A mãe lhe dissera uma vez, quando ela perguntou por que seus cabelos eram cinzentos, que era porque nascera numa noite de lua cheia.
Ela acreditou.
Naquela época, tinha quatro anos, e o que uma criança sabe? Porra nenhuma.
Não sabia nem aguentar o peso da própria língua. Mal falava; quem dirá entender e questionar a absoluta falta de conexão entre lua cheia e a cor do cabelo.
Hoje, ela sabia que era genética. Algum antepassado carregara aquela característica rara. Quem exatamente, era uma incógnita muito irrelevante. Ela não se importava com esse detalhe mínimo que a diferenciava dos outros.
E ninguém parecia se importar também. Pelo menos não na presença dela.
O que era até meio chato, levando em conta que a cidade era uma caixa de fósforos. Qualquer conversa mínima virava incêndio se passasse pelas pessoas certas, ou erradas. Dependia do ponto de vista.
Se fosse ela o motivo da conversa, não queria que uma fofoca se espalhasse sem que ela sequer soubesse o que supostamente fizera. Agora, se não fosse ela... Que a cidade queimasse.
Os cabelos cinzentos chamavam atenção, sim, mas não eram o bastante para sustentar uma história. As pessoas precisavam de mais; de um erro, um deslize.
Numa cidade pequena, o silêncio nunca é ausência de assunto. Se parece mais com a calmaria antes da tempestade.
E ela sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguém ia riscar o fósforo.
Irise estava sempre na linha tênue entre se manter fora do radar dos fofoqueiros de Forks e cair de paraquedas na maior fofoca que engoliria a cidade inteira.
Ela não era uma santa. Sabia disso muito bem. Mas sempre soube ocultar seus feitos.
Talvez, porém, aquilo não fosse algo que pudesse ser escondido. Não quando estava fodidamente machucada, com o Dr. Snow suspirando como quem pedia uma dose extra de sabedoria a Deus.
"Precisa conversar com alguém? Se sim, pode falar comigo. Talvez eu possa ajudar." Disse ele, compassivo, enquanto limpava um corte profundo no antebraço dela.
Ela moveu um pouco o braço.
"O que o senhor quer dizer? Sss..." Irise se encolheu com a ardência.
Ele parou por um segundo antes de continuar. O médico que a conhecia desde que ela era uma bebê ranhenta disse, com cuidado excessivo:
"Não parece uma queda acidental, Irise. Você..."
Ela o olhou indignada, mesmo com a dor latejando por todo o corpo. Teria respirado fundo se a costela não doesse até para falar.
"Não acredito, doutor. Não acredito mesmo. O senhor acha que eu tentei me matar? Olha, com todo respeito, não fode. Posso ser uma doida às vezes, mas eu amo muito a minha vida. Parece até que estou me justificando, mas eu nunca seria uma suicida. O senhor está maluco, com todo respeito, é claro. Eu estava caminhando. Ca-mi-nhan-do. Escorreguei numa pedra desgraçadamente lisa e caí. Acontece que a água não é amiga nem dela mesma, sabia? Ela me arrastou numa onda, bati em algumas pedras e sobrevivi, como meu corpo está deixando bem claro. Estou toda ferrada, com uma costela trincada, testa cortada e meu ombro estava deslocado quando cheguei, porque tentei viver. Que diabos o senhor está pensando? Quando foi que eu dei a entender que não quero mais aproveitar a minha boa vida nesta cidade?"
O silêncio caiu entre os dois. O ar no quarto parecia pegajoso de tão denso.
Dr. Snow ajeitou os óculos no nariz, respirou fundo e voltou ao trabalho com mais cuidado ainda.
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Estranha | Twilight
FanfictionIrise é estranha. Ela admite, sempre com bom humor, que talvez seja o que todos dizem que ela é: amaldiçoada. Apesar de levar na brincadeira, em seu coração ela sabe que há sim, algo de diferente. Ela só não quer descobrir o que é, mas seu interesse...
