperando mensagem.

Nem um monte de notificações acumuladas.

Só o ventilador fazendo barulho e a luz da manhã entrando pela fresta da cortina.

Levantei, coloquei água para ferver e preparei meu café da manhã exatamente igual ao de ontem.

E ao de anteontem.

E ao de praticamente todos os dias dos últimos meses.

Algumas pessoas chamariam isso de monotonia.

Eu chamava de paz.

Enquanto mexia os ovos na frigideira, ouvi minha mãe conversando ao telefone na sala.

Provavelmente algum inquilino.

Era quase sempre isso.

Um vazamento.

Uma pintura.

Uma torneira.

Minha família vivia dos imóveis que meu avô começou a comprar décadas atrás. Depois que ele morreu, meus pais assumiram tudo.

Eu nunca precisei trabalhar.

Talvez fosse por isso que muita gente imaginasse que eu passava o dia inteiro sem fazer nada.

Não estavam totalmente errados.

Mas também não estavam certos.

Treinar exigia mais disciplina do que muita gente imaginava.

Olhei o relógio.

Ainda faltavam quarenta minutos para eu sair.

Tempo suficiente para lavar a louça, escolher uma camiseta, separar a toalha e encher minha garrafa de água.

Era estranho como eu gostava dessas pequenas decisões.

Era como seguir um roteiro que nunca me cansava.

Se alguém me perguntasse qual era meu maior sonho, eu provavelmente demoraria para responder.

Nunca quis abrir uma empresa.

Nunca quis morar fora.

Nunca pensei em comprar um carro de luxo.

Eu gostava da minha vida exatamente do jeito que ela era.

Pelo menos era isso que eu acreditava.

A academia ficava a quinze minutos de casa.

Conhecia praticamente todo mundo de lá.

Sabia o nome da recepcionista, do professor do turno da manhã e até do senhor que passava pano nos aparelhos no fim do expediente.

Cumprimentava todos.

Mas ninguém sabia muito sobre mim.

Na verdade...

Nem eu fazia muita questão.

Sempre achei curioso como as pessoas conseguiam conversar durante um treino.

Entre uma série e outra já tinham contado a infância inteira.

Caminhos cruzados - Taekook Histórias para pegar e não largar. Descubra agora