MAYA
Corças ou cervos?
Acordei meio desnorteada e não vi ninguém dentro de casa. Graças a Deus, a tontura já havia passado e eu estava bem melhor. Levantei para tomar uma água e, quando fechei a porta da geladeira, havia uma figura diante de mim. Dei um passo para trás, no susto.
— Bom dia! Como está se sentindo, minha princesa?
O sorriso descomedido de Levi contagiou-me.
— Bom dia. Bem, muito bem, E você?
— A minha vida não importa perto da sua.
Dei uma risada incrédula.
— Que besteira...
Andei até a sala e, pela porta de vidro, vi os três homens pescando. Caleb divertia-se, deixando à vista seu sorriso tão difícil de aparecer. Talvez, por ser tão raro, era ainda mais bonito.
Lembrei-me vagamente da noite anterior e cheguei a cogitar a possibilidade de ter sido apenas um sonho. Não tinha certeza sobre absolutamente nada, pois a sensação era de que eu estive delirando.
Karen apareceu descendo às escadas.
— E aí, querida? Como você...
— Me empresta seu anel, mãe — Levi encurralou-a.
— Guri, vai procurar o que fazer... — desvencilhou-se dele, mas o menino foi rápido e pegou sua aliança.
Então, ajoelhou-se aos meus pés.
— Casa comigo, meu amor.
Dei um sorriso sem graça.
— Esse guri vai ser um perigo quando crescer — Karen tentou levantá-lo.
— Eu já sou um perigo, mãe.
Olhei para sua progenitora e seguramos o riso. Abaixei-me para ficar na mesma altura que ele ajoelhado.
— Levi, muito obrigada pelo seu carinho. Você é um menino muito especial. Posso te dar um abraço?
Seus olhinhos brilharam, quando ele assentiu. Não sei se foi tristeza ou felicidade.
Abracei-o e nos levantamos. Ouvi-o sussurrar, com a voz amassada, antes de me deixar a sós:
— O cara que casar com você vai ser sortudo demais.
Depois disso, os pescadores chegaram. Meu primo acenou para mim e foi na direção de um dos banheiros da parte debaixo da casa. Caio brincou com sua mulher, chamando-a para um abraço com direito à cheiro de peixe e roupa molhada. Fiquei sorrindo, imaginando como era a vida do lado de lá, daqueles que conseguiram um matrimônio feliz. Foi esquisito pensar nisso depois de tanto tempo, quase como um dejavu.
— Bom dia, paz seja contigo.
Estremeci quando percebi Caleb em minha frente. Sentei-me no sofá, após o susto. Ele também ia fazer o mesmo, mas Karen gritou lá da cozinha:
— Nada de cheiro de peixe no meu sofá!
— Ah sim, desculpa! — ele deu um sorriso sem graça.
Apontei para a cadeira de plástico perto dali e Caleb sentou-se.
— Amém, bom dia. — consegui dizer, sem fitá-lo diretamente nos olhos. Busquei observar a mecha de cabelo solta e úmida sobre sua testa.
— Está melhor?
Assenti. Minhas mãos gelaram, então tive que juntá-las sobre meu colo.
Todavia, tomei coragem de fazer uma pergunta.
— Nós conversamos sobre algo importante ontem à noite?
Seu maxilar contraiu-se e os olhos ficaram mais intensos.
— Sim.
— Eu falei alguma coisa inconveniente?
Ele deu um sorriso de lado, meneando a cabeça negativamente.
— Digamos que eu fui o tagarela da noite.
— Ah, foi? — sorri de volta.
Consegui fitá-lo sem receios, daquela vez. Foi confortável, como sempre vinha sendo.
— Não se preocupe sobre isso, você vai ficar sabendo até o final do dia.
Quase engasguei.
— V-vou?
Ele levantou-se e balançou a cabeça positivamente.
— Já tomou café? Temos um passeio para ir, lembra?
Pisquei os olhos por alguns segundos.
— Não lembra — constatou, comprimindo os lábios — Kevin quer conhecer um pouco dos arredores da fazenda. Será quase uma trilha. Vou ser o guia de vocês.
— Ok. Vai ser divertido.
— Vai sim.
***
Seguimos por um caminho de terra batida, ladeado por cercas de arame farpado. A paisagem começou a mudar gradualmente quando demos uma caminhada de cinco minutos. Os campos abertos deram lugar a uma vegetação mais densa e variada. As árvores começaram a se agrupar mais densamente, formando um bosque à distância.
O chão sob nossos pés passou a ser marcado por folhas verdes secas. Também comecei a ouvir sons de pássaros à distância, juntamente do som contínuo e suave do fluxo da água de um rio que Caleb disse haver por ali.
— Olha — Kevin mostrou-me um bicho-pau que pulou em sua perna.
