Em um país tomado pelo caos, pessoas se transformam em zumbis conscientes, cruéis e sádicos.
Perdida nesse mundo em colapso, Mila Brown, uma garota infantilista cruza o caminho de Vincent Hacker, um homem marcado por violência, segredos e um passado...
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Eu estava sentada na beirada da minha nova cama, os pés balançando sem tocar o chão. O quarto era enorme. Ainda faltava pintar e decorar do meu jeito, tinha espaço de sobra pra colocar minha escrivaninha, pôsteres e talvez umas luzinhas na parede.
Já dava pra imaginar como ia ficar bonito.
Papai tinha sido transferido pra Austenbury por causa de seu trabalho. Ele é general do Exército, então essas mudanças acontecem de vez em quando.Eu nasci aqui, mas meus pais me levaram embora quando eu ainda era bebê. Agora, anos depois, voltamos. Como se a vida tivesse dado uma voltinha e me jogado de novo no mesmo lugar.
Olhei pro teto. Algumas estrelinhas de plástico ainda estavam grudadas ali, desbotadas e tortas. Deviam ter sido colocadas por outra pessoa que morou aqui antes. Suspirei. Amanhã era meu primeiro dia na nova escola. Último ano. Eu queria tanto que desse certo.
Peguei o Senhor Pimbo do travesseiro. Meu coelhinho velho que ganhei da vovó no dia em que nasci, e, desde então, ele tem sido meu melhor amigo.
— Vai dar tudo certo, né, Pimbo? Eles vão gostar da gente.
Abracei ele forte contra o peito, como se ele pudesse me proteger da ansiedade que apertava minha garganta.
Foi quando ouvi.
Um barulho baixo, vindo de fora. Meu coração deu um pulo. Levantei rápido, descalça, o chão frio mordendo meus pés. Caminhei até a janela devagar, coração na boca. Afastei a cortina só uma fresta.
A rua estava vazia. Só os postes de luz jogando círculos amarelos no asfalto molhado. Ninguém. Nenhum carro. Nenhum cachorro latindo. Silêncio.
Soltei a cortina e me virei.
E dei de cara com ela.
Mamãe estava parada na porta do quarto, quieta, me olhando.
A Mila deu um gritinho e pulou pra trás, quase tropeçando na cama.
— Que susto, mãe!
Ela sorriu, mas o sorriso parecia cansado. Ela tossiu duas vezes, uma tosse seca que ecoou no quarto vazio.
— Hora de dormir, querida.
Eu a encarei, preocupada.
— Mamãe, você está bem? Não te vi o dia todo…
Ela acenou com a mão, como se não fosse nada.
— Só um resfriado. Mudança de clima, sabe como é. Essa cidade úmida sempre pega a gente de surpresa.
Sua voz estava calma, mas algo nela parecia… diferente. Ou era só a luz fraca do abajur?
Assenti, ainda com o peito apertado.
— Tá bom. Boa noite, mãe.
— Boa noite, minha menina.
Ela entrou, apagou o abajur com um clique suave e se inclinou pra me dar um beijo na testa. O beijo foi frio. Ou fui a Mila que senti frio? Ela saiu devagar, fechando a porta com cuidado.