Never click suspicious links
Reminder: Wattpad will never ask for passwords, payment information, or other sensitive account security details.

Capítulo 1: O Leilão

18 3 10
                                        



A chuva martelava contra as janelas do mansion como dedos impacientes batendo em vidro.

Jessie Valdes observava as gotas escorrerem, distorcendo as luzes da cidade lá embaixo, e apertou os punhos até as unhas cravarem nas palmas. Vinte e três anos. Era tudo que tinha de vida antes que seu pai a vendesse como gado.

— Você está linda, filha. — A voz de Marcus Valdes era mel podre. — O vestido realça seus... atributos.

Jessie não se virou. O reflexo dele no vidro já era veneno suficiente. O vestido vermelho-sangue era uma declaração, escolhido por ele. Decote que descia perigosamente, fenda que subia além da decência. Ela era o produto. A mercadoria premium da noite.

— Vai me olhar quando eu falo com você.

Não havia amor naquela voz. Nunca houve. Marcus Valdes construiu um império de cassinos e dívidas, e quando os lobos bateram à porta cobrando o que ele devia, ele ofereceu a única coisa que tinha valor: sua filha única.

Jessie se virou devagar, encontrando os olhos dele. Castanhos como os dela, mas vazios de qualquer humanidade.

— Quanto você vai ganhar com isso? — Sua voz saiu mais firme do que esperava.

— Quanto vale minha vida?
Ele sorriu. Um sorriso que ela conhecia desde criança, sempre antes de algo terrível acontecer.

— Três milhões e meio. Suficiente para pagar Konstantin Volkov e ainda sobrar para recomeçar.

— Ele se aproximou, o cheiro de uísque caro e charutos invadindo o espaço entre eles.

— Você deveria agradecer. O homem que vai te levar hoje é podre de rico. Vai te cobrir de diamantes.

— Antes de me cobrir de hematomas?
A mão dele voou rápido, mas Jessie estava preparada. Virou o rosto no último segundo, sentindo apenas o ar deslocado. Marcus respirava pesado, o maxilar tenso.

— Você aprendeu a ter língua afiada com sua mãe. Olha onde isso a levou.
Jessie engoliu o nó na garganta. Sua mãe estava em um cemitério há cinco anos, com uma lápide que dizia "acidente". Mas Jessie tinha catorze anos quando encontrou o corpo. Sabia reconhecer marcas de mãos em um pescoço.

— São quase dez horas. — Marcus ajeitou o smoking. — O leilão começa à meia-noite. Espero que você seja esperta o suficiente para não fazer escândalo. Homens como os que vão estar lá hoje... eles quebram coisas bonitas quando contrariados.

Ele saiu, deixando o aroma de sua colônia cara e podridão moral.
Jessie voltou a olhar pela janela, mas agora via apenas seu próprio reflexo. Cabelos negros caindo em ondas até a cintura.

Olhos castanhos que sua mãe costumava dizer que pareciam mel ao sol. Pele que nunca viu o sol o suficiente. Lábios vermelhos como o vestido que a enforcava.

Ela era bonita. Sabia disso. E odiava.
Porque beleza, no mundo de Marcus Valdes, era moeda. E ela estava prestes a ser gasta.

O porão do Cassino Valhalla não parecia um porão. Parecia o inferno redecorado por um designer de interiores com fetiche por veludo e ouro. Lustres de cristal pendiam do teto abobadado, lançando luz dourada sobre as cadeiras de veludo vermelho dispostas em semicírculo. No centro, um pequeno palco de mármore negro.

Jessie desceu as escadas segura por dois seguranças. Seus saltos altos ecoavam como sentença de morte.

Vinte homens, talvez vinte e cinco, ocupavam as cadeiras. Todos de terno. Todos com olhos que a despiam antes mesmo de ela pisar no palco.
Mas havia um que não olhava.

No fundo, afastado dos demais, um homem recostado em uma cadeira individual. Ele não usava terno — usava uma camisa preta com mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços cobertos de tatuagens que pareciam se mover na luz oscilante.

