Acordei com cheiro de café e alguma coisa doce no ar.
Por alguns segundos, fiquei de olhos fechados, tentando entender onde estava e por que meu pescoço parecia ter sido substituído por um bloco de concreto durante a noite. O sofá sob mim era estreito demais, duro demais, e definitivamente não era o meu.
A lembrança voltou em partes.
Ensaio.
Cervejas.
O baterista dormindo no chão como se aquilo fosse uma escolha digna, e Matteo, rindo da minha cara antes de me jogar um cobertor e mandar eu “parar de reclamar e apagar logo”.
Abri um olho.
A sala ainda estava meio mergulhada naquela luz preguiçosa da manhã, com o sol entrando pelas frestas da cortina e desenhando faixas douradas no chão. Ouvi o barulho de louças vindo da cozinha. Armário abrindo. Alguma coisa sendo colocada sobre a bancada. O tilintar de uma colher contra uma xícara.
E, por cima de tudo, o cheiro.
Café recém-passado.
E bolo.
Levantei devagar, passando a mão no rosto e soltando um resmungo baixo quando uma pontada subiu pelo meu ombro. Dormir fora de casa depois dos vinte e poucos deveria ser considerado crime.
Caminhei descalço até a cozinha, ainda meio zonzo, guiado mais pelo cheiro do que pela consciência.
Tinha alguém de costas pro fogão.
Camisa larga.
Cabelo claro.
Altura parecida.
Nem pensei duas vezes.
— Se você me disser que esse café não é pra mim, eu juro que vou repensar nossa amizade.
A figura diante do fogão não respondeu.
Só mexeu alguma coisa na bancada.
Franzi a testa.
— Ah, então é assim? — Continuei, me aproximando. — Você me arrasta pra dormir num sofá torto, me deixa acordar quase sem coluna e ainda vai me ignorar de manhã?
Ainda sem resposta.
Aquilo me fez rir pelo nariz.
— Tá bravinho por quê? Porque eu disse que teu solo de baixo parecia trilha sonora de filme triste?
Cheguei perto o bastante pra encostar o ombro no dele.
Ou quase.
Porque no último segundo, alguma coisa me pareceu... estranha.
O cheiro, talvez.
Não o café.
O perfume.
Mais suave. Mais limpo. Mais...
Antes que eu terminasse de pensar, a pessoa na minha frente se virou.
E eu dei de cara com um completo desconhecido.
Travei completamente.
Meu cérebro ficou em branco por um segundo inteiro.
Talvez dois.
Porque ele era...
Bom.
Bonito demais pra ser a primeira coisa que alguém deveria ver numa manhã de ressaca.
Os olhos eram claros. Não iguais entre si — um mais escuro que o outro — e por um instante tão absurdo quanto patético, a primeira coisa que pensei foi:
Lentes.
— Ah – eu disse, brilhantemente.
O garoto me encarou em silêncio.
Ele tinha um avental marrom amarrado na cintura. Uma espátula numa das mãos. E uma expressão que oscilava perigosamente entre irritação e vontade de me matar com o objeto que estivesse mais perto.
Mas eu ainda estava preso na parte em que ele era praticamente uma cópia do meu melhor amigo.
Ou melhor.
Uma cópia que Deus claramente tinha passado mais tempo finalizando.
— Caralho — soltei, antes de conseguir filtrar qualquer coisa. — Você tá de sacanagem comigo.
Ele arqueou uma sobrancelha.
Apontei meio sem pensar, completamente sem noção de que cada segundo daquela situação só piorava.
— As lentes. O cabelo. A cara de psicopata logo cedo. Tá tentando me assustar?
Nada.
Nenhuma resposta.
Só aquele olhar fixo e cada vez menos paciente.
E, como todo homem prestes a arruinar a própria vida, eu dobrei a aposta.
— Ficou convincente, admito.
Então estendi a mão e toquei o rosto dele. De leve. A ponta dos dedos na bochecha.
— Mas você devia ter me avisado antes de...
— Que porra você tá fazendo? — a voz veio da porta da cozinha como um tiro.
Puxei a mão de volta tão rápido que quase tropecei no próprio pé.
Matteo estava parado ali, ainda meio descabelado de sono, mas completamente acordado agora. O olhar alternava entre mim, o garoto e a distância indecente — ou melhor, a falta dela — que existia entre nós segundos antes.
Meu estômago afundou.
Virei a cabeça tão devagar quanto um condenado.
Olhei de novo pro garoto.
Pro rosto.
Pros olhos.
Pra semelhança.
Pra cara de poucos amigos.
E finalmente meu cérebro, esse inútil, resolveu funcionar.
— ...ah.
O garoto me lançou um olhar que deixava bem claro que aquele “ah” não chegava nem perto de resolver a situação.
Matteo entrou na cozinha em dois passos e segurou meu ombro, me afastando dele sem delicadeza nenhuma.
— Você tá maluco?
— Eu achei que fosse você!
— E isso te dá passe livre pra sair apalpando as pessoas de manhã?
— Eu não tava apalpando ninguém!
— Você literalmente tava com a mão na cara dele!
— Eu achei que fosse você! – repeti, porque aparentemente meu repertório tinha morrido.
O garoto suspirou. Lentamente. Como alguém que já tinha lidado com idiotice masculina em níveis suficientes para não se impressionar mais.
Então largou a espátula na bancada, desamarrou o avental da cintura e falou, pela primeira vez, numa voz calma demais para alguém que claramente tinha motivos pra me envenenar:
— O café tá pronto.
Nós dois olhamos pra ele.
— E eu tô saindo agora.
Ele pendurou o avental na cadeira ao lado, pegou a própria bolsa no encosto e passou por mim sem encostar nem um centímetro.
Mas, ao cruzar meu lado, lançou um olhar curto. Irritado o bastante pra me deixar imóvel.
— Tenta não tocar em mais ninguém antes do meio-dia — ele disse.
A porta da frente bateu alguns segundos depois.
O silêncio que ficou na cozinha foi tão pesado que até a cafeteira parecia desconfortável.
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VERSÕES DE NÓS DOIS
RomanceThéo não deveria se apaixonar pelo irmão do melhor amigo. Mathias definitivamente não deveria deixar isso acontecer. Mas entre shows, convenções, provocações afiadas e sentimentos que crescem devagar demais para serem negados e rápido demais para se...
