𝐂𝐎𝐍𝐄𝐂𝐓𝐀𝐃𝐎𝐒

By A-AB_autora

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⚠️Esse livro é um dark romance ⚠️ Até onde um amor jovem pode trazer o passado a tona? Duas famílias extremam... More

𝐀𝐕𝐈𝐒𝐎𝐒
𝐃𝐄𝐃𝐈𝐂𝐀𝐓𝐎𝐑𝐈𝐀
𝐂𝐀𝐒𝐓+𝐏𝐄𝐑𝐒𝐎𝐍𝐀𝐆𝐄𝐍𝐒
𝐀𝐓𝐎 𝐈
One | Díaz and Martinez
Two | Perfect little girl
Three | little liars
Four | Dancing with the ghosts
Five | Confessions
Six | Siren
Seven | It's in the rain that truths are revealed
Eight | Night of provocations
Nine | Young king
Ten | irresistible passion
Eleven | Living dangerously
Twelve | Princess need love
Thirteen | Living off our flames
Fourteen | You make me lose control
Fifteen | Daddy's little girl
Sixteen | family connections
Seventeen | Parties can be good or not
Eighteen | Impossible dreams
Nineteen | Díaz
Twenty | Until fate separates us
𝐀𝐓𝐎 𝐈𝐈
Twenty one | New tie
Twenty-two | Wildest dreams
Twenty three | Trevor Brandon
Twenty four | Miguel and Benjamín
Twenty five | Babies can be complicated
Twenty six | Jealousy is a curse
Twenty seven | Rachel and Benjamín
Twenty eight | Me and you
Twenty Nine | Master the past
Thirty | The best night of our lives
Thirty one | The calm before the storm
Thirty Two | Benjamín Martínez Part 1
Thirty three | Benjamín Martínez Part 2
Thirty four | Run
Thirty Five | Ángel's Long Day
Thirty Six | Paulina's Long Day
Thirty-Eight | Love The Way You Lie
Thirty nine | Chaos
Forty | Rafael Díaz
Forty-one | Ángel Díaz and Benjamín Martínez
𝐀𝐓𝐎 𝐈𝐈𝐈
Forty-Two | Back to the old days
Forty-Three | Ángel Díaz Part 1
Forty-Four | Ángel Díaz Part 2
Forty-Five | Ángel Díaz Part 3
Forty-Six | New Day, Old Conflicts
Forty-Seven | Why so much coldness, if there is love?
Forty-Eight | Ella
Forty-Nine | The drug called selfishness
Fifty | You and I back to our repetition
Fifty-One | That was a mistake
Fifty-Two | Chaos smells like us
Fifty-Three | The beginning - Rafael Diaz Part 1
Fifty-Four | Your heart wants what mine wants
Fifty-Six | Dancing with Devils

Thirty Seven | Long night

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By A-AB_autora

❝Não é sua culpa eu estragar tudo
Não é sua culpa que eu não sou o que você precisa
Amor, anjos como você não podem voar para o inferno comigo❞

Angels like you - Miley Cyrus

[CAPÍTULO NÃO RECOMENDADO A MENORES DE 18 ANOS POIS CONTÉM PRINCÍPIO DE VIOLÊNCIA SEXUAL]

[NÃO SEJAM LEITORES FANTASMAS COMENTEM E VOTEM]

2 de novembro, 2024
Tijuana, México
Manhã

O aroma suave de camomila se espalhava pelo ar como um abraço silencioso. Bastou isso — o cheiro familiar vindo da cozinha de Dolores — para que, por um breve instante, minha mente silenciasse o turbilhão de pensamentos que eu estava tendo.

Eu podia jurar que minha cabeça ia explodir nas últimas noites. Pensar demais sempre foi um maldito hábito, mas ultimamente tudo tinha piorado por causa de Isabella... e do meu "filho".

Ainda me parecia estranho usar essa palavra, até porque eu nem sequer tinha certeza se era minha aquela criança.

E, como se isso já não fosse suficiente, ainda tinha Ángel.

As coisas entre nós continuavam estranhas. Silêncios, olhares que antes diziam tudo e agora evitavam se encontrar. A cada dia que passava a distância crescia mais entre nós. E não era só por causa da merda com a Isabella. Era tudo. A maneira como eu me fechava, como tentava esconder o caos na minha cabeça, achando que era a melhor forma de protegê-la, quando, na verdade, só estava afastando ela ainda mais. E tudo que eu conseguia pensar ultimamente era que eu estava fodendo muito com ela... e com o que a gente tinha.

— Aqui está, Niñito — disse Dolores com a voz macia, colocando a xícara fumegante de chá ao meu lado sobre a mesa.

Levantei o olhar e a vi me observando com um carinho discreto, mas que me deixava exposto demais.

— Gracias — murmurei, forçando um pequeno sorriso.

Dolores assentiu com a cabeça, mas não se moveu. Ficou ali de pé, ao meu lado, como se soubesse que eu precisava de alguém mesmo quando dizia que não. Peguei a xícara entre as mãos, deixando o calor se espalhar pelos meus dedos. O primeiro gole foi quente demais, mas nem me importei. Eu queria qualquer coisa que me distraísse dos pensamentos.

— Você dormiu alguma coisa essa noite? — ela perguntou, cruzando os braços, desconfiada.

Neguei com a cabeça.

— Não dá pra dormir com a cabeça explodindo, ¿sabes?

Ela suspirou alto, como quem já esperava por isso. Caminhou até a pia, pegou um pano e começou a secar algumas louças que estavam ali, só pra ocupar as mãos.

— Sabe... desde a época que seu primo morreu, você não ficava assim — disse Dolores, com a voz mais baixa, como se estivesse pisando em território sensível demais.

Suspirei, passando as mãos no rosto, como se isso fosse capaz de apagar as lembranças.

— Talvez porque, naquela época... eu me entupia de drogas — respondi, sem filtro, deixando as palavras escaparem como um corte mal—feito.

Dolores não disse nada de imediato. Sabia que, às vezes, o silêncio falava mais alto do que qualquer sermão.

Eu me lembrava perfeitamente da fase em que tudo desmoronou: a perda de Miguel, a dor, a raiva. E a maneira como tentei anestesiar tudo da pior forma possível, me afundando em pó, comprimidos, bebidas, qualquer merda que apagasse a dor.

A verdade é que, naquela época, eu não queria sentir absolutamente nada.

— Você quase morreu — ela disse num tom sereno, mas carregado de lembrança.

— E talvez fosse melhor se tivesse acontecido — soltei, ácido, mas sem olhar pra ela. — Pouparia tanto sofrimento para a Ángel.

Dolores girou o corpo na minha direção com calma, mas com firmeza. Cruzou os braços sobre o avental florido que usava e franziu o cenho.

Niñito, por que acha que faz a Ángel sofrer? — Dolores perguntou com aquele tom calmo, quase materno.

Demorei uns segundos para responder. Apertei a mandíbula, respirei fundo e senti o gosto amargo subir pela garganta, junto com tudo que eu tentava engolir há dias.

— Porque eu sou um merda — falei, sem rodeios, a voz rouca e carregada. — Preso ao meu passado, aos meus traumas, aos meus vícios... e à merda da minha história. Eu sou um reflexo perfeito da Paulina — cuspi o nome como se queimasse a língua — e de tudo que ela representa.

A mão de Dolores, que estava apoiada no encosto da pia, se fechou sutilmente. Eu sabia que ela odiava ouvir esse nome tanto quanto eu.

— Eu sou igual a ela, Dolores. Igual. O mesmo sangue podre, a mesma incapacidade de amar sem destruir o outro. A mesma tendência de usar as pessoas para preencher o vazio — continuei, a voz agora oscilando entre raiva e vergonha. — Eu machuco quem me ama. Eu manipulo, grito, controlo. Porque foi assim que aprendi. Foi assim que vivi.

Me levantei bruscamente da cadeira e comecei a andar pela cozinha, com passos pesados ecoando no chão. Minha garganta ardia e meu peito doía. Mas era como se finalmente as palavras estivessem rasgando a pele por onde deveriam ter saído há anos.

— Paulina me fazia sentir culpado quando algo não saía do jeito dela. Sempre. Era como se tudo fosse minha responsabilidade, como se o mundo dela dependesse da minha obediência cega. Me batia, me torturava, e tinha todo o controle sobre mim — comecei a falar, e minha própria voz parecia distante, como se eu estivesse revivendo cada cena sem querer. — E hoje... eu repito essa merda com a Ángel.

Parei por um segundo, engolindo em seco.

— Eu nunca levantei a mão pra ela, nunca — repeti com firmeza, porque isso me importava. — Mas, às vezes, parece que eu quero controlar tudo o que ela faz. Foi por isso que eu comprei o apartamento, não foi pra ajudar... foi pra tê-la por perto. Foi pra sentir que ela era minha. É por isso que eu odeio o fato dela fazer faculdade, porque ela passa o dia rodeada de pessoas que não sou eu. Pessoas que não sabem o quão perigoso é amar alguém como eu. Eu realmente amo ela, Dolores. Com tudo que eu sou. Mas, ao mesmo tempo, eu saboto tudo o que a gente tem. Eu destruo o que mais amo... do mesmo jeito que minha mãe fez comigo.

