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Sarina

Desde aquele dia, algo entre mim e Tsukishima mudou.

Ele passou a me provocar mais, sempre que ficávamos em dupla. Às vezes era um comentário ácido sobre o meu jeito de resolver um problema, outras, uma observação sobre meu cabelo solto ou a minha distração. Yamaguchi tinha algumas aulas em horários diferentes dos nossos e, quando voltava, já encontrava o "ritmo" estabelecido: nós dois juntos.

Até mesmo quando estávamos em trio, a coisa evoluiu. Sem que eu percebesse, fui sendo colocada entre eles como uma possível amiga.
Amiga.

Mas tudo o que eu queria com Tsukishima estava longe de ser amizade.

Eu reparava demais nele. Nas mãos longas segurando o lápis. No jeito como ajeitava os óculos, empurrando a haste com um dedo só, ou no cuidado meticuloso quando os limpava. Yamaguchi sempre sorria quando me pegava observando, mas nunca me criticava; ao contrário, parecia entender. Tínhamos nos tornado bons amigos, para mim cada detalhe era um lembrete do que eu realmente sentia.


🏐📝🏐📝🏐📝


A sala de ciências estava silenciosa, exceto pelo som dos lápis riscando o papel e pelo clique ritmado do cronômetro que marcava o tempo do nosso experimento. O cheiro de álcool e materiais de laboratório tomava o ar. Era para ser só mais uma atividade escolar, mas, para mim, parecia um teste de resistência emocional.

Estávamos nós três — eu, Yamaguchi e Tsukishima — montando um modelo de reação química para a feira de ciências. Yamaguchi anotava resultados com paciência, enquanto eu tentava organizar as amostras. Tsukishima, como sempre, parecia no controle de tudo, encostado de leve na bancada, os óculos escorregando no nariz enquanto mexia nas soluções.

— Cuidado com essa pipeta, Satoji — comentou ele, sem sequer olhar para mim. — Se errar a dosagem vai estragar o resultado.

— Eu sei o que estou fazendo, obrigada — retruquei, mas minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria.

Ele ergueu uma sobrancelha, aquele meio sorriso no canto dos lábios.

— Sei... mas da última vez você virou poesia com as contas. Vamos ver se agora não vira drama com os reagentes.

Tadashi mordeu o lábio para não rir e me lançou um olhar rápido, cúmplice, como quem dizia "ele está pegando no seu pé de novo".

Fiz força para me concentrar nas medidas. Mesmo assim, não consegui evitar: meus olhos foram parar nas mãos do Tsukishima, firmes e precisas, movendo os instrumentos de vidro com cuidado irritante. Cada gesto parecia calculado.

— Sabe, você é muito meticuloso para um simples experimento escolar — falei, tentando soar neutra.

Ele deu de ombros.

— Alguém precisa compensar as distrações do grupo.

— Ei! — protestei, mas Tadashi interveio com um sorriso.

— Relaxa, Sarina. Ele provoca, mas é só o jeito dele — disse, escrevendo mais um resultado na planilha.

— Yamaguchi, você está ajudando o lado errado — brinquei, mas por dentro meu coração acelerava.

Tsukishima apenas riu pelo nariz e me passou uma folha com as fórmulas.

— Aqui, vê se consegue simplificar isso antes de transformar em texto lírico.

Um elogio disfarçado de provocação. Era a terceira vez naquela semana que ele fazia algo assim. E eu, que normalmente tinha respostas afiadas, fiquei apenas olhando para a caligrafia dele no papel.

Tadashi percebeu. Sorriu de novo, mas não disse nada e eu tentei me lembrar que isso era só um projeto de ciências. Mas, no fundo, sabia que era mais um campo minado entre eu e o garoto que eu não conseguia parar de olhar.


Tadashi terminou de anotar os últimos números e deixou o lápis de lado. Ficou me observando em silêncio enquanto eu ainda mexia nos frascos. Tsukishima estava um pouco afastado, lavando o material no balcão, fones no pescoço como sempre.

— Sabe, Sarina... — Yamaguchi começou, baixinho, fingindo que falava do relatório — você anda reparando demais no jeito que ele faz as coisas.

Olhei para ele, assustada.

— Q-quê? Eu só estou concentrada no experimento.

Yamaguchi ergueu uma sobrancelha, um sorriso discreto.

— Aham. "Concentrada". Até parece que não sei ler olhares.

Meu rosto queimou. Apertei a pipeta com mais força para não deixar cair nada.

— Não é nada disso, Yamaguchi.

Ele se inclinou um pouco mais, ainda em tom de brincadeira:

— Relaxa, não vou contar pra ele. Só acho engraçado ver você tão direta nas aulas e toda atrapalhada perto dele.

Mordi o lábio, tentando não encarar o loiro do outro lado.

— Você é impossível...

Tadashi deu uma risadinha curta e voltou para os papéis.

— Se você diz.

Antes que eu pudesse responder, a voz de Tsukishima cortou o ar.

— Se ela diz o quê?

Congelamos. Eu e Tadashi trocamos olhares. O loiro estava parado bem atrás de nós, secando as mãos com um pano. O tom era neutro, mas havia algo nos olhos dele — um brilho curioso que não estava ali antes.

— Nada de importante — Tadashi respondeu rápido, mas Tsukishima não desviou de mim.

— Certo... — ele murmurou, jogando o pano no balcão. — Só achei que estavam falando de mim.

E saiu andando para buscar outro material.

Meu coração disparou, Tadashi mordeu o sorriso, tentando se conter.

— Viu? Ele ouviu.

Eu baixei a cabeça no caderno, tentando parecer ocupada, mas o sangue ainda zunia nos meus ouvidos. Era só um projeto de ciências. Só um projeto...


🏐📝🏐📝🏐📝


O dia tinha sido produtivo demais.

Depois do projeto, Tsukishima e Yamaguchi decidiram passar numa loja de conveniência. Eles até me convidaram, mas eu neguei com um sorriso. Sabia reconhecer a hora em que os rapazes queriam ficar sozinhos.

Segui sozinha para a minha floricultura favorita, um cantinho escondido entre duas ruas estreitas. Assim que entrei, o aroma doce das flores tomou conta de mim. Rosas, lírios, girassóis. Passei os dedos de leve nas pétalas de um vaso de crisântemos brancos, inspirando fundo como quem tenta guardar o cheiro dentro de si.

Ali, entre cores e perfumes, parei para analisar a minha situação.

Falta um mês e doze dias para o fim das aulas e, consequentemente, para o fim da nossa vida letiva nessa escola. Depois disso, provavelmente cada um vai para um lado.

Eu já escolhi a escola que vou, mas não contei a ninguém. Não quero que pensem que estou tomando essa decisão com base nas minhas amizades atuais ou em qualquer outra coisa. Quero estar consciente de tudo antes de dar esse passo.

E, definitivamente, não quero que descubram a minha paixão pelo loiro alto de óculos. Já estão me olhando estranho desde que comecei a andar demais com ele e Tadashi. "Não populares", sussurram pelos corredores. Como se isso importasse para mim.

Enquanto cheirava as flores, vi meu reflexo no vidro da vitrine: uma menina que escreve textos bonitos, que fala de amor com segurança, mas que treme toda vez que aquele garoto a olha. Suspirei.

Talvez eu só esteja tentando ganhar tempo, antes que tudo mude.

6*3 | TsukishimaStories to obsess over. Discover now