Capítulo 1 (PILOTO)

12 0 0
                                        

Lembro dos ultimos anos que passei com minha mãe, digo que não, mas sempre fico nostálgica quando sinto cheiro de vinho quente e cigarro, acabo tendo lembranças da pequena casa em que moravamos perto do lago, na divisa entre Paramó e Ariade.

Ela nos deixou numa noite de quinta-feira, eu simplesmente acordei e ela não estava mais lá. De lembranças restaram-me apenas suas roupas, que hoje são peças importantes do meu vestuario, um enorme álbum de fotos com dezenas de polaroids nossas, da nossa familia, e uma carta, escrita na noite anterior ao seu desaparecimento, com uma caligrafia trêmula, letras borradas por lagrimas e desenhos de pequenos coelhos. Ela era uma ótima artista, gostava muito de desenhar animais, seu talento sempre me surpreendia quando iamos a margem do rio e ela rabiscava por dez minutos uma tela inteira, cheia de detalhes vívidos.

Papai diz que eles brigaram na noite anterior ao desaparecimento, disse que ela insistia e dizia que precisava me levar a algum lugar para me proteger mas ele não permitiu, disse que ela não estava em plena consciência, havia bebido muito, e ele achou que ela logo voltaria.

Hoje faz quinze anos desde que ela desapareceu e é como se tivesse evaporado, não há sequer uma pista do seu paradeiro, nem um sinal. Nosso carro foi encontrado na estrada de barro que leva a cidade vizinha, sem sinais de roubo, ou de avaria, nem de luta corporal ou pegadas que levassem a lugar algum, ninguém diz ter visto ela pelas redondezas.

Quinze anos procurando em hospitais, casas de abrigo, em formulários online com o nome dela mas nada nunca nos levou a nada.

Ela era um mistério, lembro que dizia que não tinha familia por aqui, que havia fugido de um situação terrível mas nunca entrava em detalhes, e eu, uma criança não me interessava em perguntar. Interessava-me mesmo em seu lindo rosto, nariz forte, olhos tão claros quanto os cabelos, lembro-me de querer um cabelo igual ao dela, longo, volumoso, cheio de cachos, a pele era bronzeada mas quando o inverno era severo embranquecia, ficava pálida. Interessava-me também em sua cantoria, a sintonia ecoava de qualquer cômodo que estivesse e harmonizava toda a casa, como se estivéssemos protegidos dentro de sua voz.

Ela era tudo que eu queria ser. Hoje sou a cara de papai.

E com 29 anos, também o perdi.

Ele já não fumava mais, nem bebia vinho, já eu, tento mas não consigo escapar do vício, a combinação de aromas me é tão confortante; tão reconfortante. Não gosto de lembrar da dona Louise mas como deixar de lembrar de alguem que simplesmente não sai da minha cabeça?

Papai se foi ontem, em paz, dormindo, e na noite anterior riu comigo até o estomago doer enquanto lembravamos da viagem que haviamos feito pra Calanera a alguns meses atrás, comentavamos sobre sua infeliz tentativa de falar espanhol com nativos, o que resultou em um desentendimento contrangedor.

Seu funeral foi do jeito que ele provavelmente aprovaria, o dia estava claro, as nuvens brancas contrastavam com o amarelo marcante do céu da tarde, todos os seus amigos estavam lá, toda sua família estava lá, em especial seus irmãos, todos os 13, ele era um dos mais velhos, e mesmo assim era um jovem de alma. Escutei histórias heroicas sobre o adolescente aventureiro e engraçado que amava explorar o mundo em todas as suas formas e também sobre o adulto responsável que criou uma filha sozinho por anos. Ele nunca mudou.

Não conti minha curiosidade, perguntei ao irmão mais velho de papai, Sawyer, se sabia de histórias assim contendo minha mãe. Papai não gostava de falar sobre ela comigo, se sentia culpado por tudo que havia acontecido.

— Ele nos contava muito pouco sobre ela, mal falava do relacionamento quando conversávamos por telefone na época que estavam namorando e não melhorou quando se casaram. — Pontuou. — Depois que você nasceu mal sabiamos como as coisas iam por lá, mudaram para o meio do mato, perdemos contato. Provavelmente você sabe mais do que nós. Louise parecia ser muito reservada. — Tragou o cigarro levemente. — Ela era muito reservada.

Naabot mo na ang dulo ng mga na-publish na parte.

⏰ Huling update: Feb 06, 2022 ⏰

Idagdag ang kuwentong ito sa iyong Library para ma-notify tungkol sa mga bagong parte!

Cristal ClearTahanan ng mga kuwento. Tumuklas ngayon