Saudações!
Primeiramente, OBRIGADA!! 9K! E 700 CURTIDAS!! Gente vocês são demais! Eu amo vocês!! Nunca me cansarei de falar (ou escrever né) S2
Segundo, temos duas músicas:
Faded - Alan Walker;
Saturn - Sleeping At Last (szszsz).
BOA LEITURA! Nos encontramos no final!
***
27 de fevereiro de 2016. Miami - Flórida (EUA)
Milagre.
Ato ou ocorrido inexplicável diante das leis da natureza. Esse é o significado mais óbvio da nossa palavra em questão, mas levando mais afundo essa tal palavra pequena que só apenas quem viveu à um pode falar tamanha diferença que fizera em sua vida.
Milagres segundo a ciência é algo inexistente. Para a ciência tudo ocorre dentro das leis explicadas e estudadas da natureza. Mas no fundo, todos sabemos que não é bem assim. Afinal, que lei da natureza pode explicar um olhar entre duas pessoas se tornar um amor tão grande que o outro seria capaz de dar sua vida para que a outra possa ter uma nova chance. Acreditamos que não exista nenhum elemento da tabela periódica que possa ser tão forte quanto o amor ou seus milagrosos atos. Por isso, muitas vezes religiosos são motivos de "zombação" pela sua crença em milagres.
Mas quem somos nós para julgar? Quem acreditaria que uma pessoa morreu por horas, ou dias, e de repente voltou à vida sem problemas? Ou com no mínimo, problemas reparáveis? É difícil de acreditar, mas não é impossível de acontecer. Milagres ao contrário do que todos acreditam são mais comuns do que imaginamos, pois essa pessoa aí ao seu lado pode ser um grande milagre. Ela pode ter sofrido três acidentes e ainda se locomover normal, ou até mesmo ter levado um tiro, mas tudo que precisou fazer foi permanecer algum tempo de repouso e logo passa bem.
Entretanto, para que um milagre ocorra é preciso ter fé. É necessário que você confie em si mesmo ou na pessoa que precisa do milagre. É necessário acreditar que nada está acabado ali, e que ainda há outra chance para usar. Afinal como diz Johann Goethe, "O milagre é o filho preferido da fé". E esse é um fato inegável. Na bíblia, enquanto são narrados os milagres de Jesus Cristo, ele sempre pedia algo antes de realizar os milagres, que as pessoas tivessem fé.
Querendo ou não, quando estamos desesperados ou sentindo que corremos perigo, sempre acreditamos no milagre. Acreditamos que a coisa mais impossível possa acontecer. Não importa se você acredita em milagres ou acha que é uma bobagem criada para iludir as crianças assim como os contos de fada, no fim você mesmo não acreditando sempre implorará para que um aconteça na sua vida. Para que do nada algo lhe salve daquela doença ou que simplesmente possa sair daquela encrenca.
Lauren não era a pessoa mais religiosa do mundo. Ela acreditava em Deus e em Jesus, fôra criada em uma escola e família católica, querendo ou não aquilo a havia formado. Ela acreditava no poder da fé e que milagres existiam, mas não tinha vivenciado um até então. Seu coração não tinha parado e voltado a bater de repente. Talvez seu único milagre fosse quando se apaixonou e amou perdidamente. Mas ela não havia tido uma experiência além dessa, acreditando ou não, você nunca sabe quando um milagre ocorre. Ele apenas ocorre chegando no momento que você mais precisa, por isso se chama milagre. E ele estava vindo para uma visita surpresa na vida da morena.
Ás vezes, com nossa pobre visão, apenas conseguimos ver o exterior. Onde tudo está errado e as coisas só parecem piorar. Não encontramos saídas ou nenhuma solução. E somos tão tolos como humanos, enquanto nos preocupamos em visualizar o exterior e encontrar saída, mal vemos o milagre se aproximando. E quando ele começa a trabalhar, devo dizer que ele realmente trabalha. Milagres não movem apenas sua vida, na maioria das vezes, aos sermos atingidos por um milagre, outro sempre ocorre. Por mais simples que seja.
Talvez Lauren não notasse no momento quando o milagre chegasse causando simples mudanças, talvez seu foco ficasse apenas naquele ato principal e o ator secundário fosse esquecido, mas aquela simples atuação faria uma gigantesca mudança em si que ela só se daria conta quando os prêmios fossem anunciados.
O relógio marcava 7:30 AM e Lauren já caminhava pelos corredores da instituição. Focada, a médica preenchia uma das três fichas de pacientes, ora dando alta ou marcando alguma cirurgia. O turno havia começado a pouco e, portanto, não teve muitas dificuldades, pois apenas precisava visitar os enfermos. Agora, ela se dirigia para o quarto 137, onde Camila se encontrava.
- Com licença. - pediu a mulher após girar a maçaneta e adentrar o cômodo branco.
- Bom dia, doutora. - cumprimentou Andrew com um sorriso fraco e o rosto amassado graças à noite mal dormida.
- Você passou a noite aqui? - questionou deixando as fichas sobre a mesa enquanto retirava o estetoscópio do pescoço.
- Sim, Alejandro e Sinuhe foram ontem para casa ficar com Sofia. - explicou o loiro para em seguida espreguiçar-se.
- Ah, sim. Bem, vou examiná-la agora. - anunciou e se aproximando da cama, colocou as olivas no ouvido. Feito isso, utilizou a receptora, na qual era composta pela campânula e diafragma, para enfim levá-la ao torso da latina, podendo assim escutar os sons corporais.
- Ela... ela está bem? - disse Andrew confuso e ainda estando sentado na poltrona, observou a neurocirurgiã verificando os batimentos cardíacos de sua noiva.
- Os batimentos continuam fracos. - concluiu Lauren fitando Camila. Discretamente, a morena dedilhou seus dedos pelo rosto sereno da professora e respirando fundo, afastou-se.
- O que isso significa? - levantando, o advogado se aproximou e com cuidado, segurou a mão de Camila enquanto esperava por uma resposta da profissional. - Doutora?
- Significa que ela ainda precisa do suporte das máquinas para continuar viva. - respondeu aérea e indo até a mesa, guardou o estetoscópio no bolso do jaleco e só assim, pegou as pranchetas de fichas.
- Meu Deus...
- Eu volto mais tarde para verificá-la novamente.
Mas antes que pudesse deixar o quarto, Andrew se aproximou com o cenho franzido e um semblante preocupado.
