01 - Dr Kim

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Primavera de 1971, Estação Wester Hill, Louisiana.

O apito sibilante do trem, o mudo "click" metálico do operador fazendo a chave, o som esganiçado dos freios nos trilhos, e a singular cidadezinha pacata que se descortinava pelas janelas embaçadas do trem; após incontáveis horas apreciando a vista costeira ao longo de toda a linha férrea, este era o anúncio de que Kim Migyu havia enfim chegado ao seu destino: a longínqua estação de Wester Hill, bem onde terminavam todas as linhas transitáveis daquele lado do país, praticamente o que chamariam de "confins do mundo" habitado, e com certeza um lugar pouco promissor para um jovem médico em ascensão.

Toda aquela frugalidade que ia descobrindo pouco a pouco trazia a sua memória os modestos comentários críticos que ouviu quando decidiu deixar Chigado e seu confortável trabalho por um lugar incoveniente como a pacata cidadezinha de Beauffort, no que poderia ser considerado um verdadeiro ato de suicídio profissional.

Para Migyu aquela era a oportunidade para um recomeço, uma chance de deixar para trás todas as desgraças que vieram com os anos difíceis de sua vida e o forçaram aquela fuga do mundo habitado.
Em parte, entendia as críticas e a preocupação dos seus antigos colegas em relação a sua vida profissional, mas havia algo que eles não entendiam.

Nem todo aquele que vagueia está perdido.

As vezes só procura um longínquo lugar pacífico onde possa repousar sua alma.

Migyu queria encontrar este lugar.

E nenhuma posição profissional ou dinheiro poderiam lhe proporcionar isto, e até mesmo aquela velha satisfação de subir os degraus da vida não sentia a tempos.

Quando o trem parou, os viajantes afervorados se dispersaram em um frenesi alucinante na plataforma da estação, a multidão a fez parecer bem menor do que realmente era.
Kim foi o último passageiro a desembarcar em Wester Hill naquela manhã de abril.
E sob o solo da Louisiana e respirando os novos ares do sul, endireitou condigamente seu chapéu para bloquear os raios do sol vespertino e deu uma boa olhada ao seu redor...

Beauffort era como qualquer outra pequena cidade sossegada e de paisagem acolhedora, no entanto, aquela possuía o enlevo paradisíaco do Golfo do México ao seu favor. Aquele podia não ser um lugar promissor para um médico, mas com certeza era perfeito para longas e tranquilas férias.

Migyu permaneceu parado ali na plataforma vislumbrando a vista marítima ao longe no horizonte brumoso.
Colocou a mão no bolso do sobretudo a procura de alguma coisa e para sua surpresa tirou um bilhete. Letras femininas perfeitamente grifadas, havia uma impressão de lábios vermelhos sobre o papel e um conveniente "espero vê-lo em breve".
O médico tornou a enfiar a mão no bolso e desta vez tirou de lá um cigarro, e acomodando-se em um dos assentos voltou sua atenção para aquela realidade, para o horizonte brumoso e vazio.

Do outro lado da estação havia uma segunda plataforma deserta separada desta por uma irregular mureta gradeada que se estendia de uma extremidade a outra, e sobre um alto terreno arborizado além da estação notava-se um suntuoso edifício. Uma construção antiga da década de vinte, porém muito bem preservada do tempo voraz: o afamado St. Dymphna Psychiatric Hospital em toda sua arcaica prevalência.

Migyu soltou uma breve risada solitária amassando o papel e acendeu o cigarro.

- Uma bela visão, não? - Kim ouviu uma voz clara e tranquila pronunciar.

Ao virar-se, notou uma figura de sorriso vivaz, cabelos loiros e olhos azuis expressivos em um tom cerúleo. Usava um elegante uniforme azul peculiar do ofício ferroviário.

Love SickWhere stories live. Discover now