Encostei na parede como se minhas pernas não aguentassem mais o peso da verdade.

— A verdade é que... eu não sei ser leve. Eu não sei ser saudável. Eu não sei ser o que ela merece — minha voz baixou até virar um sussurro rouco, carregado de desespero. — Eu sou um espelho sujo de tudo que eu mais odeio.

Dolores se aproximou devagar. Parou na minha frente e se agachou, me olhando nos olhos como fazia antigamente, quando eu chegava sangrando de alguma briga, esperando punição, mas recebendo colo.

— Você não é sua mãe, Benjamín — disse firme, a voz embargada, mas sem espaço pra dúvida. — Você é alguém que tá lutando pra ser diferente. E isso já te torna oposto a ela. Você reconhece seus erros. Você sente culpa. Você quer mudar. Paulina nunca quis. Ela só destruía... e ainda assim dormia tranquila. Você não. Isso já diz tudo.

Fechei os olhos sentindo um nó se formar em minha garganta, mas eu continuei. Porque se eu parasse agora, nunca mais teria coragem de tocar nesse buraco escuro que carregava no peito.

— Ela me arranjou um casamento com Isabella quando eu ainda era um moleque. Quando eu tinha acabado de perder o meu pai.... Ela nem se importou com o meu luto — minha voz começou a tremer, mas eu precisava colocar tudo para fora — E depois ela me usou como mula para levar as drogas para as gangues, como ela pode fazer isso com uma criança de 11 anos?

Engoli em seco, sentindo meu peito doer até demais.

— E se eu recusava... ela me trancava no quarto por dias. Sem comida. Sem luz. Dizia que eu só sairia quando aprendesse a obedecer.

As lágrimas começaram a cair, silenciosas, mas quentes demais.

— Uma vez... eu perdi uma encomenda. Fui roubado no caminho. Voltei pra casa sangrando depois de apanhar de três caras. E sabe o que ela fez? Me bateu com um cinto de fivela de ferro. Disse que eu era fraco. Que merecia morrer ter morrido no lugar do meu pai. — Minha voz falhou, mas eu continuei. — Como uma mãe pode dizer isso ao seu próprio filho?

Engoli em seco, encarando o chão.

— Eu sempre tive pesadelos com a forma como ela me olhava — soltei num sussurro carregado de ódio e dor. — Um olhar vazio, sem afeto. Quando algo dava errado, ela me fazia sentar na frente dela por horas, em silêncio. Dizia que aquilo era pra me tornar um homem forte. Que tudo que ela fazia era por amor. Mas era mentira, porra! — cuspi com raiva, o peito subindo e descendo rápido. — Ela não ama ninguém. Nunca amou. Nem o meu pai.

A raiva cresceu tão rápido que explodiu antes que eu pudesse segurar.

— Ela é uma vagabunda miserável, Dolores. Ela destruiu tudo que tocou porque o coração dela... ou sei lá que merda ela tenha dentro do peito... nunca superou o Rafael. Ela torturou a mim e ao meu pai porque não conseguiu viver com a rejeição dele. Com o fato de que ele escolheu outra pessoa. Ela carrega esse ódio como se fosse a porra de um troféu!

Dolores arregalou os olhos no instante em que o nome saiu da minha boca. Foi sutil, mas eu percebi. Ela empalideceu, a respiração travou por meio segundo e os dedos que seguravam a barra do avental tremulavam.

Franzi a testa, enxugando as lágrimas do rosto com raiva.

— Que foi? — perguntei, mais ríspido do que queria. — Você empalideceu quando eu falei o nome dele.

— Como... como você sabe disso? — ela perguntou, a voz mais baixa, quase trêmula. O nervosismo escorria pelas palavras como suor frio.

Me endireitei, tentando processar o que estava acontecendo.

— Um stalker — respondi lentamente, encarando cada micro expressão no rosto dela — Um stalker que tá me perseguindo. Ele me mandou informações. Foi ele quem me contou sobre a história entre Rafael e minha mãe.

Dolores deu um passo pra trás, como se meu olhar a empurrasse.

— Mas agora eu te pergunto... como você sabe disso? — questionei, a voz mais baixa e ameaçadora, cheia de desconfiança.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos. O suficiente pra me deixar ainda mais inquieto. Olhava pra mim como se estivesse decidindo entre fugir ou confessar algo que guardava há anos.

— Eu... eu não sei de nada, Benjamín — respondeu finalmente, com a voz vacilante, tentando se manter firme, mas eu via nos olhos dela que estava longe disso. — Não sei. É só uma velha história antiga... que merece viver enterrada no passado.

Aquelas palavras soaram como um aviso, mas também como um pedido desesperado para que eu parasse por ali. Só que não tinha mais volta. Eu já tinha ido longe demais.

— Dolores... — murmurei, me aproximando um pouco mais, quase implorando. — Você é a única nessa casa que sempre foi verdadeira comigo. A única que não mentia pra mim quando eu ainda usava aparelho e escondia os hematomas com manga longa. Eu confiei em você a minha vida inteira. Se você sabe alguma coisa... qualquer coisa, me diz. Eu preciso entender.

Ela desviou o olhar. Os ombros rígidos, o maxilar tenso. Por um momento, pensei que fosse ceder.

Mas então, ela se fechou.

Niñito, tem coisas nessa história... que não cabem a mim — disse num tom mais frio, mais distante do que eu esperava ouvir dela. Como se estivesse erguendo um muro entre nós.

Meu peito apertou. Aquilo doeu mais do que eu estava disposto a admitir. Mas eu entendi a mensagem. Ela não ia falar. Não era medo — era lealdade. E essa lealdade, de alguma forma, ainda pertencia à Paulina.

Cerrei os punhos e fechei a expressão, como se cada traço do meu rosto endurecesse junto com a decisão que tomei naquele instante.

Se Dolores não me contaria, então era hora de confrontar a pessoa que passou a vida inteira moldando minhas verdades com mentiras bem contadas.

Passei por Dolores e sem querer meu corpo esbarrou na mesa, derrubando a xícara de chá que se espatifou no chão com um estrondo. Não me importei.

Atravessei a cozinha, passando pela sala como um furacão prestes a explodir. Cada passo era pesado, impulsivo, como se o chão sob meus pés não fosse capaz de suportar o que eu estava prestes a fazer.

Parei diante da porta do escritório da minha mãe. Aquela maldita porta de madeira escura, entalhada com detalhes que ela achava refinados.

Entrei como um furacão. A porta bateu na parede com força quando a abri e senti o calor da raiva queimando meu peito. Não era só raiva. Era nojo. Era dor.

Ela estava lá, sentada tomando um chá como se fosse a porra de uma rainha decadente, como se aquele trono de madeira entalhada ainda desse a ela algum tipo de poder sobre mim. A xícara de chá entre os dedos, o sorriso contido nos lábios pintados de um vermelho discreto — tudo nela me irritava. Tudo nela era controle. Farsa. Frieza.

— Precisamos conversar, bruxa — foi a única coisa que consegui dizer, com a voz carregada de tudo que eu estava segurando desde que saí da cozinha.

Ela sequer se abalou. Cruzou as pernas com aquela elegância de sempre e tomou um gole de chá como se não estivesse me vendo pegar fogo diante dela.

— Que prazer te rever, meu filho — ela murmurou, com um tom debochado.

Foda-se o teatro.

Me aproximei da mesa, batendo as mãos com força, fazendo os papeis se espalharem.

— Me poupe das suas farsas, mamãe — cuspi, encarando os olhos que, infelizmente, são tão parecidos com os meus. — Eu quero respostas. Agora!

— Eu não estou entendendo...

Ela fingiu não entender. Fingia tão bem que me dava ânsia.

— Isabella. Eu. Um filho com ela.

— Sobre isso, quem deveria saber é você, não eu — ela murmurou, como se tudo fosse um detalhe insignificante.

Meu maxilar travou, e a raiva cresceu ao lembrar do que Dolores disse — e, ao mesmo tempo, do que ela escolheu não dizer.

Eu conheço a minha mãe. Sei que ela não joga limpo.

— Não brinca comigo, Paulina! — rosnei. — Eu sei que você e a vadia da Isabella armaram alguma coisa.

Ela permanece impassível. Mas agora o olhar dela era mais duro. Mais frio.

— E por que você acha que eu armaria alguma coisa com sua ex—namorada? Principalmente envolvendo uma vida assim?

Soltei um riso seco e curto.

— Porque você quer me ver longe da Ángel a qualquer custo. Porque você não a suporta. Porque você a odeia.

Ela revirou os olhos como se eu fosse uma criança birrenta. Como se eu não tivesse acabado de jogar na mesa o nome da garota que mudou minha vida. Mas a resposta dela... puta merda. A resposta dela foi o soco que eu não esperava.

— Eu não mandei você dormir com uma Díaz — ela disparou com a voz fria, venenosa. — Principalmente a que é filha do assassino do seu pai.

Ali eu perdi o controle.

O grito saiu rasgado da minha garganta. E com um único movimento do braço, varri tudo da mesa. A xícara voou. Papeis voaram no ar. E mesmo assim, ela continuou lá... parada.