- Doutora, podemos conversar por alguns instantes? - pediu o rapaz.
- S-sim. Claro, pode falar... - aquiesceu e fechando a porta, encarou o advogado.
- Eu gostaria de agradecer por sua dedicação com minha noiva. Sabe, ela só está viva por causa de você e... - engoliu em seco, desviando o olhar para Karla. - Enfim, serei eternamente grato pelo o que fez. Muito obrigado. - agradecido, estendeu a mão para Lauren, querendo cumprimentá-la.
- É apenas o meu trabalho, senhor Morgan. - dito isso, a jovem finalizou com um leve aperto e abrindo a porta, voltou sua atenção para Camila, ainda imóvel na cama. - Até mais.
- Até.
[...]
- Bom dia, gostaria de um expresso, por favor. - pediu Dinah Jane, com uma expressão cansada, mas ainda mantendo o lindo sorriso nos lábios.
Por ser uma manhã de sábado, a polinésia havia resolvido permanecer a madrugada inteira de sexta-feira e mesmo não podendo visitar Camila já que não era horário para visitas, a mesma ainda continuava ali. Dores nas costas, cabeça e pés estavam-na deixando maluca, porém ela jamais deixaria de apoiar sua amiga. Apesar dos anos, Dinah não esquecera dos momentos com a latina e sabia, que se fosse o contrário, Camila estaria lá por ela.
- Aqui está, senhora. Tenha um bom dia - disse a gentil mulher caucasiana. A profissional portava-se com um uniforme e seus cabelos estavam presos em um coque além da touca negra característica para o serviço.
- Obrigada, senhora McBride. Ah, coloque em minha conta, por favor. - interrompeu uma Normani sorridente e ao lado de Dinah, esta totalmente surpresa em reencontrar a amiga.
- Mani!! - bradou a mais nova para em seguida agarrar o corpo esguio da dançarina. - Céus, que saudade!
- É, eu também fiquei, DJ. - comentou a negra retribuindo de forma calorosa o afeto da outra. - Faz um bom tempo...
- Sim... Bem, vamos sentar. Há muito papo para ser colocado em dia - propôs a arquiteta e buscando pelo expresso, seguiu até uma mesa um tanto mais afastada no recinto. Normani, que vinha logo atrás, tratou de sentar-se à frente e com as mãos tamborilando na madeira, observou a outra.
- Como você está? - perguntou a negra curiosa
- Estou bem, quer dizer, relativamente bem. Não esperava por tudo isso... - confidenciou a loira um tanto acanhada. Estava nervosa e visivelmente exausta.
- Acho que ninguém esperava por isso, Dinah. Aliás, não sabia que estava em Miami ainda. - disse Normani mais séria que o normal.
- Mani...
- Faz mais de um ano e meio que não nos falamos. Um ano e meio, Dinah! O que diabos aconteceu? - perguntou a dançarina com os olhos opacos. Havia mágoa nas orbes castanhas. Havia tristeza, raiva, porém o que realmente evidenciava era a saudade. - Estava tão ocupada assim e por isso se esqueceu dos amigos?
- Normani, não diga asneiras. Acha mesmo que eu te trocaria? É isso que pensa de mim? - questionou a polinésia irritada. Ela havia sentido o peso das palavras de sua amiga. - Porque se é o que pensa, você nunca me conheceu.
- Eu... Dinah...
- Me deixe falar. - interrompeu a arquiteta. - Nossa última conversa foi um saco, lembra-se? Nós brigamos e acabamos nos afastando. Você mora há quilômetros de mim, Normani e sinceramente, não parecia incomodada com o estado de nossa amizade.
- Isso não é verdade! - defendeu-se chocada com a resposta da amiga. - Não coloque a culpa na distância, Jane.
- Então devo colocar a culpa em você? Por ter nos deixado, por ter me deixado...
- Eu precisava! Você viu, viu que eu precisava ir e ficar perto de-...
- Use esse argumento para justificar seus erros, não tem problema. - disse Dinah, com os olhos avermelhados enquanto levantava da cadeira. - Mas sabe de uma coisa, Mani? Se fosse eu, não teria te abandonado. Não teria te deixado sozinha com a sua outra amiga em início de depressão.
- Dinah... - começou a negra já sentindo algumas poucas lágrimas descendo. - Não faça isso...
Play - Faded (Alan Walker)
You were the shadow to my light
Você era a sombra da minha luz
Did you feel us
Você nos sentia?
Another start
Outro começo
You fade away
Você foi para longe
Afraid our aim is out of sight
Com medo de nosso objetivo estar fora de vista
Wanna see us
Eu quero nos ver
Alive?
Vivos?
- Me deixe em paz, Normani! Me deixe em paz! - bradou a loira. Sua voz havia saído um pouco mais alta e, portanto, algumas pessoas observavam a interação estranha entre elas. De um lado, a dançarina em choque pelo pedido e do outro, a arquiteta cheia de cicatrizes mal curadas. - Apenas me deixe...
E sem esperar por um argumento sequer, Dinah caminhou para fora da lanchonete, visivelmente exaltada e com as lágrimas cobrindo todo seu rosto. No entanto, Normani não deu ouvidos e assim, seguiu a então amiga. Em silêncio, caminhou por alguns minutos atrás da loira e quando finalmente viu a mesma adentrando o banheiro feminino, enxergou sua melhor chance.
Não cometeria o mesmo erro novamente...
Where are you now?
Onde você está agora?
Where are you now?
Onde você está agora?
Where are you now?
Onde você está agora?
Was it all in my fantasy?
Era tudo fantasia?
Where are you now?
Onde você está agora?
Were you only imaginary?
Você era apenas imaginário?
Where are you now?
Onde você está agora?
- Dinah.
- Céus, qual a dificuldade de entender que não te quero por perto, Normani? Vai ver a Camila, Lauren, qualquer um, apenas me deixe em paz! - vociferou completamente fora de órbita. Seus olhos injetados evidenciavam uma verdadeira guerra que a polinésia travava dentro de si.
- Eu não vou te deixar, Dinah Jane Hansen! Você pode xingar, esgoelar ou me bater, mas não vou sair daqui. Você não é assim, D. Por favor, me deixe ajudar! - implorou Normani. A mesma fechou rapidamente a porta e em seguida, marchou para perto da loira, esta ainda chorava e sua expressão era assassina.
Se um olhar matasse, Normani estaria alvejada de tiros.