Cabelo negro caindo sobre a testa, maxilar cortado como vidro, e olhos...
Jessie sentiu o ar fugir dos pulmões quando esses olhos finalmente a encontraram.

Eram cinzentos. Não o cinza suave da chuva, mas o cinza de metal frio. De lâminas. De tempestades que afundam navios.

E ele não a olhava como os outros. Não despia seu corpo com luxúria barata.

Ele a olhava como quem avalia uma arma. Perigosa. Útil. Valiosa apenas se empunhada corretamente.

— Senhores. — A voz do leiloeiro cortou o silêncio. — Esta noite oferecemos algo raro. Jessie Valdes.

Vinte e três anos. Educação em colégios particulares suíços. Fluente em quatro idiomas. Virgem.
A última palavra foi dita como quem anuncia o quilate de um diamante.
Jessie manteve o queixo erguido. Não ia chorar. Não ia dar a eles essa satisfação.
— O lance inicial é de quinhentos mil dólares.
— Quinhentos mil! — Um homem gordo na primeira fileira levantou a placa.
— Setecentos mil! — Outro, mais jovem, cabelo oxigenado, sorriso de predador.
Os lances subiram. Um milhão. Um milhão e meio. Jessie deixou de prestar atenção nos números. Concentrou-se em respirar. Em ficar de pé. Em não desmoronar.
Até que uma voz cortou o frenesi como vidro atravessando seda.
— Cinco milhões.
Silêncio.
Todos se viraram.
O homem de camisa preta não havia levantado placa. Não havia se mexido. Apenas falado, e a sala inteira congelou.
— Senhor Volkov. — O leiloeiro gaguejou. — Isso é... isso excede em muito o...
— Cinco. Milhões. — Ele repetiu, cada palavra uma pedra jogada em água parada. Então, pela primeira vez, seus olhos deixaram Jessie e foram até o leiloeiro. — Alguém quer oferecer mais?
Ninguém respirava.


— Vendido, então. — Ele se levantou, e Jessie percebeu que ele era alto. Mais de um metro e noventa, ombros largos, corpo que prometia violência contida. — Vou levá-la agora.
— Há papeladas, senhor Volkov, contratos que...
— Meus advogados vão resolver. — Ele subiu no palco com passos medidos, cada movimento deliberado como um predador se aproximando da presa. Quando chegou perto o suficiente para Jessie sentir o cheiro dele — couro, fumaça e algo selvagem —, ele parou.
E estendeu a mão.


Não agarrou seu braço. Não a puxou. Estendeu a mão, como se ela tivesse escolha.
Jessie olhou para aquela mão. Tatuagens subiam pelos dedos longos. Cicatrizes antigas marcavam os nós dos dedos.


Ela poderia recusar. Poderia gritar, fazer escândalo, implorar.
Mas olhou para os olhos dele novamente e viu algo que a surpreendeu.
Uma pergunta silenciosa.
Então colocou a mão dela na dele, e sentiu os dedos dele fecharem firmes, mas não brutais, ao redor dos seus.
— Vamos. — Ele disse baixo, apenas para ela. — Antes que eu mude de ideia e mate todos nesta sala.
Não parecia ameaça vazia.
Jessie desceu do palco com ele, consciente de todos os olhares cravados em suas costas. Consciente da mão dele na dela, quente e áspera e estranhamente firme. Consciente de que sua vida havia acabado de mudar completamente.
E quando chegaram à porta, ele parou apenas uma vez, olhando para trás.
— Marcus Valdes.


Seu pai levantou da cadeira, pálido.
— Sim, senhor Volkov?
Os olhos cinzentos eram gelo.
— Se você tentar contato com ela novamente, vou te alimentar aos porcos. Pedaço por pedaço. Começando pelos dedos.
Então ele abriu a porta, e a chuva lá fora parecia chamar por Jessie como um batismo.
Um novo inferno estava apenas começando.

COMPRADA PELO LOBODes histoires addictives. Découvrez maintenant