— Você não quer encarar a verdade, mas ela tá bem na sua cara — ela continuou, gelada. — Ángel é sangue do sangue de um homem que destruiu nossa família. Ela não merece nada seu!

— VOCÊ NÃO SABE DE NADA! — gritei, sentindo o peito arder. — Você quer culpar a Ángel por algo que ela nem tem culpa!

Ela riu. E esse riso... esse maldito riso... foi o que fez minha mão subir.

O tapa ecoou pelo cômodo como um trovão. Não pensei. Não calculei. Eu simplesmente... explodi. A cabeça dela virou com força e por um segundo o tempo parou. Eu vi o choque nos olhos dela. O sangue que subiu pro rosto. O silêncio absoluto que nos envolveu.

— Você... — ela sussurrou, com a voz embargada de ódio. — Você me bateu?

Eu fiquei parado. O coração batendo como um tambor de guerra. E mesmo assim, não senti culpa. Não naquele momento. Tudo o que senti foi uma verdade crua, latejando na ponta da língua. Então deixei sair:

— Você não tem direito nenhum de falar do meu pai... ou de mim. E sabe por quê, Mamãe? Porque você era a prostituta imunda que dormia com o inimigo.

Eu a vi desmoronar. Vi os olhos dela se arregalarem como se eu tivesse tirado todo o ar da sala.

— Quem... quem te contou isso? — ela perguntou, tentando segurar a voz. Mas ela estava quebrando. E foi ali que percebi: eu a atingi no único lugar que ainda doía.

— Não importa — respondi. — O que importa é que agora eu sei quem você é de verdade.

Ela balançava a cabeça, negando, como se quisesse se apagar dali. Como se aquilo fosse um pesadelo.

— Você não entende... — ela murmurava. — Eu... Eu...

— Que foi? Tá sem palavras agora, Paulina? — perguntei com sarcasmo. — Você tinha o meu pai. Ele amava você. E mesmo assim, você dormiu com o homem que o matou.

Ela empalideceu. Literalmente. Minhas palavras a destruíram.

— Eu era jovem... e burra... — ela gaguejou. — Eu achava que o Rafael me amava mais. Achava que ele ia escolher a mim no final. Que tudo o que a gente viveu era maior do que...

— Maior que a rivalidade entre os Díaz e Martínez? — a interrompi. — Ele não ia escolher você, nem nessa vida nem na próxima. Ele não te amava do jeito que você queria. E você nunca aceitou isso. Por isso odeia tanto a Ángel.

Ela desmoronava. Mas eu não parei.

— Porque ela é filha do homem que você queria. Da mulher que ele escolheu. E você... você nunca superou isso.

Ela tentou se justificar. Tentou usar meu nome. Dizer que me criou. Que fez tudo por mim.

Mas eu estava farto.

— Porque todo mundo diz que eu sou um reflexo perfeito — eu disse, encarando os olhos dela com toda a dor que carrego — mas eu me recuso a ser assim.

E naquele instante, eu disse tudo.

Tudo o que me consumiu durante anos. Tudo que ela me moldou para ser e que eu reneguei.

Eu me recuso a ser ela.

Virei as costas. Caminhei até a porta. E antes de sair, disse:

— Eu pedi um teste de paternidade. Isabella concordou.

Vi o medo nos olhos dela.

— Se esse filho não for meu... se for mais uma das suas armações... então se prepara. Porque eu vou fazer uma coisa que já devia ter feito há muito tempo.

Ela perguntou o que eu faria.

Eu não hesitei.

— Eu vou acabar com essa rixa entre Díaz e Martínez.

Nem esperei a resposta de Paulina e saí dali com pressa. A cada passo que eu dava pelos corredores daquela casa maldita, mais o ódio me queimava por dentro. Minha cabeça latejava, minha respiração vinha cortada, descompassada. Eu tinha acabado de fazer algo impensável... e ainda assim, não sentia arrependimento. Não naquele momento. O que eu sentia era repulsa. Dela. De mim. De tudo.

Empurrei a porta da frente com força e entrei no carro como se estivesse fugindo de um incêndio. Liguei o motor com agressividade, sentindo a raiva ainda  pulsar nas minhas veias como um veneno que me deixava mais vivo do que nunca. Mas também mais perigoso. E eu sabia. Sabia que não dava pra deixar isso do jeito que estava. Antes de qualquer coisa, antes de lidar com tudo o que estava desmoronando, eu precisava resolver com ela.

Isabella.

Peguei o celular do banco do passageiro, em meu posso e comecei a digitar.

Me:
Isabella.

Cobrinha:
Oi, meu amor, como vai?

Me:
Primeiro, não me chame assim. Segundo, eu estou bem, obrigada. Terceiro, podemos nos encontrar na lanchonete perto da sua casa?

Cobrinha:
Claro. Mas que roupa eu tenho que usar?

Me:
Roupas normais. Nada que te faça parecer uma puta. Vamos conversar sobre nosso "suposto filho".

Enviei a mensagem e joguei o celular no banco. Apertei o volante com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. Não sabia se queria bater nela ou vomitar tudo o que estava preso na minha garganta. Eu ia até o fim dessa história. Ia arrancar a verdade nem que fosse à força. E se ela tivesse mentido... Se tivesse inventado aquela porra toda só pra me manipular... Eu juro por tudo que me resta que Isabella vai desejar nunca ter cruzado meu caminho.

(...)

Cheguei na lanchonete ofegante e todo encharcado. A tempestade que desabava lá fora me pegou de surpresa no meio do caminho, mas não me dei ao luxo de voltar ou esperar. Eu precisava resolver isso de uma vez.


Empurrei a porta de vidro com força, e o sino no alto anunciou minha chegada. O ar quente e adocicado do lugar me envolveu de imediato, um contraste gritante com o frio que estava lá fora. O cheiro de café, pão tostado e chantilly me atingiu com força e, por um instante, um gosto amargo subiu pela minha garganta. Não era nostalgia. Era mágoa. Era a lembrança de tudo o que eu havia perdido.

Olhei ao redor. Nada havia mudado desde a última vez que estive ali. As mesas de madeira ainda rangiam quando alguém se movia nelas. As luzes amarelas ainda pendiam do teto como se estivessem cansadas. O balcão continuava com seus banquinhos vermelhos giratórios.

Quando eu era criança, meu pai me trazia aqui quase todo fim de semana. Era o único momento em que ele largava os negócios por algumas horas e apenas... era meu pai. A gente sentava sempre na mesma mesa no canto direito, e ele pedia dois milkshakes de baunilha, o meu favorito por sinal. Lembro dele rindo, tirando os óculos escuros e dizendo que aquele era o "melhor milkshake da cidade". Depois que ele morreu, tudo aquilo virou só mais uma lembrança. Eu voltei ali poucas vezes e quando voltava era com Isabella.

Falando nela...

A ruiva estava exatamente na mesma mesa onde costumávamos ir. Coincidência? Provocação? Farsa? Não sei, mas ela parecia casual, seu cabelo ruivo estava preso num rabo de cavalo baixo, sem nenhuma maquiagem, camiseta simples, jaqueta jeans e uma calça escura. Por um segundo, quase parecia a garota que eu namorava anos atrás. Quase.

Mas não era.

A expressão no meu rosto não escondia nada. Meus olhos eram frios, e minha postura rígida como aço. Me aproximei com passos pesados, molhando o chão a cada passo, e parei diante dela sem dizer uma palavra. Ela me olhou de cima a baixo e deu um sorriso discreto, quase como se aquilo fosse só mais um encontro qualquer.

— Oi, príncipe — disse ela, com a voz suave.

— Não me chama assim — respondi, seco. — Você sabe por que eu tô aqui, Isabella. E não é pra recordar bons tempos.

Ela abaixou os olhos por um segundo, brincando com o canudo do copo descartável à sua frente. Um milkshake de morango, como sempre.

— Eu imaginei que fosse por isso — murmurou, sem encarar meu rosto. — Mas você podia pelo menos se sentar primeiro, né? Tá encharcado... vai acabar gripando.

— Não preciso que você se importe — rebati, puxando a cadeira e me sentando de frente pra ela com os olhos cravados nos seus. — Eu preciso saber quando o teste de paternidade sai. Eu não quero ficar preso a você por um erro que talvez nem seja meu.

A ruiva soltou uma risada fraca, carregada de desdém, e revirou os olhos com tanta força que parecia tentar se esconder atrás da própria arrogância.

— Mas quer ficar preso à filha do assassino do seu pai, né? — cuspiu as palavras com veneno, o tom carregado de ironia e mágoa.

Fiquei em silêncio por dois segundos. Dois segundos longos o suficiente pra que minha raiva crescesse. Me inclinei levemente sobre a mesa e a fuzilei com o olhar.

— Cuidado com o que você diz sobre a Ángel — rosnei, entre dentes. — Diferente de você, ela nunca me manipulou, nunca tentou me prender com joguinhos psicológicos ou com uma porra de um bebê.

— Ah, não? — Isabella rebateu num sussurro afiado, cruzando os braços. — Você acha que aquela santinha não te manipula? Você tá mais cego do que eu pensava, Benjamín. Ela é igualzinha ao pai dela. Sabe sorrir e esconder o punhal atrás das costas.

— Cala a boca — falei num tom grave, minha voz mais baixa agora, mas muito mais perigosa. — Você não sabe porra nenhuma dela. E muito menos do que eu sinto!