Atlantis
Em Atlântida
Under the sea
Sob o mar
Under the sea
Sob o mar
Where are you now?
Onde você está agora?
Another dream
Em outro sonho
The monsters running wild inside of me
Os monstros correndo selvagens dentro de mim
- Não se aproxime... - pediu, agora mais baixo, porém não se mexeu um centímetro. - Vai... Embora.
- Não. - decidida, a dançarina se aproximou mais e estando em frente à outra, buscou pela mão da amiga. - Acho que você se esqueceu com quem está lidando, DJ. Esqueceu que te conheço melhor do que ninguém. - suspirou fitando os olhos da maior. - Ela vai ficar bem...
- Você não sabe disso! Normani, ela está em coma e a cada dia, suas chances diminuem. Lauren está desesperada, não sabe o que fazer e está chorando desde quarta-feira! Eu não sei como ajudar minhas amigas! - desesperou-se Dinah, desvencilhando suas mãos para em seguida, levá-las ao rosto. - Eu não sei o que fazer.
I'm faded
Estou desaparecendo
I'm faded
Estou desaparecendo
So lost
Tão perdida
I'm faded
Estou desaparecendo
I'm faded
Estou desaparecendo
So lost
Tão perdida
I'm faded
Estou desaparecendo
These shallow waters, never met
Estas águas rasas nunca se encontraram
What I needed I'm letting go
Eu estou deixando ir aquilo que eu precisava
A deeper dive
Um mergulho mais profundo
Eternal silence of the sea
O silêncio eterno do mar
I'm breathing
Estou respirando
Alive
Viva
- Ei, ei, calma. Vai ficar tudo bem. - argumentou a negra com um sorriso mínimo e logo envolveu a mais nova em um abraço. Seus dedos embaralharam-se nos fios loiros enquanto seu rosto repousava na curvatura do pescoço de Dinah. - A Mila é forte, D. Ela vai ficar bem, todos vão.
- Eu só queria poder fazer algo... Só queria poder confortar a minha família, mas nem para isso sirvo. - comentou com a voz rouca enquanto sentia todo seu corpo tremer.
- Até as maiores muralhas precisam de cuidados, Dinah. Olhe para mim, por favor. - pediu Normani afastando seu rosto do corpo da mulher e enxergando os castanhos opacos da polinésia, sentiu seu peito doer.
Where are you now?
Onde você está agora?
Where are you now?
Onde você está agora?
Era horrível vê-la desse modo. Era horrível vê-la sofrer e também ser incapaz de fazer algo.
- Mani... - choramingou a outra, ainda sentida e não impedindo as lágrimas cessarem.
- Não fale nada. Eu estou aqui, ok? Estou do seu lado e você não vai ruir sem que eu esteja lá para te reerguer, Dinah Jane. Nossa família é forte, nunca se esqueça disso. - declarou sentindo as teimosas lágrimas, porém não deixou que seu lindo sorriso sumisse. Portanto, apenas elevou as mãos e ajeitando algumas mechas loiras da amiga para trás da orelha, acariciou o rosto úmido com extremo zelo e cuidado. - Você não está sozinha. Nunca esteve e por isso não precisa levar todo o peso do mundo nas costas, DJ. Eu te amo e jamais te deixaria sozinha em meio à tempestade. Sim, eu falhei com você. Parti em um momento difícil, mas jamais pense que lhe abandonei, Dinah. Eu não sou capaz disso e mesmo se fosse, não o faria.
Under the bright, but faded lights
Sob as luzes brilhantes, mas desbotadas
You set my heart on fire
Você incendiou meu coração
Where are you now?
Onde você está agora?
Where are you now?
Onde você está agora?
Dedilhando os dedos pela face da arquiteta, Normani limpou as lágrimas. Uma por uma, a negra as limpava com calmaria e gentileza.
- Eu estou aqui para limpar cada lágrima que cair, Dinah. Estou aqui para lhe segurar, lhe dar apoio e um porto seguro. Serei sua força quando precisar, alegria nos momentos ruins e dividirei o peso da que carrega consigo. Estou bem ao seu lado e não irei deixá-la. - confortou-a observando atentamente o rosto avermelhado da mulher em sua frente.
- Promete? Promete que não irá embora novamente? - perguntou baixo e caso Normani não estivesse perto, certamente não ouviria.
Where are you now?
Onde você está agora?
Atlantis
Em Atlântida
Under the sea
Sob o mar
Under the sea
Sob o mar
Where are you now?
Onde você está agora?
Another dream
Em outro sonho
The monsters running wild inside of me
Os monstros correndo selvagens dentro de mim
I'm faded
Estou desaparecendo
I'm faded
Estou desaparecendo
So lost
Tão perdida
I'm faded
Estou desaparecendo
I'm faded
Estou desaparecendo
So lost
Tão perdida
I'm faded
Estou desaparecendo
- Eu prometo, Dinah. Você não está sozinha e eu irei lhe provar.
(Fim da Música)
[...]
Enquanto isso, Justin caminhava com as mãos para dentro do jaleco pelos corredores do primeiro andar, rumo ao balcão no qual era próximo da sala de espera. O mesmo precisava buscar algumas fichas dado que sua pequena paciente estava agora em exames com Allyson e, portanto, ele não era necessário no momento.
- Bom dia, Nichols. O que temos para hoje? - questionou o rapaz com um sorriso gentil enquanto observava o balcão da enfermeira, lotada de fichas.
- James Stevens, quarto 145 e Hannah Young, quarto 129. Aqui estão... - entregou-lhe duas pranchetas com as fichas dos pacientes.
- Obrigado. Sabe me dizer se a confraternização no bar ainda está de pé?
- Oh, claro! Vai ser legal, quase todos que foram convidados irão. - noticiou a enfermeira com um sorriso alegre.
- Ótimo! Me avise caso ocorra algo, ok?
- Pode deixar, doutor.
Despedindo-se com um singelo sorriso, Justin deixou o balcão e seguiria pelo corredor se não fosse pela pessoa, ou melhor, mulher que acabara de chamar sua atenção. A mesma estava de frente para uma máquina de salgadinhos, doces e coca diet. Seu traje era apenas um jeans, saltos pretos e uma blusa branca, esta bem soltinha e de malha confortável.
- Mas que merda, vamos! Pare de me roubar, máquina idiota! - grunhiu a morena irritada.
- Ei, ei, calma. O que a coitada da máquina fez para você? - perguntou o dermatologista confuso.
