Tão ingênuo são os humanos que acreditam verdadeiramente no amor, nesse mundo de almas apodrecidas, onde até mesmo migalhas de afetos nos fazem estremecer e sentir as tais borboletas no estômago. Seokjin era um ômega que acreditava devotadamente no amor. Talvez fossem os inúmeros livros que lia escondidos quando criança. Para ele, não havia nada mais bonito que ler sobre duas pessoas se apaixonando. Talvez por seu conhecimento, ele deveria ter ficado mais alerta, mas a paixão o cegou. Bastou um sorriso solto, um par de olhos que demoravam no dele e toda aquela baboseira de mãos dadas, beijos escondidos e banhos compartilhados, para ele se apaixonar. Não demorou muito para conhecer a manipulação, os insultos, a voz de alfa que fazia seus ouvidos sangrarem e o primeiro tapa.
Sunghoon tirou tudo de Seokjin.
O ômega simpático que os vizinhos conheciam, se tornou apenas um esposo. Só era permitido sair na companhia do marido e seu único dever era abrir as pernas quando ele queria. Seokjin sempre sonhou em se tornar pai, mas quando descobriu que estava grávido daquele homem, ele rezou a noite toda para qualquer Deus que o escutasse, o livrasse de seu sofrimento. Ele não podia criar uma criança sozinho preso naquela casa. Os primeiros meses foram dolorosos, a barriga crescia a cada dia impedindo o ômega de ignorar aquilo.
Em uma das noites que seu marido saía para os encontro com os amigos alfas, Seokjin estava na cozinha sozinho. Os empregados já haviam se retirado para suas casas e a gentil senhorita Gamri deixou algumas ervas que eram permitidas na gravidez. Colocou a chaleira no fogo e esperou a água aquecer, ouvindo o som suave que anunciava a fervura. Enquanto isso, separou a camomila e a colocou na xícara. Quando a água começou a borbulhar, desligou o fogo e despejou devagar sobre as flores secas. O vapor subiu quente, trazendo o cheiro doce e delicado da erva. Cobriu a xícara e deixou em infusão por alguns minutos, sentindo o aroma se espalhar pela cozinha. Depois, coou com cuidado e segurou a xícara ainda morna entre as mãos.
Tomou seu primeiro gole quando o filhote em sua barriga chutou. O ômega arregalou os olhos, mas tentou ignorar continuando a beber seu chá. O filhote estava agitado, parecia aprovar a bebida e Seokjin não se aguentou deixando as lágrimas caírem. Colocou ambas mãos por dentro da blusa e ao sentir um pequeno chute em sua mão, ele soube que não estava sozinho. Seu filho estava ali e precisava de um pai. Quando o bebê nasceu, Seokjin ainda cansado, segurou o pequeno ômega nos braços sorrindo. Não tinha nada do pai alfa. Acariciou o rostinho macio e grudou seu rosto no filho, não queria nunca esquecer esse momento. Seu pequeno raio de sol em meio a sua escuridão. Seu Jihoon.
Sunghoon não participou do parto, um filho ômega não o interessava. As poucas companhias que Seokjin tinha eram os empregados da casa. Foram eles que o ajudaram no parto e quem trazia um pouco do mundo para o ômega. Em uma das suas conversas matinais, o jovem Hong, um ômega tailandês que ajudava na cozinha, chegou empolgado com um jornal em mãos. Gamri mantinha seu sorriso no rosto e Jaewook, o alfa jardineiro, revirava os olhos mesmo que todos soubessem que ele estava atento a tudo que os colegas dizem.
— É um jeito moderno para se casar. — Explicou Hong enquanto entregava o jornal para Seokjin. — As vezes, para agradar a família ou ter herdeiros. Benefício para ambos lados.
Havia uma lista de treze nomes no jornal. Era um anúncio de pessoas que estavam a procura de um alfa ou ômega para se unir. Hong explicou que não havia muito detalhes além da preferência de classificação e se você se interessante por alguém, poderia trocar cartas com o outro deixando claro seus interesses.
— Pessoas se casam sem amor? — Seokjin perguntou olhando para o mais novo. — Não é triste?
— Pode até parecer. — a senhora Gamri foi quem respondeu. — Mas, o amor nasce nos lugares mais inesperados.
— Isso me seria útil. — Jaewook deu de ombros enquanto balançava o pequeno Jihoon que ria sozinho. — Não tenho muita paciência para encontros, mas queria formar uma família para não me sentir tão excluído nos feriados.
— Você acha que eu... — Seokjin deixou a frase morrer no ar porque parecia absurdo demais. — Não há como fugir. Quem aceitaria um ômega com um filho?
— Por que não escreve? — Gamri o incentivou segurando na mão do mais novo. — Escolha alguém.
— Senhora Gamri, meu marido nunca aceitaria um divórcio. — Seokjin suspirou.
— Seokjin, escolha um nome. — A senhora insistiu. — Confie em mim.
— Kim Namjoon. — Disse em voz alta o nome que lhe chamou atenção pela primeira vez quando olhou para o anúncio. — Pode me conseguir papel e caneta?
A história que Seokjin há muito tempo achou que acabou, começou com uma carta.
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Início da Primavera | NAMJIN
FanfictionDepois de escapar de um relacionamento abusivo, Seokjin, um ômega marcado pelas cicatrizes do passado, só deseja uma coisa: proteger seu filho e recomeçar longe de tudo que o machucou. Sem muitas opções e vivendo em uma época em que casamentos arran...
