CAPÍTULO ZERO - PRÓLOGO

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O deserto não era silencioso por acaso.
Era um silêncio que sobrevivera à guerra.

A areia não se estendia limpa ou intocada. Entre as dunas, ossos emergiam como raízes mortas. Crânios humanos, de elfos, de raças cuja forma já não se reconhecia por completo, estavam semi-enterrados, polidos pelo vento e pelo tempo. Alguns ainda traziam marcas de lâminas. Outros, rachaduras irregulares, como se tivessem sido esmagados por algo maior do que mãos ou armas comuns.

Armas enferrujadas despontavam aqui e ali. Pontas de lanças quebradas, espadas partidas ao meio, escudos soterrados até a metade, como lápides sem nome. Bandeiras haviam sido deixadas para trás em tantas batalhas que suas cores já não existiam. Restavam apenas panos desfiados presos a mastros tortos, rangendo quando o vento passava, baixo e constante, como um lamento contido.

Nenhuma ave sobrevoava aquele lugar. Nenhum inseto se atrevia a romper o ar. A vida aprendera, havia muito tempo, que ali não era bem-vinda.

Ao longe, erguendo-se acima do deserto como uma afronta ao céu, a Torre dominava o horizonte.

Não havia consenso sobre quando fora erguida. Alguns afirmavam que surgira quando os deuses ainda disputavam entre si a forma do mundo. Outros diziam que fora deixada ali como um desafio, ou como um aviso. O que se sabia, e isso ninguém ousava contestar, era que ela não fora feita para ser tomada. Fora feita para existir. Para observar.

Suas paredes não refletiam a luz do sol. Pareciam absorvê-la, devolvendo ao deserto uma penumbra constante, mesmo quando o dia estava alto. Não se distinguia onde começava sua base nem onde terminava seu cume. Quanto mais se olhava, maior ela parecia, como se a própria percepção falhasse diante de sua presença. Muitos juravam que, ao encará-la por tempo demais, sentiam pensamentos se perderem, memórias se embaralharem, como se algo antigo sondasse o interior de quem ousava observá-la.

Era por ela que reis enviavam exércitos.
Era por ela que cidades eram queimadas.
Era por ela que aquele deserto jamais conhecia paz.

O homem caminhava sozinho.

Chamava-se apenas isso ali: homem. Não importava seu nome, nem sua origem. Vestia mantos gastos pelo pó e pelo sol, e cada passo exigia esforço.

Avançava com dificuldade entre ossos e areia endurecida pelo sangue seco de batalhas antigas. Seus pés afundavam em certos pontos, onde corpos haviam sido cobertos às pressas após confrontos que ninguém venceu de fato. O sol castigava sua pele, mas não era o calor que o fazia suar. Era a sensação constante de estar sendo observado, mesmo quando não havia olhos ao redor.

Não era guerreiro. Não era mago. Não carregava símbolos de casa alguma. Ainda assim, como tantos outros antes dele, fora empurrado até ali por promessas que o mundo repetia há gerações. Promessas de poder. De redenção. De ascensão além da condição mortal.

Ele parou quando a areia mudou sob seus pés.

Não houve aviso. Um passo adiante, e o solo tornou-se mais firme, quase pétreo, marcado por fissuras finas que se entrelaçavam em padrões que não pareciam naturais. Ossos deixavam de aparecer. Armas desapareciam. Como se a própria terra recusasse a memória das guerras travadas até ali.

O vento cessou.

O silêncio tornou-se mais pesado, mais denso, pressionando os ouvidos e o peito. O homem sentiu a pele se arrepiar, não pelo frio, mas pela certeza instintiva de ter cruzado um limite que não fora feito para ser percebido conscientemente.

À sua frente, a Torre já não parecia distante.

Ela não emitia som algum. Ainda assim, havia movimento. Não externo, mas interno, como o pulsar lento de algo vivo e antigo. O homem pensou nos exércitos que jamais retornaram. Nos magos cujos nomes foram apagados de crônicas e registros. Nos poucos que afirmaram ter se aproximado e voltaram diferentes, incapazes de explicar o que viram, incapazes até de permanecer no mesmo lugar por muito tempo.

Pensou em recuar.

Não recuou.

Não por bravura, mas porque o mundo fora construído para conduzir homens como ele até aquele ponto. Fome, guerra, ambição, desespero. Tudo levava à Torre. Ela não chamava. Não precisava. Sua simples existência era suficiente para dobrar vontades.

Quando sua sombra o envolveu por completo, o homem sentiu a pressão na mente, como se mãos invisíveis apertassem seus pensamentos. O coração acelerou. Tentou rezar, mas as palavras se desfizeram antes de ganhar forma. Tentou lembrar um rosto querido, mas encontrou apenas uma lembrança incompleta, desfocada, como algo visto através de água turva.

Então, a areia atrás dele se moveu.

Não houve ataque visível. Não houve dor imediata. Apenas a sensação abrupta de ausência. Como se o mundo tivesse esquecido que ele existia. Um passo atrás, e o deserto já não o reconhecia. Um olhar em volta, e a Torre parecia ainda mais próxima, grande demais, impossível demais.

O homem abriu a boca para gritar.

Nenhum som saiu.

No deserto, nada mudou.
Os ossos permaneceram onde estavam.
As guerras continuariam.

A Torre permaneceu imóvel, tocando os céus como sempre fizera.

Quando o vento voltou a soprar, a areia já começava a cobrir mais um corpo.

O LEGADO DE ELDORIAWhere stories live. Discover now