- Er, huh, ela está com minha nota e não me entrega o chocolate... - deu com os ombros a jovem enquanto suspirava cansada.
- Entendi... - respondeu simples e se aproximando da mulher, deu dois socos na parte metálica da caixa fazendo com que imediatamente o doce caísse. - Prontinho.
Surpresa, a jovem apenas sorriu e pegando seu chocolate, encarou o médico. Apesar do momento tenso que vivia, não deixaria a educação de lado.
- Obrigada. - com a mão disponível, estendeu-a para o loiro ainda mantendo o sorriso nos lábios.
- Não por isso. - educado, o médico apertou-lhe a mão com cuidado. - Me chamo Justin. É um prazer conhecê-la...
- Selena e o prazer é todo meu, Justin. - finalizando o cumprimento, a empresária olhou para a sala de espera e percebendo uma quantidade maior de pessoas, resmungou. - Não aguento mais esperar...
- Esperar o quê? - não entendendo absolutamente nada, Justin seguiu o olhar e observando as pessoas sentadas e esperando, pigarreou chamando a atenção da morena.
- Desculpe, pensei alto. É que estou cansada, passei mais da metade da noite nesse lugar esperando para visitar minha amiga e nada. - comentou Selena e como um verdadeiro tic, ajeitou seus cabelos castanho-escuros.
- Hum, sua amiga está em algum quarto ou permanece em cirurgia?
- Ela está em coma induzido, pelo o que sei... Eu só queria vê-la, sabe? - confidenciou a jovem com um semblante tristonho já que realmente estava preocupada com toda o ocorrido.
Comovido pela situação, Justin suspirou. Em seguida, olhou para os lados e colocou novamente as mãos nos bolsos do jaleco.
- Como ela chama?
- Karla Camila Cabello... Por quê? - questionou erguendo uma das sobrancelhas para o médico dermatologista.
- Porque vou te levar até ela. Sabe o número do quarto e o responsável por ela?
- O número é 137 e parece que a doutora responsável pelo caso da Mila é uma Lauren Jauregui. Neurocirurgiã daqui... - respondeu Selena torcendo para que todas suas informações estivessem corretas.
- Lauren Jauregui, é? Ok, vamos. Te levo até ela. - virou-se e caminhando, seguiu para o corredor. A empresária vinha logo atrás um tanto perdida e mais uma vez surpresa pela atitude do médico.
- Por que está me ajudando? - disse após adentrar o elevador e parar ao lado de Justin enquanto as portas metálicas fechavam.
- Porque é o certo e se estivesse no seu lugar, também gostaria que fizessem a mesma coisa por mim.
- De qualquer modo, obrigada. De novo. - agradecida, Selena observou o profissional por alguns poucos instantes. O rapaz possuía um corte quase militar, tendo poucos fios de cabelos, porém não diminuía em sua beleza. Forte, esguio, olhos castanho-claros e um sorriso encantador. De fato, ele era muito bonito.
- Não precisa agradecer por isso, senhorita Gomez.
- Apenas Selena, por favor. - pediu a empresária assim que as portas voltaram à se abrir.
- Ok, apenas Selena. Venha, estamos chegando... - brincalhão, os dois seguiram um pequeno trajeto, virando corredores e por fim, chegaram à porta de número 137.
- Eu posso entrar? - disse já com o olhar fixo no vidro que por sorte mantinha as persianas abertas e dessa forma, davam-lhes a liberdade de enxergar a latina inconsciente na cama.
- Claro, está entregue. Apenas avisarei a doutora para que ela tenha conhecimento de sua presença. - argumentou e observando a mulher, sorriu de forma educada. - Tenha um bom dia, Selena.
- Desejo o mesmo a você, Justin. - despediu-se e girando a maçaneta, entrou no quarto onde Camila estava. No entanto, antes que se aproximasse da mesma, seus olhos vagaram para o vidro e assim encontraram os castanho-claros de Justin, este ainda continuava no corredor observando-a.
- Obrigada. - agradeceu pausadamente para que o rapaz entendesse e só quando avistou o sorriso do loiro, a jovem morena retribuiu e então, virou-se para dar atenção à sua amiga.
[...]
No segundo andar da instituição, Lauren caminhava rumo ao elevador. Em alguns poucos minutos a médica entraria em cirurgia para remover dois coágulos causados por um traumatismo craniano. Sua paciente, uma mulher chamada Lillian Turner, que beirava aos 23 anos de idade e acabara de sofrer um acidente. A jovem loira estava agora sendo encaminhada para a cirurgia enquanto a neurocirurgiã ia ao seu encontro.
- Segura o elevador! - pediu a médica e felizmente foi atendida. Logo, entrou rapidamente na caixa metálica.
- Quem é vivo sempre aparece... - comentou a mulher de cabelos castanhos e sorriso encantador.
- Não comece com isso, por favor. - encostando-se à "parede", Lauren observou a ortopedista se aproximando e parando em frente à mesma.
- Por que está me evitando, Lauren Jauregui? - questionou desconfiada, porém nunca perdendo o jeito irônico em suas falas.
- Não estou te evitando... - defendeu-se e percebendo a aproximação da outra, suspirou. - Estamos indo para a cirurgia.
- E? Acha que irei te atacar no meio da SO? - deu mais um passo, agora podia sentir a respiração da Jauregui batendo contra seu rosto. - Por que não retornou minhas mensagens, Lauren?
- Eu estava ocupada.
- Só isso que tem para me dizer?
- É melhor se afastar...
- É o que realmente quer? - perguntou e antes que pudesse fazer o que tanto queria, ouviu o som das portas metálicas se abrindo. - Eu ainda quero respostas, Laur.
- E eu vou respondê-las, mas não agora. Por favor... - disse Lauren respirando fundo.
- Ok, ok. Só me diga que não fez voto de castidade ou está em greve de sexo. - argumentou já deixando o elevador e sendo acompanhada pela neurocirurgiã e amiga, sentiu o tapa da mais nova. - Ai, Lauren! Eu estou brincando!
- Idiota! Quem faz voto de castidade com 27 anos?
- Sei lá, mas de você não duvido nada, isopor. - dando com os ombros, sentiu mais um tapa, este fraco e, portanto, gargalhou diante uma Lauren contrariada. - Eu estou brincando, chata.