— Ele vivia querendo me assustar quando éramos mais novos — contei a Caleb.
— Nunca deu certo. Ela brincava com sapos, guardava aranhas em potes e protegia escorpiões quando alguém queria matá-los.
Dei uma risada, com a lembrança.
— Uma vez, levei uma abelha para a igreja. Era minha amiga, eu a chamava de Lili.
— Lembro desse dia — Caleb trocou um olhar comigo.
— Ela acabou se soltando e ferroando um irmão. — bati na minha testa, indignada. — O papai me deu a maior bronca.
— Em contrapartida, naquela mesma época ela foi visitar nossos avós, com quem eu morava. Vovó mimou a Maya mais do que tudo. Como uma abelha rainha...
Tapei a boca com a mão, para inibir a risada e a leve vergonha.
— Muito mimada — meu primo deu-me um empurrãozinho e saiu na frente.
Caleb posicionou-se ao meu lado.
— Descobri que toda essa implicância é a forma de ele demonstrar que gosta de alguém.
— Ah, com certeza. É a linguagem de amor dele.
Chegamos na beira do riacho, onde nossas vozes eram abafadas pelo barulho da pequena queda d'água. Sentamos por ali. Aproveitei para tirar os sapatos e molhar os pés na água corrente cheia de peixinhos.
— Esse era o meu lugar preferido na infância — Caleb compartilhou, retirando um caderno de uma bolsa esportiva que carregava nas costas.
Ao contrário de mim, ele sentou-se sobre as pernas dobradas e começou a rabiscar algumas coisas numa folha em branco.
— Por causa dos seus pais? — chutei baixinho. Kevin não participou dessa nossa conversa, pois se divertia na água como uma criança em uma piscina num dia de domingo.
Ele meneou a cabeça negativamente.
— Por causa dos cervos.
Fiz careta de estranhamento. Caleb abriu um leve sorriso após minha confusão.
— Vi um cervo por aqui uma vez. Nunca me esqueci.
Não consegui conter minha boca se transformando em "o".
— Aqui?
Ele assentiu.
— Não creio! — Olhei, exasperada, para os lados, na inocente fé de que eu poderia acabar vendo algum por ali também.
— Até hoje não sei se era um cervo ou uma corça. Sabe a diferença?
— Sim! — respondi tão rápido que ele pareceu ter se assustado. — Os cervos têm uma cor marrom-acinzentada, sendo que os machos possuem chifres ramificados e pernas bem longas. A cor das corças é tipo acastanhada com algumas manchinhas brancas. Elas têm uma cabecinha pequena e são muito delicadas e atentas. Ah, e os machos não tem galhinhos nos chifres, sabe?
Reparei que durante a minha explicação, ele continuou rabiscando alguma coisa, parando só algumas vezes para me olhar.
— Então acho que vi um cervo mesmo. — concluiu.
Então, respirou fundo, antes de me fitar sem expressão alguma. Engoli em seco, sem entender. E aí percebi que ele estava me desenhando. Enrubesci na mesma hora.
— Não tenho esse tom rosado aqui comigo para pintar suas bochechas — balbuciou, mas eu entendi bem.
Escondi o rosto com as mãos e senti o coração aquecer, conforme ele continuava fazendo a mesma coisa: me olhando intensamente, baixando a cabeça e rabiscando um pouco mais o papel em seu colo.
Minha boca ficou seca quando escutei-o chamar minha atenção:
— Maya, eu...
— Hum?
— Preciso te entregar isso.
Meus olhos, que estiveram desviados por uma certa porção desse tempo, atenderam ao seu chamado ansiosamente. Caleb me estendeu o papel dobrado que parecia ter mais do que apenas um desenho ali, devido a sombra de algumas letras. Ele tinha escrito algo. Com as mãos trêmulas, segurei a folha e quis abri-la, mas Kevin apareceu como um fantasma diante de nós, emergindo da água na beira do riacho. Acabei guardando-a rapidamente na mochila em minhas costas.
— Hora de irmos. Bateu a fome.
Levantei depressa, concordando por mais de um motivo. Eu queria ler o papel o quanto antes. Caleb parecia uma sombra minha, pois fez o mesmo. Nos olhamos discretamente e eu decidi falar por nós:
— O passeio foi ótimo, mas o almoço maravilhoso da Karen nos aguarda. Não podemos deixá-los esperando.
Depois que meu primo se enxugou, guardamos nossas coisas e fomos em direção à fazenda. Cumprimentei à linda família e subi às escadas em direção ao quarto, onde eu me preparei para fazer uma oração antes de ler o papel que Caleb me entregou.
Quando procurei, só vi o bolso entreaberto que, antes, eu havia fechado apressadamente. Pus a mão lá e não encontrei nada. Meu coração gelou.