Isabella me encarou em silêncio por alguns segundos e seu rosto endureceu.

— Isso não é justo, Benjamín — murmurou Isabella, a voz embargada, vacilando, mas sem derramar uma lágrima sequer. — Quando você tava ferrado era eu quem tava ali. Quando você tava chapado de droga, sem conseguir nem lembrar seu nome, era eu quem cuidava de você. Quando você fazia merda, eu fazia junto, por você. Eu tava do seu lado em tudo, porra. E agora... agora você fala desse jeito, como se eu fosse descartável, como se nunca tivesse sido nada!

Fitei o rosto dela sem qualquer traço de piedade, porque ela não merecia e porque eu também não tinha.

— Talvez eu queira te jogar no lixo mesmo — disparei, a voz baixa, dura, com cada palavra como um soco seco. — Você tá esperando o quê, Isabella? Uma medalha? Um agradecimento? Porque você ficou comigo enquanto eu me afundava? Você não me salvou, você cavou o buraco junto comigo. E pior — você gostou. Porque era isso que te mantinha por perto, né? Ter controle. Ter o viciado, o fodido, o moleque quebrado na palma da sua mão.

— Eu gostava de você... e ainda gosto muito — ela sussurrou, com a voz trêmula. Seus olhos estavam vermelhos, e uma lágrima solitária escorreu pela bochecha antes que ela tivesse tempo de disfarçar.

Eu respirei fundo, mas não porque queria me acalmar, era o contrário. Queria ter certeza de que cada palavra que saísse da minha boca fosse uma facada bem dada.

— Será que você ainda não percebeu? — soltei, num tom grave, carregado de um desprezo que fazia até meu peito doer e vi claramente o instante em que a respiração da ruiva vacilou. — Eu não gosto de você. Nunca gostei pra ser sincero.

Ela engoliu em seco, mas não desviou o olhar. Queria bancar a forte. Pena que eu já sabia que por dentro ela estava quebrando.

— Em todos esses anos — continuei, com um sorriso amargo nos lábios — sabe o que eu mais gostava de fazer com você? Transar. Só isso. Era a única hora em que eu conseguia fingir que não era um lixo. A única hora em que eu conseguia esquecer que meu pai estava morto, que minha mãe mal olhava na minha cara e que eu vivia cercado de merda por todos os lados.

Isabella levou a mão à boca, tentando conter o choro, mas não consegui sentir pena. Não dava.

— Eu te engravidei com dezesseis anos, porra — disparei, como se cuspisse veneno. — Dezesseis, Isabella! Eu nem sabia o que era amor. Nem você. A gente só sabia fugir. E foder. Era só isso. Você era mais um vício, entende? Um passatempo que me dava algum alívio temporário. E no dia seguinte... só restava o vazio. O mesmo vazio que você insiste em preencher com essa ilusão idiota de que gosta de mim.

Ela apertou os olhos, deixando mais lágrimas escorrerem, mas não falou nada. E eu aproveitei o silêncio como um convite pra enterrar de vez tudo que existia entre a gente.

— Você se entregou pra mim achando que isso ia me fazer ficar — falei, a voz mais baixa, mais sombria. — Mas eu não sou o cara que você queria. Nunca fui. E se algum dia te dei esperança... foi só mais uma mentira. Uma entre tantas que a gente se contou pra sobreviver.

Ela finalmente desviou o olhar, os ombros tensos, como se tentasse se encolher no próprio corpo. Aquela garota que um dia achou que podia me salvar, agora parecia só um caco tentando se manter inteiro.

— Você não pode simplesmente apagar o que a gente viveu... — ela sussurrou— Isso não é justo...

— Justo? — repeti com escárnio, me levantando de novo e encarando—a de cima. — O que não é justo é você continuar se agarrando a mim como se eu fosse o único motivo pra sua vida ter sentido. O que não é justo é você usar um bebê como corrente, como se isso fosse me manter ao seu lado. Isso é doentio, Isabella.

Ela baixou o olhar, encolhida na cadeira como uma criança repreendida. Mas não disse nada.

— Eu não te amo. Eu não te quero. E se esse filho for meu, eu vou fazer o que tiver que fazer como homem. Mas você? — Respirei fundo, com a mandíbula tensa. — Você nunca mais vai ter espaço na minha vida como antes. Aceita isso!

Ela abriu a boca pra dizer algo, mas eu já tinha me levantado e caminhava em direção à saída.

— Me avisa quando o teste sair — falei, antes de atravessar a porta da lanchonete, com a raiva ainda fervendo dentro de mim... e a certeza de que, naquela história, o passado não tinha mais espaço no meu futuro.

Um trovão rasgou o céu com violência no exato momento em que empurrei a porta da lanchonete e fui engolido pela tempestade. A chuva caía pesada, cortando meu rosto como navalhas geladas, mas eu mal senti. A raiva ainda pulsava no meu sangue como um veneno quente, me mantendo entorpecido.

Mas então meu celular vibrou no bolso da jaqueta. Peguei com pressa, esperando qualquer coisa... menos aquilo.

Número de casa.

Atendi com o cenho franzido, já sentindo algo estranho no peito.

— Alô?

— Ben... Benjamín — a voz do outro lado veio trêmula, abafada, e meu corpo todo enrijeceu ao reconhecer quem era. Dolores. E ela soava como se estivesse à beira de um colapso.

— Sim, Dolores, o que foi? — perguntei, o tom mais seco do que deveria, mas algo dentro de mim já gritava que tinha algo errado. Muito errado.

— A Ángel... — a voz dela falhou, como se as palavras se recusassem a sair. — Eu... eu encontrei ela desmaiada aqui na mansão Martínez e... e tinha muito sangue... muito sangue, Benjamín!

Por um segundo, tudo parou. A chuva, o barulho da cidade, até o som da minha própria respiração. Fiquei imóvel, como se alguém tivesse arrancado o chão debaixo dos meus pés.

— O quê? — sussurrei, mas minha voz saiu falha, como se não fosse mais minha. — Dolores... O que você tá dizendo? O que aconteceu com a Ángel?

— Eu não sei... meu deus... ela tava no chão, perto da escadaria... tem sangue por toda parte! Eu tô com ela agora, mas ela não acorda... eu já chamei a ambulância e eles a levaram para o hospital!

O celular quase escorregou da minha mão, mas eu apertei com força, os nós dos dedos ficando brancos. Meu coração disparou com tanta força que parecia querer rasgar meu peito. Um nó gigante se formou na minha garganta, sufocando qualquer palavra.

Ángel... ferida... sangue.

— Eu tô indo — falei com a voz trincada, já me virando e correndo na direção do carro sem nem pensar. — Fica com ela! Não deixa ela sozinha, Dolores. Me escuta — gritei, a voz já tomada por desespero. — Não deixa ela sozinha por nada!

— Eu tô com ela, eu prometo. Mas venha rápido, por favor!

Desliguei sem responder. A chuva não parava, mas agora parecia distante. Tudo dentro de mim era caos. Minha mente me sabotava com um monte de possibilidades, todas ruins. E quanto mais eu pensava, mas minha respiração ficava curta.

Se algo acontecer com ela... se ela morrer...

Eu não sobrevivo a isso. Não dessa vez.

(...)

Corri pelos corredores do hospital com o coração na garganta, meus pulmões queimavam, mas a dor no peito era maior. A cada porta que eu passava, sentia que poderia encontrar o pior cenário me esperando.

Assim que cheguei na recepção, quase escorregando ao parar diante do balcão, bati com as mãos molhadas e trêmulas sobre o tampo de mármore, assustando a secretária.

— Eu preciso ver uma pessoa! — soltei com a voz embargada. — Ángel Díaz! Onde ela tá? Eu preciso ver ela, agora!

A recepcionista arregalou os olhos e hesitou, talvez surpresa com meu estado, mas antes que ela dissesse qualquer coisa, uma voz atrás de mim me arrancou do transe.

— Benjamín! — Era Dolores.

Girei nos calcanhares com tanta força que quase perdi o equilíbrio. Ela vinha correndo pelo corredor, com a roupa suja de sangue e aquilo, por si só, já era o suficiente pra fazer meu estômago revirar.

— Onde ela tá?! — gritei, indo até ela, segurando pelos ombros. — Onde ela tá, Dolores? O que aconteceu? Como ela tá? Fala comigo, porra!

Dolores chorava descontroladamente, seu corpo tremia entre os meus braços enquanto eu a segurava como podia.

— Eu... eu não sei, Benjamín — balbuciou com a voz falhada, engasgada nos próprios soluços. — Eu só tinha saído por alguns minutos, eu juro... não tinha ninguém em casa, estava tudo trancado... mas quando voltei... — ela fez uma pausa, respirando com dificuldade, as mãos agarradas na minha jaqueta como se fosse a única coisa que a mantinha de pé — a porta estava aberta, e... havia pegadas... pegadas de sangue no chão...

Fechei os olhos com força, tentando afastar a imagem que se formava na minha cabeça, mas era inútil.

— E quando eu entrei... — ela continuou, a voz quase um sussurro quebrado — eu encontrei a Ángel no chão... caída... desacordada... e havia muito sangue, Benjamín, tanto sangue... Eu entrei em pânico, pensei que ela tivesse morrido...