- Pare de ser idiota, eu hein. Parece que tem dois anos... - bufou a de olhos verdes enquanto abria a porta e após deixar que a outra adentrasse a sala de operações, seguiu para a sala adjacente assim que cumprimentou alguns da equipe que fariam a cirurgia.
- Deus, o que houve com seu bom humor? - confusa, a de orbes castanhas apenas pegou o gorro cirúrgico descartável e colocando na cabeça ao fazer um coque frouxo, esperou Lauren terminar de fazer um nó firme. Em seguida, fez o mesmo com a amiga e só assim, ambas iniciaram o processo de higienizar as mãos.
- Estou em um mal dia apenas. - garantiu enxaguando as mãos limpas com o sabão antibacteriano.
- Quer sair para beber?
- Não, estou sem clima.
- Tudo bem, então eu levo os lenços e você chora a noite toda. Me diz, preciso levar comida também? - questionou e utilizando o cotovelo, fechou o registro da torneira para enfim, seguir rumo à porta tendo como sempre a Jauregui em seu encalço.
- Eu peço uma pizza. - deu com os ombros e mantendo o braço flexionado, caminhou para perto da paciente e consequentemente, dos demais profissionais. - Vamos começar logo com isso, certo?
Todos assentiram e logo, estavam auxiliando as cirurgiãs, colocando o traje cirúrgico, as luvas e máscaras.
- Como diz aquela maravilhosa série: hoje é um belo dia para salvar vidas, pessoal. - comentou Keana Marie, a chefe da ortopedia do hospital Mercy.
- Idiota. - riu Lauren estando em seu lugar para dar início à cirurgia. Já Keana estava na região da perna, a mesma teria que lidar com uma fratura exposta no fêmur direito de Lillian.
- Shh, rabugenta. E Sophia, me passe a broca cirúrgica. Eu preciso concertar um fêmur...
[...]
As horas naquela sala de operações passaram voando assim como o procedimento ia se estendendo. Keana havia tido muitos problemas com sangramento e Lauren em localizar os coágulos. A paciente loira parecia ser forte já que passara por três paradas cardíacas, porém continuava viva.
- Merda, ela não para de sangrar! - resmungou a cirurgiã totalmente focada em seu trabalho. O osso já estava reajustado possuindo alguns pinos para a sustentação, mas o nível alto de sangue do local estava atrapalhando a visibilidade de Issartel. - Lauren, ela está sangrando muito. Qual a situação ai?
- Grave. Eu retirei os dois coágulos, porém uma pequena parte do osso frontal foi comprometida. Ela vai precisar de no mínimo, um enxerto de pele caso eu consiga aliviar a pressão naquela região.
- Merda... Preciso de mais toalhas! - a francesa havia trocado de luvas duas vezes graças à quantidade de sangue e seu traje estava com uma boa parte ensanguentado.
- Doutoras, ela está fibrilando.
No mesmo instante, os olhos das cirurgiãs pairaram no monitor, este avisando que os batimentos estavam diminuindo cada vez mais rápido.
- Preciso do carrinho de parada. Agora! - disse Lauren afoita e colocando a pinça na bandeja, caminhou até a região do peito da mulher e logo teve as pás em mãos. Lubrificando-as com o gel que a enfermeira havia colocado, a morena levou-as até o torso, agora nu da paciente.
- Afastem! - dito isso, todos os que estavam tocando a mulher se afastaram - inclusive Keana - esperando o novo comando. - Carreguem em 200.
Tendo seu pedido atendido, Lauren observou o corpo da jovem tremer e voltando sua atenção para o monitor, esperou por alguns instantes.
- Sem resposta...Chegou a zero. - concluiu o anestesista.
- Porra! - grunhiu Keana retirando a máscara do rosto. - Hora do óbito...
- 15 horas e 27 minutos. - completou Lauren olhando para a mulher e em seguida, colocou as pás de volta ao aparelho. Feito isso, retirou a máscara e caminhando, retornou a sala de preparação para se lavar e retirar o restante do traje.
- Lauren... - tentou Keana entrando na sala e logo jogou fora a máscara, luvas e gorro no lixo de dejetos cirúrgicos.
- O que foi? - questionou mais rude que gostaria.
- Nós tentamos, porém infelizmente não conseguimos salvar todos. - argumentou à amiga se aproximando aos poucos da morena.
- Eu estou bem, não se preocupe. - agilizou o assunto e jogando fora os mesmos materiais que a ortopedista, começou a lavar as mãos e higienizá-las mais uma vez.
- O que está acontecendo?
- Nada.
- Lauren...
- Camila sofreu um acidente e está em coma. - respondeu rapidamente enquanto tirava o traje cirúrgico do corpo. - Os danos cerebrais dessa mulher são fichinha perto dos de Camila... Keana, eu nem pude salvar ela imagina a-...
- Não complete essa frase. - sentenciou e se aproximando, fez com que Lauren a fitasse com atenção. - Não duvide de si mesma, Laur.
- Eu... Eu não sei mais o que fazer.
- Ei, não carregue o mundo nas costas, ok? Eu conheço bem pouco dessa Camila, mas sei que ela não iria querer que você surtasse ou estagnasse no tempo.
- Estou com medo, Keana. - confidenciou a mais nova e suspirou. - Estou com medo de não ser capaz de salvá-la.
- Você é. - disse com uma certeza tão grande que a de orbes verdes franziu o cenho.
- Como sabe disso?
- Porque ela poderia estar nesse exato momento em um outro hospital, sendo amparada por outros médicos e não estar aqui, sendo cuidada por você.
- Mas...
- Mas nada, Jauregui. Aceite, você é o suficiente. - finalizando seu "conselho", Keana depositou um beijo estalado na bochecha da morena e piscando para a mesma, caminhou para fora da sala. - Te espero no estacionamento.
[...]
A Neurocirurgiã caminhava com traquilidade pelo corredor tão conhecido. Seu turno estava há algumas boas para acabar, porém Lauren sequer ligava. Ultimamente ficar em casa estava sendo um verdadeiro desafio e mesmo que seus amigos estivessem sempre por perto, sua mente continuava navegando em rios de lembranças.
- Boa tarde, doutora Jauregui.
- Por favor, Eliza. Nos conhecemos há uns três anos? Não é necessário toda essa formalidade. - constatou a morena de olhos verdes enquanto abria um singelo sorriso para a amiga enfermeira.
- Tudo bem. Então, Lauren... - recomeçou e cruzando os braços, sorriu. - Como está?
