Capítulo 1 - Ruínas Vivas

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⚠️Essa história aborda temas sensíveis leia com cuidado 💛
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"Dentro de mim mora um grito.
De noite, ele sai com suas garras, à caça
De algo pra amar."

     Sylvia Plath

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Era fim de tarde quando Harry Potter explodiu.

O escritório dos Aurores parecia menor, sufocante, como se as paredes soubessem que ele estava à beira de colapso. A missão tinha sido um desastre: um suspeito fugido, dois aurores feridos, e um civil — uma criança — atingido por um feitiço ricocheteado. Harry já sentia o sangue fervendo quando Wilkes, o novato atrevido que Kingsley insistia em manter, soltou:

— Parece que o garoto que sobreviveu esqueceu como salvar alguém, hein?

O soco veio antes do pensamento. Um som seco, o osso contra a carne. Wilkes caiu para trás, sangrando do lábio, arregalado.

— Caralho, Potter! — gritou alguém.

Mas Harry não escutou. Só via vermelho.

Kingsley o chamou na hora. Seu rosto era uma máscara de contenção, mas os olhos... havia cansaço ali. E pesar.

— Harry. — A voz era grave. — Isso não pode continuar. Eu estou te afastando. Vai pra casa. Vai cuidar do seu filho. Vai... respirar.

Harry apertou os punhos.

— Eu não tenho casa. Eu tenho uma guerra fantasma que não terminou. Eu tenho um afilhado que mal dorme porque sonha com os pais mortos. Eu tenho uma porra de uma estátua no Ministério, como se eu fosse um símbolo, mas tudo que eu sou é um homem fodido assinando relatórios que não salvam ninguém.

Kingsley suspirou.

— Você precisa de ajuda.

Harry saiu batendo a porta. Não foi pra Toca, nem pra casa de Andromeda e nem pro seu apartamento. Não queria ver o rosto de Molly, insistindo para ele "dar uma chance à Gina". Nem o olhar sutilmente preocupado de Andromeda ao entregar Teddy, como se dissesse: “Você não pode quebrar”.

Ele queria sumir. Então sumiu.

Pegou um metrô. Foi parar em um bairro esquecido por trouxas e bruxos. Bares escuros, ruas molhadas, cheias de papel velho e cheiro de mofo. Pediu uma cerveja num pub quase em ruínas e sentou-se no fundo, encarando o nada com olhos ocos.

Foi então que viu.

Pela janela suja, um beco à meia-luz. Um vulto loiro e magro saía dali, ajeitando a camisa puída, as calças tortas, o rosto machucado. O cabelo grudado na testa oleosa, a boca inchada. Manchas roxas pelo pescoço, um corte mal cicatrizado no queixo. Os olhos estavam baixos. Vazios. E mesmo assim... Harry reconheceu.

Era Draco Malfoy.

O coração apertou, algo entre nojo, surpresa e medo. O corpo se moveu por conta própria. Quando atravessou a rua e parou diante do beco, viu de perto a miséria. Draco estava encostado contra a parede de tijolos úmidos, cuspindo sangue e algo mais — talvez nojo de si mesmo.

— Draco...? — a voz de Harry saiu como um sussurro.

O loiro ergueu os olhos, arregalados por um instante, mas rapidamente se apagaram.

— Bom... olha só quem veio visitar o inferno. O próprio Messias.

Harry se aproximou, o cheiro de urina, cigarro e vômito atingindo seu nariz como um soco. A camisa de Draco estava aberta, manchada de sêmen seco e sangue. Os dedos tremiam enquanto puxava um cigarro do bolso rasgado.

— Que merda você tá fazendo?

Draco riu, mas era um som sem alma.

— Trabalhando. Você quer também? Eu faço um preço especial. Um beijo grátis, já que me salvou do julgamento.

Harry sentiu o estômago virar.

— Para com isso. Que porra é essa, Malfoy? Isso é vida?

— Não. — Draco sorriu, mas os dentes estavam sujos. — Isso é sobrevivência. Ou algo perto disso. Quer saber onde eu dormi ontem? Num colchão imundo atrás de um restaurante. Com ratos. E um velho que me pagou com duas doses de heroína e um soco na cara.

— Por Merlin... — Harry balançou a cabeça.

— Não fala esse nome aqui, Potter. Ele não anda por essas ruas.

Harry se aproximou. Viu melhor. O olho esquerdo inchado, os braços marcados com hematomas e furos de agulha. Um dos joelhos sangrando, coberto de barro. A pele era um mapa de degradação.

— Você tá usando?

Draco deu de ombros.

— Uso o que me dá sono. Uso o que me impede de lembrar.

— Caralho, Malfoy...

— E eu achava que sua cara de herói deprimido era só charme. Olha você agora: perdido num bar fedido, olhando pro inimigo de infância como se fosse seu reflexo no espelho.

Harry engoliu em seco. Não sabia o que estava fazendo. Só sabia que... não podia deixá-lo ali.

— Vem comigo.

Draco parou. Piscou como se não tivesse entendido.

— O quê?

— Vem. Agora.

— Por que você se importaria, Potter?

Harry apertou os dentes.

— Porque ninguém mais se importa. E isso... isso não tá certo.

— Nada é certo. Você quer salvar alguém pra se sentir útil de novo, é isso? Põe no meu cu e depois me leva pra casa, como um prêmio de guerra?

— Cala a boca. — A raiva cresceu. — Eu não vou te deixar aqui apodrecendo.

Draco riu, mas seus olhos estavam marejados.

— Eu já apodreci. Você chegou tarde.

Harry avançou, agarrou o braço de Draco. Ele tentou resistir, mas estava fraco. Tonto. Os joelhos vacilaram.

— Espera... eu estou sujo. — Draco murmurou, quase num sussurro infantil. — Eu... eu preciso vomitar...

Harry o segurou com firmeza. Draco cambaleou, vomitando no chão ao lado um líquido amarelado misturado com sangue. Harry cerrou os olhos, mas não largou.

Sem pensar mais, puxou a varinha e Desaparatou.

O beco ficou vazio. A noite engoliu os dois.

Na cabeça de Harry, só uma frase ecoava: "O que eu estou fazendo?"

Mas no peito, uma dor mais antiga. Uma fagulha de algo que ele achava ter morrido na guerra. Algo que dizia: "Não deixa ele morrer."

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Obrigada por ler 💛

Em Queda LivreMga kuwentong kahuhumalingan mo. Tumuklas ngayon