Ela se lançou contra o meu peito, me abraçando com força como se também buscasse abrigo. Eu a envolvi com os braços, engolindo a dor que ameaçava me sufocar.

Lo siento, Ninito... — ela sussurrou contra meu peito. — Se eu estivesse em casa, se eu não tivesse saído... isso não teria acontecido...

— Ei... — falei, a voz rouca, baixa, mas firme, enquanto segurava o rosto dela com as duas mãos. — Não se culpe. Por favor, não se culpe, Dolores. Você não podia prever... ninguém podia. A culpa não é sua. Tá me ouvindo? — encarei seus olhos marejados, querendo convencê—la, mas também tentando me convencer.

Ela assentiu com um aceno fraco e com os lábios trêmulos.

Alguns minutos depois, levei minha governanta até uma das cadeiras do corredor. Ela se sentou lentamente, ainda trêmula, e eu me sentei ao lado dela, mas não consegui ficar parado. Meus joelhos balançavam inquietos, a perna batendo no chão em um ritmo acelerado enquanto meus pensamentos começavam a correr em círculos. Era como se meu cérebro estivesse tentando juntar peças de um quebra-cabeça quebrado. Algo não fazia sentido.

Ángel havia me dito que ia visitar a mãe no cemitério logo cedo. Era Día de los Muertos, então fazia sentido. Mas que merda ela teria ido fazer na mansão de tarde? Não era algo que ela faria sem avisar... e mesmo se fosse, por que ela entrou sozinha? Quem mais estava lá?

Minha mandíbula travou e meu maxilar começou a doer.

E logo pensei em...Paulina.

— Dolores... — chamei, a voz mais rouca do que eu esperava. — Onde a Paulina estava?

Ela me olhou com um pouco de hesitação, como se tivesse medo da resposta que poderia sair de sua boca.

— Paulina... — começou, limpando uma lágrima do canto do olho. — Ela saiu logo depois de você. Estava gritando, transtornada. Quebrou o escritório inteiro e saiu com Alfonso.

— E ele voltou? — perguntei rápido.

— Voltou. Mas sem ela. Disse que a deixou no cemitério... e que ela parecia bastante mal. Meio desnorteada, chorando... falou que ela não queria ver ninguém. Só ficar sozinha.

Fechei os olhos com força e respirei fundo, tentando controlar a raiva que começava a borbulhar no meu estômago.

— É claro que ela estava — falei entre os dentes, revirando os olhos com desdém. — Chorando pelo próprio ego ferido...

A lembrança da manhã voltou a me assombrar e eu consegui pensar em várias coisas: discussão com Paulina admitindo seu ódio por Ángel, o tapa que eu dei em seu rosto, seu rosto chocado ao me ouvir jogando as verdades na cara dela e agora Ángel ferida... justamente na casa dela.

Minha perna voltou a balançar freneticamente e meu coração batia acelerado.

— Você acha que... — Dolores começou, mas não terminou.

Não cheguei a ouvir o resto. A voz dela virou apenas um zumbido no fundo da minha cabeça no instante em que vi o médico se aproximar da recepção e falar com a recepcionista.

— Tem algum parente da senhorita Ángel Díaz?

Me levantei de supetão, o que fez o banco ranger com força. Minhas pernas ainda estavam instáveis, mas eu fui em direção a ele sem pensar.

— Com licença, doutor, eu sou o parente — falei, me adiantando antes mesmo de Dolores conseguir reagir. Minha voz saiu baixa, rouca, como se algo estivesse entalado na garganta, mas ainda assim firme o suficiente para que ele me ouvisse.

O médico me encarou por alguns segundos. Ele era um homem de meia-idade, com o jaleco branco manchado de café, olhar clínico e cansado.

— Ah, sim. O que o senhor é da paciente? — perguntou, com um tom neutro.

— Sou o namorado — rebati sem hesitar, minhas mãos se fechando em punhos ao lado do corpo. — Agora pode me contar que diabos aconteceu com ela.

O médico pareceu entender. Respirou fundo, lançou um olhar rápido para a recepcionista ao lado e depois voltou a me encarar.

— Bom, a senhorita Díaz sofreu uma queda de pelo menos nove metros.

— Nove metros? — repeti quase num sussurro, e então minhas pernas vacilaram por um segundo.

Escada da mansão... vinte degraus... exatos nove metros até o hall.

Fechei os olhos por um instante, o coração batendo rápido demais, e escutei o som das palavras do médico como se ele estivesse falando debaixo d'água.

— Ela bateu com força a cabeça e também fraturou duas costelas — continuou ele, com calma, olhando para a prancheta como se as palavras pesassem. — Mas felizmente não sofreu escoriações graves. Está consciente, mas... sem lembrar do que aconteceu. Dissemos que é comum em casos de trauma, especialmente com a pancada que levou na cabeça.

— E tem mais uma coisa — disse, o tom agora mais baixo, quase hesitante.

Ergui a sobrancelha, sentindo um frio subir pela espinha. Ele olhou direto nos meus olhos, como quem mede o impacto do que vai dizer.

— O quê? — perguntei, quase rosnando. — Fala logo.

O médico ergueu os olhos dos papeis e me encarou com seriedade.

— Antes da queda, ela começou a apresentar sinais de um aborto espontâneo.

Um silêncio absurdo caiu entre nós. Tudo ao meu redor ficou mudo. O hospital, Dolores, os sons, os cheiros — tudo sumiu.

— Aborto? — repeti, com a voz baixa, como se a palavra me tivesse dado um soco no estômago. — Como assim, doutor?

Ele assentiu devagar, explicando como se falasse com um paciente prestes a desabar.

— Descobrimos vestígios hormonais claros de uma gestação recente. Ela estava grávida, senhor... provavelmente de quatro ou cinco meses. O corpo ainda vai passar por exames mais detalhados, mas todos os sinais indicam que ela estava grávida... e perdeu o bebê durante ou antes da queda.

— Não... — balbuciei, e senti o chão girar sob meus pés.

Meu coração começou a bater tão rápido que parecia que ia explodir dentro do peito. Minhas mãos formigarem, e a cabeça doeu como se mil memórias tivessem sido enfiadas à força de uma vez.

Ela estava grávida.

Ángel estava grávida de mim.

Dei um passo para trás batendo de leve contra a parede. Minha respiração ficou presa na garganta, e o ar parecia pouco. Meu peito subia e descia rápido, os olhos marejaram, mas não deixei as lágrimas caírem. Eu não podia. Eu não conseguia.

Foi nesse momento que as lembranças de seis anos me invadiram

A perseguição naquela estrada, meus dedos tremendo no volante, os pneus cantando no asfalto quente, o grito de Isabella quando estávamos prestes a colidir com um caminhão.

O estrondo.
O capô amassado.
O vidro quebrado.

E depois, o silêncio.

O corpo dela ao meu lado, mole, pálido, com os cabelos colados no rosto e sangue escorrendo pelas pernas. E entre as pernas dela... a vida que a gente nunca chegou a conhecer. A vida que eu matei com minha porra de irresponsabilidade.

"Você matou o nosso filho, Benjamín."

Essa frase nunca saiu da minha cabeça
E agora... novamente a história se repetia.

Ángel.

A mulher que me fazia querer ser alguém melhor. A mulher que me olhava como se eu ainda tivesse salvação. A única pessoa nesse mundo fodido que me fazia sentir humano.

Agora estava ali, em um quarto de hospital, com o corpo ferido e a cabeça cheia de amnésia, sangrando por dentro por causa de algo que nunca poderia ver.

Meu filho. Nosso filho.

A única coisa que talvez me redimisse nesse mundo e ele se foi antes mesmo de nascer.

Engoli em seco, tentando conter o gosto metálico que subia pela garganta.

— Não de novo... — murmurei com a voz quebrada, rouca, doída. Era pra mim mesmo. Era uma oração, uma maldição, um pedido de socorro. — Não outra vez...

— Senhor, está tudo bem? — perguntou o médico, se aproximando com cautela, como se eu fosse explodir a qualquer instante.

Levantei a mão em um gesto automático, pedindo espaço, ar, tempo.
Mas minhas pernas falharam. A dor subiu das entranhas como um veneno. Tudo ficou embaçado, como se eu estivesse dentro de um pesadelo e o mundo tivesse perdido o som.

Foi Dolores quem me segurou.

— Benjamín! — exclamou, a voz cortada pelo choro, os olhos arregalados, as mãos pequenas e trêmulas me segurando como se quisesse me manter inteiro. — Ninito, por favor...

Mas eu não conseguia mais manter o controle.

Tudo estava desmoronando.

O chão sumiu. A luz sumiu. Tudo que restava era o peso esmagador da culpa — uma culpa antiga, cravada em carne viva, latejando feito ferida aberta.

Era como se meu peito estivesse sendo rasgado por dentro. Como se cada batida do coração fosse um pedido de perdão que eu nunca soube como fazer.

Eu não fui homem o suficiente pra cuidar de Isabella naquele acidente.
Eu não fui homem o suficiente para proteger a Ángel agora.
Eu não fui homem o suficiente para manter meus filhos vivos.