- Estou indo, obrigada por perguntar.
- Olhe, eu não quero ser mal educada, mas creio que devo avisá-la... - suspirou a loira, remexendo em seus fios. - Os demais profissionais estão percebendo que não está em um bom momento, Lauren. Joseph resmunga para todos os lados e logo a diretoria acabará sabendo. Se deseja manter seu emprego, peço que tome cuidado. É óbvio que a maioria das pessoas desse mundo não são sensatas. Então, só cuidado, ok?
- Ok... Huh, obrigada. De novo. - agradeceu a Jauregui um tanto perdida pela nova informação. Os últimos dias não haviam sido fáceis e mesmo ela sabendo que algumas de suas atitudes teriam consequências, Lauren sequer parou para pensar a respeito. - Eu-eu preciso ir visitar um paciente, Eliza. Nos vemos depois, certo?
- Sim, claro. Sem problemas, vai lá. - despediu-se com um sorriso gentil para enfim, deixar a neurocirurgiã sozinha no corredor.
Pensativa, a médica suspirou e mentalmente contou até dez. Ela precisava urgentemente relaxar.
Ciente que necessitava de alguns minutos, retornou a caminhar e ao chegar em seu destino, girou a maçaneta do quarto 727, entrando no recinto.
- Michelle! O que faz aqui? - perguntou Rose com um sorriso, porém mantinha o cenho franzido. A senhora estava coberta pela manta até a cintura enquanto em sua cabeça, havia um lenço com diversas cores e desenhos abstratos. - Você está bem, criança?
Ignorando-a completamente, Lauren caminhou pelo quarto em círculos, totalmente absorta em suas próprias divagações. Lapsos de memória passavam por sua mente como um turbilhão de sensações, porém sempre remetiam à imagem de uma Camila deitada na maca enquanto seu aparelho marcava que os batimentos cardíacos estavam nulos; olhos fechados, o sorriso que tanto amava desaparecido; o corpo tão elétrico agora jazia inerte e sereno.
Assim como seus próprios sonhos, a vida de sua amada havia sido interrompida.
- Lauren, fale comigo! Jauregui! - chamou-lhe a atenção totalmente confusa e preocupada com a jovem. - Meu Deus, você vai passar mal! Michelle!
Aos poucos, a doutora foi parando de andar pela sala. No entanto, sentia-se esgotada enquanto seu tórax queimava. Logo, o incômodo tornou-se maior, a respiração acelerada e o choro sofrido fazia com que seus ombros se movimentassem.
- E-eu nã-não consigo respir-respirar!
- Merda, merda, merda! - praguejou a senhora e em seguida, retirou a intravenosa. Com cuidado, deixou a cama e caminhando até a morena, levou as mãos para o rosto de Lauren, estava respirava cada vez pior. - Michelle, respire! Você está tendo uma crise de pânico, respire! Eu preciso que respire!
Imediatamente, a morena abraçou a senhora como se sua vida dependesse daquilo. Aos poucos, foi se acalmando graças às carícias e palavras de conforto que Rose dizia.
- Vai ficar tudo bem, querida.
[...]
Cerca de vinte minutos depois, Lauren já estava melhor. A mesma se encontrava deitada ao lado da senhora McCallister, esta lhe contava histórias de sua vida na Inglaterra e como seus filhos eram bagunceiros.
- É sério, criança! O meu pequeno Dylan era uma verdadeira peste. Sempre pulando nas coisas, gritando e correndo pela casa.
- Eu não estou duvidando, Rose. - comentou a Jauregui ainda com o rosto um pouco inchado graças ao choro. - Eu... Eu gostaria de agradecê-la.
- Pelo o quê? - perguntou a mais velha, sem entender.
- Por ter me ajudado... Com a crise de pânico. - explicou Lauren acuada.
- Era o mínimo que poderia fazer, Michelle. E não precisamos conversar sobre isso, caso não queira. - respondeu com um breve sorriso.
- Obrigada... Eu não estou em um bom dia.
- Todos têm seus momentos ruins, Lauren. Não se preocupe com isso.
- Eu sei, mas...
- Criança, escute o que essa velha rabugenta irá te falar. - pediu e fitando o rosto da morena, sorriu novamente. - A vida é apenas o início de um percurso longo e duradouro. Nela, você irá sorrir e chorar. Encontrará pessoas boas e más e por fim, encontrará o amor que almeja e dependerá de você apenas em ser feliz ou não. As pessoas confundem felicidade com bens materiais ou status, mas acredite quando lhe digo, isso não é nada. A vida é feita dos minúsculos momentos e estes serão eternizados em nossos corações. - explicou e satisfeita com a conclusão, esperou por algum comentário de Lauren que não veio.
Ela não precisava falar... Não era necessário.
- Mesmo eu não sabendo o que se passa nessa cabecinha oca, sei de uma pequena coisa: você não está sozinha, Michelle. Você possui uma família que lhe ama, amigos e se tudo isso não for o suficiente, eu estou aqui. Por enquanto, é claro, mas estou. Irei ajudá-la no que estiver ao meu alcance.
- Obrigada, Rose. - agradecida e com os olhos cheios de água, sorriu verdadeiramente. Ouvir aquelas palavras havia feito bem à jovem.
- Até as mais fortes tempestades cessam, Jauregui. Nunca se esqueça disso.
Assentindo, Lauren levantou-se e deixando a cama, abraçou a anciã. Era incrível o laço de cumplicidade que elas haviam criado em tão pouco tempo.
- Agora vá, você tem um trabalho para fazer e vidas para salvar.
- Sim, senhora. - brincou a médica com um sorriso terno e se afastando, abriu a porta. - Rose...
- Sim?
- Aonde quer que seus filhos e marido estejam, eu tenho certeza que eles estão orgulhosos de você.
- Por que acha isso? - perguntou a mais velha enquanto se segurava para não chorar.
- Porque eu também estou orgulhosa de você.
E sem falar mais nada, Lauren saiu do quarto com um sorriso sincero deixando para trás uma Rose contente e comovida.
Assim que virou o corredor, Lauren caminhou rumo as escadarias. Sua conversa com a senhora havia de fato melhorado seu humor. McCallister era como uma mãe e ao mesmo tempo uma grande amiga. Adorava a mulher e toda vez que recebia um conselho lembrava-se dos ensinamentos de Clara e talvez fosse por tal motivo que se via tão dependente. No fundo, Lauren sabia que Rose não possuía muitos meses de vida caso não iniciasse a quimioterapia, mas novamente nada poderia fazer. A morena já havia aconselhado e praticamente implorado, mas a senhora ainda continuava firme em sua decisão.
