Eu só queria dormir um pouco mais, mas o despertador berra às 6:15 da manhã, como sempre, e arranca meu corpo de um sonho que já esqueci. Abro os olhos e pronto, a realidade bate como um caminhão.
Hoje tem prova importante, mas não é que eu esteja com medo do resultado, minhas notas estão sempre lá no alto, mas ainda assim, a ansiedade é algo comum em um jovem de 17 anos.
Meu quarto é...bom, grande demais pro meu gosto. Um daqueles ambientes projetados por decoradores que acham que conforto é sinônimo de elegância. Piso de madeira, cortinas pesadas, uma cama grande com lençóis de algodão e uma poltrona de couro no canto onde ninguém nunca senta. Tem até uma lareira que nunca foi usada, uma mesinha de estudos de madeira maciça, que provavelmente vai durar mais que a própria casa. Mas apesar de tudo isso, ainda é meu refúgio.
A luz do sol já está entrando pela janela, desenhando sombras no chão. O ar tem aquele cheiro de lavanda que minha mãe gostava, às vezes parece que ela ainda está por aqui, mesmo que a memória dela esteja cada vez mais distante. Por fora, está tudo calmo, mas por dentro minha cabeça é um ringue. De um lado, a ansiedade, do outro, a preguiça. A vontade de ficar na cama é quase maior do que a pressão de ir à escola. Quase. Suspiro e me sento devagar. Ainda sonolento, me arrasto até o banheiro. O banho gelado me acorda na marra, como se cada gota fosse um tapa na cara me dizendo para acordar de vez.
Eu devia ao menos repassar o assunto da prova, mas enquanto me visto, estou cantarolando uma música que está em um loop eterno na minha mente. Me olhando no espelho, mexo nos pequenos dreads que cultivo com carinho, ao menos é o que falo quando me perguntam se dá trabalho ter dreads. Apesar dos olhares tortos por eu ser negro com dreads, nunca sofri um preconceito mais pesado, talvez por causa do meu pai, o Comissário da polícia de Nova York. É um cargo bem importante, eu sei que que é, mas vem cá, deixa eu te contar um segredo. Quanto maior o cargo, mais responsabilidades, quanto maior a responsabilidade, mais tempo se leva para organizar tudo e quanto mais tempo se passa no trabalho, menos tempo se passa em casa, com a família. E no meu caso, meu pai é a minha única família.
Desço as escadas já pronto para sair, uma mochila pendurada em apenas um dos ombros, fone de ouvido em apenas uma das orelhas tocando um podcast que fala sobre crimes reais. Na cozinha, meu pai já está lá, uma xícara de café, olhos vidrados no jornal, gravata devidamente alinhada. O cheiro de café fresco já tomava o local, mas isso não me anima, tudo isso porque sei o que vem a seguir.
- Tá atrasado, Evan... - Ele fala sem ao menos levantar os olhos para me encarar.
- Eu já estou pronto...
- Não tem prova hoje? Sabe que não pode perder uma avaliação, a disciplina é o que faz o homem...
- Se manter em foco - completo a frase que já ouvi milhares de vezes. Pego um pouco de achocolatado e viro de uma vez - Não tenho fome pela manhã... Sabe disso...
Ele olha para mim como se tentasse afastar a frieza que o cargo demandava, tentando se colocar como Thomas, meu pai e não Comissário Jones.
- Ah é.... Não sabe...
- Filho... - o tom da sua voz agora era mais gentil, menos imperativa - vou te buscar depois da escola.
- Não precisa - mesmo querendo passar mais tempo com ele, muitas vezes me sentia magoado pela sua ausência e eu sei, eu sei, fazer isso só o afastaria ainda mais, mas qual é? Eu sou o adolescente aqui, me deixa agir como tal.
- Eu quero.. podemos passar um tempo juntos... Talvez almoçar.
- Eu tenho prova... Provavelmente vou sair mais cedo.. - respiro fundo e sinto mais uma vez o cheiro de lavanda, de certa forma, é como se a mamãe estivesse aqui, mediando e nos ajudando a fazer as pazes - eu te ligo avisando... Mas agora.. preciso ir.
KAMU SEDANG MEMBACA
Parabellum
Fiksi RemajaParabellum é um romance intenso sobre descobertas, conexões profundas e forças que ultrapassam a compreensão humana. Evan Jones nunca foi um garoto comum, não por ser filho do Comissário de Nova York, mas por carregar feridas invisíveis. A morte da...
