Capítulo 1

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Eu estava sentada na beirada da minha nova cama, os pés balançando sem tocar o chão

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Eu estava sentada na beirada da minha nova cama, os pés balançando sem tocar o chão. O quarto era enorme. Ainda faltava pintar e decorar do meu jeito, tinha espaço de sobra pra colocar minha escrivaninha, pôsteres e talvez umas luzinhas na parede. 

Já dava pra imaginar como ia ficar bonito.

Papai tinha sido transferido pra Austenbury por causa de seu trabalho. Ele é general do Exército, então essas mudanças acontecem de vez em quando.Eu nasci aqui, mas meus pais me levaram embora quando eu ainda era bebê. Agora, anos depois, voltamos. Como se a vida tivesse dado uma voltinha e me jogado de novo no mesmo lugar.

Olhei pro teto. Algumas estrelinhas de plástico ainda estavam grudadas ali, desbotadas e tortas. Deviam ter sido colocadas por outra pessoa que morou aqui antes. Suspirei. Amanhã era meu primeiro dia na nova escola. Último ano. Eu queria tanto que desse certo.

Peguei o Senhor Pimbo do travesseiro. Meu coelhinho velho que ganhei da vovó no dia em que nasci, e, desde então, ele tem sido meu melhor amigo.

— Vai dar tudo certo, né, Pimbo? Eles vão gostar da gente.

Abracei ele forte contra o peito, como se ele pudesse me proteger da ansiedade que apertava minha garganta.

Foi quando ouvi.

Um barulho baixo, vindo de fora. Meu coração deu um pulo. Levantei rápido, descalça, o chão frio mordendo meus pés. Caminhei até a janela devagar, coração na boca. Afastei a cortina só uma fresta.

A rua estava vazia. Só os postes de luz jogando círculos amarelos no asfalto molhado. Ninguém. Nenhum carro. Nenhum cachorro latindo. Silêncio.

Soltei a cortina e me virei.

E dei de cara com ela.

Mamãe estava parada na porta do quarto, quieta, me olhando.

A Mila  deu um gritinho e pulou pra trás, quase tropeçando na cama.

— Que susto, mãe!

Ela sorriu, mas o sorriso parecia cansado. Ela tossiu duas vezes, uma tosse seca que ecoou no quarto vazio.

— Hora de dormir, querida.

Eu a encarei, preocupada.

— Mamãe, você está bem? Não te vi o dia todo…

Ela acenou com a mão, como se não fosse nada.

— Só um resfriado. Mudança de clima, sabe como é. Essa cidade úmida sempre pega a gente de surpresa.

Sua voz estava calma, mas algo nela parecia… diferente. Ou era só a luz fraca do abajur?

Assenti, ainda com o peito apertado.

— Tá bom. Boa noite, mãe.

— Boa noite, minha menina.

Ela entrou, apagou o abajur com um clique suave e se inclinou pra me dar um beijo na testa. O beijo foi frio. Ou fui a Mila que senti frio? Ela saiu devagar, fechando a porta com cuidado.

WhispersWhere stories live. Discover now