Rose queria ir em paz, sem dores e, portanto, encararia a morte de frente, sem hesitar e pronta para dar fim a uma vida boa, calma e extremamente satisfatória que tivera. No entanto, isso significava que uma hora Lauren a perderia.
Perderia sua amiga. Sua conselheira e uma mãe e se havia algo que a neurocirurgiã sabia era que não estava preparada para isso.
Não estava preparada para perder Rose.
- Olhe para onde anda, Jauregui. - alertou Joseph que quase trombara com a morena já no corredor onde se encontrava o quarto de Camila.
- É, me desculpe. Hoje estou um pouco avoada. - defendeu-se sincera, porém de modo gentil.
- Francamente, não é de hoje que está desse modo. Deveria dar uma passada na sala de Jackson. - aconselhou enquanto observava o semblante confuso da mais nova.
- Está alegando que preciso de um psicólogo, Kane? - questionou cruzando os braços e tentando ao máximo se controlar para não esmurrar o rosto do clínico-geral.
- Essa profissão exerce muito de nosso emocional, Lauren. Caso não aguente a pressão e se torne um mau profissional, deveria buscar por ajuda.
- Incrível... - debochou a morena de olhos verdes totalmente chocada com os argumentos do outro. - Não basta você me chamar de anti-profissional na frente de minha equipe, agora está alegando que tenho problemas psicológicos e preciso me tratar?
- Só estou querendo lhe ajudar. - respondeu simples.
- Bem, mas eu tenho uma ideia melhor... - deu dois passos à frente e fitando o homem que era poucos centímetros mais alto que a mesma, vociferou irritada. - Que tal você começar a cuidar da sua vida? Se estou bem ou mal, não interessa em nada a você. Deixe que a diretoria cuide disso.
- Lauren, eu só-...
- Entenda uma coisa, Joseph. Você não é meu chefe e eu não trabalho para você. - interrompeu o médico e não se dando ao luxo de escutá-lo, voltou a caminhar. - Aliás, para você eu sou doutora Jauregui. Agora licença, eu preciso cuidar de minha paciente.
Deixando-o para trás, Lauren dobrou o corredor e permitiu-se suspirar. As mãos pálidas tremiam tamanho fora seu nervosismo. Se havia algo que a morena possuía orgulho era de seu trabalho e agora o vendo tão ameaçado e recebendo comentários inúteis, estava-a matando por dentro. Não bastava a exaustão mental por causa de Camila, ainda tinha que lidar com terceiros.
- Porra! - grunhiu e levando as mãos ao rosto, respirou fundo algumas vezes para enfim, ajeitar seus cabelos revoltos.
Já mais calma, Lauren voltou a andar. Suas mãos sempre nos bolsos do jaleco enquanto a neurocirurgiã encarava os próprios sapatos, absorta em divagações, preocupações e dúvidas de sua mente.
Play - Saturn (Sleeping At Last)
[Até o final do capítulo]
- SOCORRO! Pelo amor de Deus, alguém me ajude!
Escutando uma voz mais do que conhecida, a morena de olhos verdes ergueu a cabeça e ao fundo avistou a figura de Alejandro clamando por ajuda ainda em frente à porta de Camila.
Camila.
- Não... - negando em um maneio de cabeça, Lauren começou a correr pelo corredor assim como três enfermeiros apareciam com um carrinho de parada. - Não, não, não.
Ao entrar no quarto, a primeira coisa que a médica viu foi a máquina apitando. Os batimentos de Camila estavam caindo e de forma rápida.
Ela estava indo...
- Não, por favor, não. - implorou se aproximando e já iniciando a massagem cardíaca enquanto a equipe entrava no quarto seguido de um Alejandro em prantos. - Vamos logo com isso!
- Minha filha, por favor, salve minha filha... - clamava o homem desesperado.
- Tirem ele daqui! Camila, vamos, por favor, vamos! - disse Lauren fazendo de forma ritmada a massagem. Os dois enfermeiros já trabalhavam em passar o gel nas pás enquanto a outra pedia para que o senhor Cabello saísse da sala. - Carregue em 150!
- Me perdoe, hija. Por favor, me perdoe! Por favor, não me deixe... Por favor... - Alejandro repetia a mesma frase como se fosse um mantra e mesmo que não pudesse se aproximar de Karla, ele permanecia no quarto chorando e implorando aos céus para que sua filha vivesse.
Logo, Lauren parou com a massagem e pegando as pás, chocou-as espalhando de forma rápida o gel. Em seguida, viu Richard - um dos enfermeiros - puxar uma parte da bata que Camila utilizava e assim o mesmo se afastou.
- Afastem! - disse levando as pás ao torso da latina e desfibrilando seu coração fazendo com que a mesma tivesse um pequeno salto graças ao choque.
- Doutora, os batimentos ainda estão caindo. - comentou Eliza fitando o aparelho.
- Merda, carreguem em 200! - e mais uma vez, a morena fez o procedimento. Suas mãos tremiam, a boca estava seca e o coração disparado. Não podia ser...
- A paciente está na ponte...
- Vamos senhor, você precisa sair do quarto!
- Por favor, salvem minha filha! Lauren, eu imploro, salve minha pequena! Por favor, salvem-na!
- Doutora, talvez ela-...
- Ela não vai morrer hoje. - sentenciou Lauren com os olhos injetados. Em seguida, esperou o enfermeiro passar novamente o gel em uma das mãos e chocando-as, levou para o torso da latina. - Vamos, Camila. Lute. Eu preciso que lute. Por favor, lute mais um pouquinho... Carreguem em 300.
- Mas Lauren... - começou Eliza com o cenho franzido. Nenhum dos profissionais presentes entendiam a situação.
Não entendiam o quão significativa Camila era para a jovem médica.
Não entendiam que naquele exato momento, Lauren não estava perdendo apenas uma paciente.
Ela estava perdendo Camila. O amor de sua vida.
- Afastem! - bradou observando o torso da professora erguer-se levando mais um choque. - Isso não está acontecendo...
- Ela está fibrilando, doutora.