Agarrei meus cabelos como se eu pudesse agarrar e arrancar meus pensamentos.

Eu queria gritar.
Queria socar uma parede até minha mão não responder mais.
Queria trocar de lugar com ela.

Mas tudo que consegui fazer... foi olhar para o médico em desespero.

— Eu quero ver ela. Eu preciso ver ela — murmurei, a voz completamente sem força. — Por favor... eu preciso ver ela agora.

O médico hesitou por um segundo, talvez pela minha expressão, talvez pela urgência crua na minha voz, mas depois assentiu.

— Vou pedir para a enfermeira levá-lo até o quarto. Mas preciso que mantenha a calma. Ela ainda está fraca.

Assenti sem dizer mais nada, Dolores tentou me chamar, mas eu já estava seguindo a enfermeira pelo corredor, com o coração batendo tão forte que parecia explodir a qualquer momento.

E a única coisa que eu conseguia pensar era:

Eu quase perdi ela. E perdi nosso filho.
De novo....

Caminhamos até o final do corredor. A cada passo, meu peito parecia pesar mais. O ar ali dentro era denso, como se o próprio hospital segurasse a respiração diante do que estava por vir. A enfermeira parou em frente a uma porta e, com um leve empurrar, abriu.

E ali estava ela.

Ángel.

Enrolada em um lençol branco que parecia grande demais para seu corpo. Seus cabelos loiros estavam espalhados pelo travesseiro, bagunçados, sem o menor cuidado. Ela olhava para o teto, mas assim que me viu na porta, seus olhos brilharam com algo que só pode ser descrito como devastação. Não era surpresa. Não era raiva. Era tristeza.

Ela desviou o olhar rapidamente, como se me encarar por mais um segundo fosse o suficiente para fazê—la desmoronar de vez. A mão dela — aquela mesma mão que já tinha tocado o meu rosto com carinho, que já tinha segurado a minha no meio de um inferno — agora apertava o lençol sobre a barriga com tanta força que os dedos ficaram brancos.

Aquela barriga que tinha abrigado, mesmo por pouco tempo, uma vida.

Nosso filho.

As enfermeiras terminaram o que estavam fazendo e saíram sem dizer uma palavra. Fecharam a porta com um clique seco, e então o silêncio caiu como uma cortina pesada entre duas pessoas que sabiam muito bem o que era carregar a dor.

— Raposinha — sussurrei, a voz saindo embargada, mais fraca do que eu queria. Mais humana do que eu deixava ser.

Ela apertou ainda mais o lençol, o olhar perdido nas rachaduras da parede como se fosse mais fácil encarar o reboco do que encarar a mim.

— Eu... — a voz dela saiu fraca, falhada, como se cada palavra rasgasse a garganta. — Eu sou fraca pra caralho...

— Ángel... — sussurrei, com um nó entalado na garganta. Mas ela me cortou.

— Não! — gritou, e a palavra explodiu no quarto como uma granada. — Não fala nada, porra, eu sei que eu sou fraca!

Ela passou as mãos pelos cabelos e eu pude perceber que sua respiração começou a acelerar e seus olhos marejados brilhavam com um ódio que não era só meu. Era dela, por ela mesma, por mim, por tudo.

— Eu fui idiota em achar que eu conseguiria viver com tudo isso! — cuspiu as palavras, a raiva agora se misturando com o desespero. — Eu sou uma porra de uma Díaz, Benjamín! E por mais que eu tente, por mais que eu lute, eu nunca vou ser livre dessa merda de sobrenome!

Ela passou as mãos no rosto, como se quisesse arrancar a própria pele, apagar tudo.

— E aí eu me apaixono justo por você... um Martínez cheio de demônios dentro de um caixão trancado! — a voz dela falhava, mas ela não parava — E eu pensei, juro por Deus, que o amor seria suficiente. Que se eu me jogasse, você me seguraria. Mas eu tô sempre caindo, sempre sozinha!

— Ángel, você não está sozinha... — tentei me aproximar.

— Cale a boca! — ela gritou e levou a mão até a barriga e apertou o lençol ali de novo, os olhos marejando com mais força. — Eu perdi meu bebê, Benjamín... E pior... parte de mim achou que talvez... só talvez, isso nos curaria.

Ela deu uma risada fraca, cínica, com gosto de dor.

— Patética. Eu sou patética. E eu odeio todo mundo. Odeio minha mãe por ter morrido e me deixado nesse inferno. Odeio meu pai por ser o que ele é. Odeio sua mãe por me olhar como se eu fosse lixo. Odeio o mundo inteiro por fazer eu acreditar que, mesmo por um segundo, eu posso ser feliz.

Ela olhou pra mim, os olhos cravando nos meus como facas.

— E odeio você, Benjamín. Eu odeio amar você!

Então ela caiu em um choro silencioso, daqueles que não fazem barulho, mas que engasgam. Que afogam.

Me aproximei devagar, sentindo o peso do meu corpo como se cada músculo estivesse coberto por toneladas de arrependimento. Me sentei na beirada da cama e a puxei com cuidado, acomodando minha raposinha contra meu peito, como se ainda fosse possível protegê-la de alguma coisa. Minhas mãos foram automaticamente até seus cabelos, acariciando com lentidão, sentindo a textura dos fios molhados de suor, talvez de lágrimas.

Ela não resistiu. Não dessa vez. Encostou o rosto em meu peito, os soluços abafados pela minha camiseta enquanto seus dedos agarravam o minha jaqueta com força, como se precisassem de algo concreto para não desabar por inteiro.

Eu quis falar. Deus, como eu quis. Dizer que sentia muito, que eu a amava, que daria tudo pra voltar no tempo. Mas nada parecia suficiente. Nada seria. Porque ela estava certa. E eu... só podia ficar ali, sentindo a porra da impotência de um amor que machucava mais do que curava.

Ficamos ali. Dois desastres humanos. Dois corações quebrados tentando continuar batendo no meio dos escombros que nós mesmos criamos. Dois sobreviventes da nossa própria guerra.

O quarto parecia respirar com a gente. Cada batida do coração dela, cada respiração entrecortada, cada segundo que eu desejava congelar.

Então ela falou. Baixinho. Tão baixo que, por um instante, achei que tinha imaginado.

— Eu acho... — começou, a voz tremendo contra meu peito. — Eu acho que deveríamos terminar.

Congelado. Foi assim que fiquei. Como se todas as células do meu corpo parassem de funcionar por um segundo. Me afastei um pouco, só o suficiente para vê—la. Ela ainda chorava, mas agora havia algo a mais ali: decisão.

— O quê? — minha voz saiu seca, incrédula. Meus olhos buscaram os dela e, com um pequeno gesto, Ángel se afastou de mim, como se o toque do meu corpo a queimasse.

Ela limpou o rosto com as costas da mão e me encarou decidida.

— Eu disse que é melhor... — respirou fundo, mas a dor no olhar era impossível de disfarçar — ...nós terminarmos.

— Não brinca com isso... — sussurrei, mas ela balançou a cabeça, interrompendo qualquer tentativa.

— Benjamín, você não percebe que isso machuca? — a voz dela cortou o quarto como uma lâmina fina, afiada, certeira. Seus olhos vermelhos, sua expressão devastada. — Não percebe o quanto nós dois nos destruímos cada vez que tentamos ficar juntos?

Balancei a cabeça devagar, me aproximando mais da cama como se minhas palavras pudessem costurar os pedaços que nós tínhamos acabado de rasgar.

— Mas ao mesmo tempo... — respirei fundo, tentando não gritar, tentando fazer ela entender — ...é isso que nos reconstroi. O que nos cura. Esse caos, essa porra dessa intensidade...

Ela riu. Baixo. Um riso triste, sem nenhuma alegria.

— Cura quem, Benjamín? — ela rebateu com força. — Olha em volta! Olha pra mim! Olha pra você! A gente só sabe fazer merda juntos. E não me diz que sexo resolve tudo, porque não resolve. Sabe o que eu sinto depois que a gente transa? Um vazio do caralho. Como se eu tivesse me apagando, pouco a pouco. Não é mais como era há seis meses... e não vai voltar a ser. Porque nós estamos quebrados.

Senti meu sangue ferver e minha garganta.

— Você tá sendo muito egoísta, sabia? — disparei, a voz baixa, carregada de raiva contida. — Tá pensando só em si e não em nós.

Ela me encarou, mordendo o lábio inferior com força, como se estivesse tentando conter a raiva.

— Egoísta? — os olhos dela brilharam, carregados de mágoa. — E eu não penso em nós? — a risada que escapou de sua boca foi amarga, quase cruel. — Desde quando eu não penso em nós, Benjamín?
Se eu ainda respiro nesse inferno que a gente chama de relacionamento... é porque eu realmente penso em nós.

— Não! Você não pensa porra nenhuma! — minha voz saiu mais alta, carregada, e meu corpo inteiro tremeu quando me levantei, os olhos cravados nos dela. — Se pensasse, teria me contado sobre o bebê! Ou vai me dizer que você não sabia?

Ela arregalou os olhos por um instante. Vacilou.

— É claro que eu sabia... — murmurou. — Mas antes de te contar, eu precisava pensar.

— Pensar em que porra?! — agora gritei, o desespero rasgando minha garganta como vidro — Em que merda você precisava tanto pensar que achou melhor esconder isso de mim?

