O despertador do celular de Helena não tocava uma música suave; era um ruído metálico e insistente que parecia martelar exatamente no centro de sua testa às seis da manhã. Ela tateou o criado-mudo, derrubando um copo de água vazio e dois lápis de desenho antes de silenciar o aparelho
O quarto, um cubículo de vinte metros quadrados no centro de São Paulo, cheirava a tecido guardado e ao mofo leve que insistia em brotar nos cantos das paredes sempre que chovia. Helena sentou-se na beira da cama, os pés descalços tocando o chão frio de taco. Ela era designer de moda... ou pelo menos era o que dizia o diploma emoldurado que servia de apoio para uma pilha de contas de luz atrasadas. No mundo real, entretanto, seu talento estava confinado a uma máquina de costura Singer antiga e ao humor volátil de sua patroa
— Mais um dia no paraíso de ser CLT — murmurou para a gata vira-lata, Naná, que apenas bocejou em resposta
Antes de sair, Helena fez o que era seu único ritual de sanidade: abriu o Twitter. @helena11: Acordei com a disposição de um zíper invisível travado. Se a Dona Adelaide me pedir para diminuir um manequim 44 para um 38 hoje, eu juro que me mudo para outra dimensão!
A Rotina na "Adelaide Haute Couture"
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O trajeto até a oficina era a típica cena de ônibus lotado e odores urbanos. Ao chegar, o som estridente da voz de sua patroa já cortava o ar. Dona Adelaide era uma mulher que acreditava que o volume da voz compensava a falta de talento. — Atrasada dois minutos, Helena! — exclamou Adelaide, sem tirar os olhos de uma revista de fofocas. — A cliente do vestido de seda já ligou três vezes. Ela quer o ajuste pronto até o meio-dia. Se você estragar aquela seda, o desconto vem direto do seu vale-refeição. Helena engoliu em seco. Ela sabia que a seda em questão era uma peça de alta qualidade que Adelaide mal sabia manusear, sobrando para Helena o trabalho de "mágica" para salvar cortes mal feitos pela patroa — Vou começar agora, Dona Adelaide — respondeu Helena, mantendo a voz plana, embora por dentro sentisse o habitual tremor de frustração. Ela seguiu para os fundos, onde o Léo já estava com seus fones de ouvido. Léo era o assistente geral, o rapaz que sabia onde cada agulha estava escondida e que compartilhava com Helena o desprezo silencioso pela tirania de Adelaide — Ela está de TPM ou é só o veneno matinal de sempre? — Léo perguntou, deslizando o fone para o pescoço — O de sempre, com um toque extra de sadismo. Ela quer a seda pronta até o meio-dia — Boa sorte. Aquela seda parece que vai desfiar se você olhar com muita força
O Desabafo
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Horas se passaram entre o pedal da máquina e o vapor do ferro de passar. No meio da tarde, sua única pausa foi interrompida pela chegada de Bia, sua melhor amiga, que trabalhava em uma livraria próxima — Você está com cara de quem quer cometer um crime, amiga — Bia disse, entregando um café. — Adelaide de novo? — Ela me fez refazer a mesma gola três vezes, Bia. E depois disse que o design original dela era melhor, sendo que fui eu que desenhei do zero para salvar o vestido — Helena desabafou. — Eu me sinto invisível. No meu caderno eu crio coisas incríveis... aqui eu sou só a "moça dos ajustes". — Você não é invisível, Helô. O mundo é que está olhando para o lado errado. Um dia, alguém vai ver o que você faz e vai te tratar como a rainha que você é. O Reflexo no Espelho Ao final do expediente, Helena caminhou de volta para casa sob uma garoa fina. O cansaço pesava nos ombros como uma capa de chumbo. Ao entrar no quarto, ela parou diante do espelho antigo de moldura descascada que encontrara em uma caçamba meses atrás — Invisível — ela sussurrou para o seu próprio reflexo. Mas, por um breve segundo, o reflexo pareceu não acompanhar seu movimento. O vidro oscilou, como se uma gota de óleo tivesse caído em uma poça d'água, e um brilho azulado emanou das bordas da moldura. Helena piscou, achando que era apenas o cansaço, e foi para a cozinha. Ela mal sabia que, do outro lado daquele vidro, alguém acabara de ver exatamente o que ela era: uma criadora de deuses, presa em um mundo de cinzas.
Fantasias de Passarela
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De volta ao papel, Helena sentiu o grafite manchar a lateral de sua mão. Era um desenho ambicioso: um vestido de gala que desafiava a gravidade. Naquela folha, ela não era a funcionária de Adelaide; era a mestre. A luminária falhou novamente, piscando antes de estabilizar. Helena levantou-se e caminhou até a cozinha para beber água. O reflexo na janela mostrava uma mulher de vinte e poucos anos que parecia carregar quarenta nas costas. Ela voltou ao quarto e parou diante do espelho de madeira entalhada. Olhou sua imagem cansada, os olhos opacos. — Amanhã tem mais... — disse para si mesma, uma promessa que soava como sentença. Ela adormeceu com a imagem do vestido azul em sua mente, sem saber que, no dia seguinte, a rotina de Adelaide seria o menor dos seus problemas. Por enquanto, o mundo era apenas feito de concreto, contas atrasadas e o som constante da chuva.