Alguns dizem que quando se está em frente à morte, um filme da vida inteira passa por sua mente. No entanto, com Lauren a situação estava sendo diferente. Tendo sua amada ali deitada, a neurocirurgiã via desde o primeiro momento em que a ouviu uma adolescente ousada e petulante argumentar seu ponto de vista em uma aula de sociologia.
You taught me the courage of stars before you left
Você me ensinou a coragem das estrelas antes de partir
How light carries on endlessly, even after death
Como a luz continua interminavelmente, mesmo após a morte
With shortness of breath, you explained the infinite
Com dificuldade em respirar, você explicou o infinito
How rare and beautiful it is to even exist
Quão raro e belo é até mesmo existir
- Lauren, me perdoe! Eu sinto muito! Por tudo, por favor, me perdoe! E-eu... Só salve minha garotinha.
A primeira vez em que os verdes confusos se chocaram com os castanhos sonhadores.
- Lauren, o que faremos?
O momento que soube estar apaixonada pela latina.
- Carreguem em 350!
O primeiro beijo...
- Você vai fritar o coração dela, Jauregui!
- Senhor Cabello, fique ai fora, por favor!
- Carreguem em 350 agora! - gritou uma Lauren totalmente desesperada e logo sendo atendida pela equipe. Dessa forma, a morena levou novamente as pás para o torso de Camila e pedindo para que os demais se afastassem, observou o corpo tremer.
- Não está funcionando...
O primeiro eu te amo.
- Faz dois minutos que ela está na ponte, doutora. Eu sinto muito, mas e...
- Não termine essa frase! Ela não vai morrer, ok? Ela não pode e não vai. - disse sentindo os lábios tremerem e a vontade de chorar crescer cada vez mais. Ela não podia perder seu amor novamente. Não podia deixá-la ir. - Carregue em 400.
I couldn't help but ask
Eu não pude deixar de perguntar
For you to say it all again
Para que você dissesse tudo de novo
I tried to write it down
Tentei escrevê-lo
But I could never find a pen
Mas eu nunca poderia encontrar uma caneta
I'd give anything to hear
Eu daria qualquer coisa para ouvir
You say it one more time
Você dizer mais uma vez
That the universe was made
Que o universo foi feito
Just to be seen by my eyes
Só para ser visto pelos meus olhos
- Não podemos fazer isso, a paciente já morreu, Lauren!
- Carreguem o maldito desfibrilador em 400! - ordenou irritada e focou suas orbes verdes e cheias de água nos três jovens enfermeiros. - Ela não vai morrer.
- Me desculpe, Lauren... - disse Eliza com um semblante triste.
- Não! - jogou as pás sobre as pernas cobertas de Camila e iniciou a massagem cardíaca novamente. - Vamos, Camila. Vamos, não me deixe. E todas as suas promessas, hein? Depois de tudo o que passamos, você não vai me deixar desse jeito! Não vai! Está me ouvindo? Faça esse maldito coração voltar a bater!
I couldn't help but ask
Eu não pude deixar de perguntar
For you to say it all again
Para que você dissesse tudo de novo
I tried to write it down
Tentei escrevê-lo
But I could never find a pen
Mas eu nunca poderia encontrar uma caneta
I'd give anything to hear
Eu daria qualquer coisa para ouvir
You say it one more time
Você dizer mais uma vez
That the universe was made
Que o universo foi feito
Just to be seen by my eyes
Só para ser visto pelos meus olhos
- Se afaste da paciente, doutora. - pediu Richard se aproximando da morena, porém foi impedido por Eliza, esta compadecida pela situação.
- Seja sensato, Rick.
Olhando mais uma vez para o monitor, Lauren viu que a linha continuava tênue, porém os batimentos não havia chegado ao zero. Ela estava viva. Estava tentando lutar.
- Vamos, meu amor... Por favor, não me deixe. Você ainda precisa casar, ter filhos e uma vida linda pela frente. Por favor, lute mais um pouco... Se não por eles, por mim. - as lágrimas já caíam, porém as mãos continuavam firmes no processo da massagem cardíaca.
- Chega, é desumano isso... - comentou Gabriel.
Finalmente parando com a massagem, Lauren fitou Camila. Ela parecia calma. Inerte.
Praticamente morta...
With shortness of breath, I'll explain the infinite
Com dificuldade em respirar, eu vou explicar o infinito
How rare and beautiful it truly is that we exist
Quão raro e belo é realmente existirmos
- Doutora...
E antes que puxassem a médica neurocirurgiã para trás, a mesma fechou a mão direito e socou com o punho no torso da latina.
Uma...
- Pare, Jauregui!
Duas...
- Você vai quebrar a caixa torácica dela!
Três vezes.
- Vamos, Karla! - gritou e olhando para o monitor, viu a movimentação. Aos poucos, os batimentos foram aumentando e deixando os demais profissionais boquiabertos tamanho era a surpresa.
- Você conseguiu...
- Batimentos aumentando, ela voltou.
- Precisamos fazer exames e ver se causou algum dano na caixa torácica. - completou Eliza e se aproximando da Jauregui, sorriu. - Lauren, olhe para mim.
E fazendo o que a jovem loira pedira, Lauren encarou os olhos verdes de Griffin, ainda desacreditada e tremendo.
- A senhorita Cabello está bem. Você conseguiu!
Assentindo, a morena deu um passo para trás e olhando os enfermeiros trabalhando em verificar o estado de Camila, seguiu de forma automática para fora do quarto assim como Eliza que carregava um sorriso surpreso e feliz.
- Como ela está? - perguntou Alejandro com o rosto avermelhado devido ao choro incessante, porém fora totalmente ignorado por uma Lauren choque que apenas observava a mulher que amava pelo vidro.
- Senhor Cabello, eu preciso que fique calmo. Sua filha está bem, fique tranquilo. - declarou Eliza enquanto focava seu olhar na neurocirurgiã, mas mesmo assim, não evitou o abraço caloroso de Alejandro.
- Obrigado, muito obrigado. - chorava o homem, agora de felicidade.
- Não agradeça a mim, foi a doutora Jauregui que a trouxe de volta. Foi Lauren que a salvou.
***
Queria dizer que qualquer problema de sanidade mental, não estou pagando tratamento.
Então galera, o que acharam? Gostaram? Já criaram suas teorias? Se sim, por favor! Comentem, eu quero MUITO saber o que se passa por vossas cabecinhas!
PS - para xingamentos, cantadas e ameaças de morte, consulte @ellsbeyo lá no Twitter. Um beijo, um cherô e tchauzin!