— Em tudo à nossa volta! — ela gritou de volta, com os olhos marejados e a voz trêmula. — Nas nossas famílias doentes, no nosso relacionamento fodido, em mim... em você! Em como o pai da criança — ela apontou com raiva para mim, os lábios tremendo — ainda tá preso à porra do passado dele! Ainda vive arrastando os fantasmas que deveriam estar enterrados! Você nem sabe quem é, Benjamín! Como é que eu ia colocar um filho no meio disso?

Engoli em seco. Aquilo doeu. Doeu porque era verdade. Porque ela me via com os olhos nus, sem filtro, sem piedade. E mesmo assim, continuava ali.

— Você me vê assim, então? — perguntei, a voz falha.

— Não... eu te vejo como... — a voz dela falhou. Ela cruzou os braços em volta do próprio corpo, se abraçando como quem tenta conter uma tempestade interna.

E naquele instante, eu entendi.

Ele... — murmurei, sentindo a bile subir pela garganta.

Ángel manteve o silêncio, como se o nome não precisasse ser dito porque ambos já havíamos percebido.

— Então é isso — continuei, com um sorriso amargo e cansado. — Você me vê como vê o seu pai, né? — minha voz saiu baixa, mas carregada de dor, uma ferida aberta em carne viva.

Ela abaixou o olhar. Não disse nada.

E o silêncio dela foi a resposta mais cruel que eu poderia ouvir.

— Então você acha que todo homem que entra na sua vida... todo homem que te toca, que te ama, que te fere... é o Rafael? — perguntei, sem esconder mais nada, sem filtro, sem contenção.

— Não... — ela tentou negar, mas a voz quebrou de novo, junto com ela. — Só você...

Só eu.

As palavras bateram forte, com mais força do que qualquer soco que eu já levei.

— Entendi... — assenti, dando um passo para trás, sentindo o chão do hospital se tornar um campo minado. — E depois sou eu quem está preso ao passado, né?

Ela me olhou, com os olhos cheios de dor, mas sem coragem de rebater.

Não falei mais nada, apenas dei meia volta, com os olhos ardendo, e fechei a porta do quarto com força, o barulho seco da madeira batendo foi como um estouro no meu peito, e cada passo que eu dava pelo corredor do hospital parecia um soco contra as paredes do que sobrou de mim.

Minha respiração ficou pesada, meu maxilar travado, e o coração...o coração batia descompassado, como se quisesse sair do peito e cair no chão.
Eu andava rápido, quase correndo, tentando fugir da porra do hospital, da porra da conversa, da porra da realidade. A garganta queimava e a visão começava a embaçar, mas eu me recusava a chorar ali.

Quando passei por Dolores, ouvi ela me chamar:

— Benjamín...

Mas foi como se o mundo tivesse ficado mudo. Eu não consegui nem olhar pra ela. Só continuei andando, sem rumo, só querendo colocar distância entre mim e tudo aquilo que me quebrava.

Cruzei as portas do hospital, sentindo alguns pingos de chuva cair sobre meu rosto. O céu escuro parecia pesar sobre mim. As luzes da cidade estavam ofuscadas pelas minhas emoções, e a dor no peito dava lugar a um tipo de raiva que eu não conseguia controlar.

Meus passos ecoavam no estacionamento vazio até que vi minha Ferrari ali, parada, mas nem ela conseguia me causar o mesmo efeito de antes. Porque naquele momento, eu podia ter tudo — dinheiro, status, carro, o mundo inteiro aos meus pés — mas por dentro eu estava completamente despedaçado.

Abri a porta com brutalidade, me joguei no banco e bati o volante com força, soltando um grito abafado.

— ¡Mierda!

Inclinei a cabeça contra o volante, respirando fundo, tentando me manter inteiro.
Mas não dava.

A imagem da Ángel me chamando de Rafael. O olhar dela, cheio de medo. A comparação. A acusação. A decisão.
Tudo me esmagava como se eu tivesse voltado a ser aquele garoto que havia perdido o pai e se sentia perdido.

— Porra... — murmurei com a voz falha, passando as mãos no rosto, sentindo as lágrimas que eu jurei não derramar escorrerem sem permissão.

Liguei o carro e pisei fundo, arrancando do estacionamento, com o coração acelerado e a cabeça fervendo.

Eu não sabia pra onde ia. Só sabia que não podia ficar ali.

No rádio, começava a tocar Angels Like You, e, sem perceber, comecei a lembrar de todos os momentos importantes que vivi com Ángel.

Tijuana, México
5 de maio de 2024
6 meses atrás
(Quando Benjamín cuidou de Ángel bêbada no capítulo seis)

— Por que você me chama de raposinha? — ela perguntou com a voz baixa, embargada pela sonolência, enquanto apoiava a cabeça no meu ombro.

— Porque as raposas são espertas e ágeis, como você. — comecei, mantendo o tom suave — E também são corajosas, astutas... mesmo pequenas. Mas acima de tudo... porque os lobos são seus predadores.

Ela riu com suavidade, aquela risada que sempre fazia o meu peito vibrar.

— Então você se considera meu predador? — retrucou, com um sorriso preguiçoso nos lábios, enquanto levantava os olhos pra mim.

Parei um instante na escada. Meu olhar se prendeu ao dela. Tinha um brilho ali, uma mistura de carinho e curiosidade que me deixava estranho.

— Não exatamente. — Soltei uma risada baixa — Eu diria que sou mais como o lobo solitário... que observa a raposinha de longe, mas está sempre pronto pra proteger quando ela precisa.

Ela sorriu. Aquele sorriso de canto, que ela só dava quando estava entre o sono e a paz, e por um instante, tudo pareceu leve. Quase fácil. Como se o mundo não tivesse nenhuma porra de problema.

Senti o corpo dela ceder mais ao meu, como se confiar em mim fosse tão natural quanto respirar.

— Obrigada, então... lobinho — sussurrou entre uma risadinha fraca, os olhos se fechando aos poucos.

Tijuana, México
6 de maio, 2024
6 meses atrás
(Benjamín e Ángel no colégio dela na chuva, no capítulo 7)

— Você sabe o que o nome Ángel significa? — perguntei, puxando mais ela, nossos corpos agora quase colidindo na dança caótica da tempestade.

— Significa anjo — ela respondeu com a voz trêmula, seus olhos encontrando os meus em meio à chuva.

Um sorriso irônico curvou meus lábios enquanto eu a encarava intensamente.

— Interessante, não é mesmo? — murmurei, deixando um leve toque de provocação em minhas palavras. — E qual a diferença entre um anjo e um demônio ambos quebrados?

Ángel hesitou por um momento, seus lábios entreabertos enquanto lutava para encontrar as palavras certas.

— A diferença? — Ángel repetiu, sua voz soando fraca contra o rugido da chuva. Ela parecia perdida em meus olhos, como se buscasse uma resposta que nem mesmo ela conhecia.

Eu me aproximei ainda mais dela, o ar entre nós carregado de eletricidade e tensão. Seus lábios estavam entreabertos, sua respiração entrecortada pela intensidade do momento.

A diferença é que, enquanto os anjos podem cair do céu, os demônios sempre encontram um caminho de volta — murmurei, minhas palavras carregadas de um significado mais profundo do que ela poderia entender.

Ángel parecia estar lutando para processar minhas palavras, seus olhos azuis refletindo um turbilhão de emoções conflitantes. A chuva continuava a cair ao nosso redor, como se o próprio céu compartilhasse de nossa agonia e confusão.

Os anjos precisam seguir as regras enquanto os demônios... — hesitei por um momento, reunindo minhas próprias forças para continuar. — Os demônios têm liberdade para quebrá-las.

Ángel me olhou intensamente, como se estivesse tentando decifrar o que eu estava tentando dizer. Seus lábios se moveram como se ela estivesse prestes a dizer algo, mas então ela pareceu desistir, suas palavras se perdendo na tempestade que rugia ao nosso redor.

— Mas não pense que os anjinhos são perfeitos raposinha, eles também têm suas próprias vontades, seus próprios desejos, seus próprios demônios — continuei, minha voz mais suave agora, enquanto começava a passar meus dedos pelo rosto de Ángel — E às vezes, esses demônios são mais assustadores do que qualquer coisa que possamos encontrar no inferno.

A chuva continuava a cair implacável, suas gotas frias e persistentes penetravam até os ossos. Mas apesar da tempestade ao nosso redor, estávamos imersos em nosso próprio turbilhão de emoções.

O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui, Ángel — murmurei em um tom rouco.

A garota olhou para mim, seus olhos azuis brilhando com uma mistura de curiosidade e vulnerabilidade. Ela parecia perdida em seus próprios pensamentos, como se estivesse lutando para compreender a profundidade das minhas palavras e o turbilhão de emoções que nos envolvia.

Por um momento, o tempo pareceu suspenso entre nós, apenas o som da chuva e dos trovões preenchendo o vazio ao nosso redor. Eu queria que ela entendesse, que visse além das aparências, que entendesse a complexidade do que éramos juntos.

— Benjamín... — ela começou, sua voz suave como um sussurro na tempestade.

Um sorriso provocativo brincou em meus lábios enquanto eu a encarava intensamente.

