O tempo estava frio, melancólico. O garoto de roupas pretas, deitado de barriga para baixo e balançando as pernas, escutava uma música sem seus fones de ouvido quebrados enquanto deixava a brisa passar pelo seu quarto. Por um momento consertou o top que usava por baixo da blusa, e admirou, em silêncio, um gato andando por cima dos muros das casas tão minúsculas naquele ângulo. Bom, tudo parecia ser minúsculo no apartamento que ficava.
Havia uma semana que Nico morava naquele condomínio, e três semanas que voltou a ter contato ativamente com seu pai. Não sabia ao certo se já estava familiarizado com o local — passava bastante tempo enfeitando o próprio quarto, já que Hades deu liberdade para tal coisa — ou se estava gostando de sua nova vida, mas até então não tinha nenhuma reclamação (adorou saber que poderia criar um gatinho preto no condomínio).
Quase se assustou quando escutou a porta ser aberta e a figura paterna aparecer, e imediatamente abaixou o volume do som para escutá-lo. O homem era como uma versão mais velha de Nico (ou talvez Nico que fosse uma versão mais nova do homem) e estava pronto para voltar ao local de trabalho e só dar as caras pelo nascer do sol.
— Vou 'pro departamento mais cedo hoje. Tem comida pronta e dinheiro no balcão.
O menino assentiu, tirando o foco do celular, largando o aparelho na cama apenas para abraçar o pai — meio sem jeito, já que não tinha tanta intimidade como na infância.
— Tá bom. Tchau, pai.
— Tchau, Nico.
Ganhou um beijo no topo da cabeça e voltou para a cama, pesquisando alguma música que poderia inspirá-lo a fazer algo de interessante pela madrugada. Hades era um médico legista, trabalhava com o filho do melhor amigo, então não tinha tanto tempo de sobra — mas Nico percebia o quanto ele tentava ser um bom pai e recuperar o tempo perdido. Ao menos Hades o apoiou e o ajudou com sua identidade.
Suspirou, varrendo os olhos pelo quarto. As paredes eram claras, dando um contraste aos posters e álbuns que teve muito orgulho de pendurar ali, a estante decorada numa estética de preto, branco e azul para guardar seus futuros materiais de escola perto de sua mesinha de estudos, e ao lado de sua cama havia uma cômoda com seus pertences e um abajur. O quarto não era muito espaçoso, mas o bastante para ter tudo ali e mais um espaço para Nico rolar pelo chão feito criança. Acabou sorrindo, talvez sua nova vida fosse boa, embora evitasse pensar nas palavras duras de sua mãe — ou na morte daquela que foi o pilar de sua sanidade.
Balançou a cabeça, sentindo o estômago afundar. Pegou o aparelho, indo lentamente à saída, e no caminho, viu o quarto de Hazel entreaberto — pôde notá-la conversando no celular, rindo e bagunçando os próprios cachos. Deu um pequeno sorriso, e voltou a caminhar.
Hazel era sua irmã mais nova, veio um pouco mais de um ano após o divorcio de Hades e Maria. Nico era apenas um bebê quando se separaram, então não teve o privilégio de ter o pai presente todos os dias. Hazel só os via quando eles visitavam a casa do pai, o que não era sempre, mas se acostumou facilmente com a presença dela naquela semana.
Cumprimentou o porteiro quando o elevador parou, e com um pouco de dinheiro, celular e fone nos bolsos, caminhou tranquilamente pelas ruas. Não era a primeira vez que saía sem avisar (Hades se preocupava, mas já estava acostumado com as saídas do filho), mas gostava de observar as pessoas e as paisagens em movimento, e principalmente, de pregar travessuras ou de ficar apenas em um sossego por aí. Ninguém decifrava Nico — ele não os culpava, também não entendia o universo que atuava dentro de si. Ainda estava se conhecendo, afinal.
Naquele dia, as ruas não estavam tão movimentadas desde que começou a morar com o pai, e talvez tenha sido por isso que acabou chegando a um novo lugar. Uma grande casa com a decoração desgastada, sem sinal de que tinha alguém indo ali. Entrar em um local desconhecido correndo todos os riscos possíveis era burrice, e foi por isso mesmo que Di Angelo entrou.
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Loser or Lover
FanfictionNico era um perdedor. Um perdedor que ficava fugindo dos problemas que (muitas das vezes) ele mesmo causava - era a ovelha negra da família. Era assim, e deveria continuar assim. Então veio Will Solace, aquele que ousou derrubar as paredes de seu co...