— Você é um anjo caído, Ángel? — minha voz era um sussurro carregado de uma tensão palpável, misturada com a tempestade que rugia ao nosso redor.

Com um movimento suave, coloquei minha mão em sua cintura, sentindo o calor de sua pele através do tecido úmido de sua blusa. Ela ergueu o olhar para mim, seus olhos azuis encontrando os meus em meio à chuva que caía sem piedade.

A mais nova se inclinou na ponta dos pés, seus lábios quase roçando os meus, nossos rostos estavam tão próximos que eu podia sentir sua respiração suave contra minha pele.

Meu coração martelava no peito, uma mistura frenética de desejo e incerteza pulsando em minhas veias. Eu queria ela ali mesmo, tirar todas suas roupas e fode—la do jeito que eu queria. Por um momento, tudo ao meu redor desapareceu, e éramos apenas nós dois, presos na teia de emoções que nos envolvia.

Eu me sentia como se estivesse à beira de um abismo, prestes a mergulhar em um precipício de desejo intenso apenas pela maldita sereia que eu deveria odiar e até matar. Por um instante, tudo o que importava era ela e eu, perdidos no olhar um do outro, como se estivéssemos dançando na borda da eternidade.

Mas então, como se acordasse de um transe, Ángel recuou, quebrando o feitiço que nos envolvia. A chuva continuava a cair ao nosso redor, mas agora parecia mais fria, mais implacável, como se o próprio céu estivesse testemunhando nossa luta interna.

— Isso é errado... — sua voz era um sussurro frágil, quase perdido na tempestade que rugia ao nosso redor.

Seus olhos estavam cheios de conflito, uma mistura de medo e desejo dançando em suas profundezas. Ela recuou ainda mais, afastando-se de mim como se temesse a proximidade que nos envolvia.

Um nó se formou em minha garganta, uma mistura de frustração e desejo borbulhando dentro de mim. Eu queria alcançá—la, segurá—la firme e nunca deixá—la escapar, mas ao mesmo tempo, eu sabia que tinha que respeitar seus limites.

— Ángel... — Minha voz saiu rouca como se eu já sentisse a raiva voltar.

Ela parou de repente, seu corpo tenso como um arco pronto para ser disparado. Seus olhos azuis encontraram os meus, cheios de uma mistura de medo e desejo, refletindo a tormenta que se desenrolava dentro dela.

Tijuana, México
8 de maio, 2024
Seis meses atrás
(Primeiro beijo entre Ángel e Benjamín no capítulo 10)

— Todo dia você quer algo de mim e hoje, o que você quer, Benjamín Martínez? — ela perguntou, sua voz um sussurro carregado de desconfiança e cautela.

Eu me aproximei ainda mais dela, afastando suas pernas e diminuindo a distância entre nós fazendo ela se arrepiar. Seus olhos encontraram os meus novamente, enquanto eu me inclinava em direção a sua boca.

— O que eu quero hoje? — repeti, minha voz um sussurro rouco — Eu quero te beijar.

Ángel pareceu hesitar por um instante, seus lábios entreabertos como se estivessem prestes a formular uma resposta. Mas então, com um suspiro quase imperceptível, ela inclinou a cabeça ligeiramente para frente, aceitando silenciosamente minha oferta.

Nossos lábios se encontraram em um beijo suave e hesitante, como se estivéssemos ambos explorando território desconhecido. Seus lábios tinham um sabor doce e frutado, um leve gosto de gloss de morango que despertou meus sentidos. Enquanto isso, sua língua tinha um toque sutil de vodka, um sabor que adicionava uma pitada de excitação ao beijo.

Minha língua encontrou a dela em um movimento sincronizado, explorando cada centímetro de sua boca com desejo voraz. O calor entre nós aumentou gradualmente, uma chama que queimava com uma intensidade que era quase palpável.

Senti suas mãos irem para meus ombros, enviando arrepios de prazer pela minha espinha, fazendo o mundo ao nosso redor parecer desaparecer enquanto nos entregávamos ao momento, perdidos no calor e na paixão que nos consumiam. Era como se, por um instante, todas as nossas diferenças e desavenças se dissolvessem, deixando apenas nós dois e a intensidade que conectava nossos sentimentos.

Nossos corpos se pressionavam um contra o outro, cada toque aumentando a fervura do desejo que nos consumia. Suas mãos em meus ombros me puxavam mais para perto, como se ela quisesse me fundir a ela em um abraço apaixonado.

Com um gemido abafado, nossos lábios se separaram lentamente fazendo nossos olhares se encontrarem, carregados de uma intensidade que era quase palpável. Naquele momento, não precisávamos de palavras para entendermos o que se passava entre nós. Havia uma conexão profunda entre mim e Ángel Díaz.

O brilho em seus olhos azuis era um reflexo do desejo ardente que queimava dentro de mim, espelhando o mesmo fogo que eu sabia que ela sentia. Era como se pudéssemos nos comunicar sem palavras, nossos olhares transmitindo toda a paixão e anseio que não podíamos expressar em voz alta.

Então ficamos ali por alguns minutos, perdidos um no olhar do outro, como se o mundo ao nosso redor desaparecesse e só restasse nós dois. Era um momento íntimo e intenso, um momento que eu sabia que nunca esqueceria, mesmo que tudo desmoronasse ao nosso redor.

Tijuana, México
15 de maio, 2024
(Benjamín finalmente admite seus sentimentos, capítulo 14)

— Você quer saber o que tá acontecendo Ángel? Acontece que a sua família perfeita fodeu a minha vida — Comecei em um tom rouco e andando em direção a ela — A minha mamãe querida não me criou da forma certa, pensa em quantas noites eu chorei sendo torturado psicologicamente, pensa em quantas noites eu passei preso naquelas malditas cordas apertadas, pensa em quantas noites eu passei sangrando

Ángel pareceu engolir em seco com o que eu contei a ela, seu coração batia forte e ela tentava desviar o olhar enquanto andava alguns passos para trás, ela estava com medo...

— Então tá me dizendo que a culpa dos seus demônios é da minha família? — Ela perguntou em um tom trêmulo de medo.

— Sim.. e cada vez que eu olho esses lindos olhos azuis, eu lembro que o maldito do seu pai fez. Você é uma lembrança constante de que o passado nunca fica realmente para trás.

O medo que Ángel estava sentindo naquele momento pareceu desaparecer já que ela parou e eu parei em sua frente observando a raiva cintilando em seus olhos.

— Eu não sou culpada pelos erros do meu pai e da minha família. E você sabe disso. — Ela disse, com a voz firme, mas uma ponta de dor nela.

— Talvez não seja culpada diretamente, Ángel. Mas você é uma parte desse legado de destruição. — Minha voz era áspera, carregada de toda a amargura que eu carregava há tanto tempo. — Você destrói tudo o que toca, como uma rosa que mata com o perfume.

Ángel arqueou uma sobrancelha, seu olhar desafiador contrastando com a suavidade de suas feições.

— Uma rosa que mata com o perfume? — Ela repetiu, seu tom carregado de incredulidade.

— Sim, uma rosa venenosa. Atraente e mortal. — Minha voz era baixa e rouca. — Você não é nem ingênua e nem inocente. Você sabe o que faz..

— Então você está sob o meu feitiço, Benjamín? — Ángel perguntou olhando meus olhos.

— Talvez eu esteja, Ángel. Talvez eu esteja completamente perdido em você. — Minha voz era um sussurro rouco, carregado de desejo reprimido e perigo iminente. — Eu sou a gasolina e você é o isqueiro, e eu odeio essas chamas que produzimos juntos.

Ela não desviou o olhar, me encarando com uma intensidade que me deixava desconcertado.

— Se você odeia tanto esse sentimento, porque continua indo atrás de mim? Porque me salvou aquele dia na boate? Porque me salvou na piscina? — Ela falou firmemente enquanto olhava para mim com intensidade.

A verdade das suas palavras me atingiu como um soco no estômago. Eu odiava admitir, mas ela estava certa. Havia algo nela que me atraía, algo que me fazia querer protegê-la, mesmo quando tudo em mim gritava para mantê-la afastada.

— Porque... — Comecei, minha voz falhando. — Porque apesar de todo o ódio, apesar de toda a escuridão, há algo em você que eu não consigo ignorar. Você me faz querer ser melhor, mas ao mesmo tempo, você me lembra de tudo o que perdi.

Suspirei e encarei a mais nova, me sentindo um tanto inseguro.

— Desde que você entrou na minha maldita vida, na verdade desde que eu te vi naquele hospital quando você era apenas um bebê, eu senti que algo mudou dentro de mim. — Minha voz estava impregnada de uma mistura de raiva e desejo, uma tempestade de emoções que ameaçava me engolir inteiro. — Você despertou algo em mim, Ángel. Algo sombrio e perigoso. E eu não consigo me livrar dessa sensação, mesmo sabendo que deveria. Você me faz perder o controle Ángel Díaz.

Ela ficou em silêncio por um momento, avaliando minhas palavras. Então, respirou fundo e deu um passo para trás, mantendo a distância.

— Benjamín, talvez não seja que eu queira... — Ela sussurrou, sua voz tremendo levemente enquanto começava a ir embora. — Nós não podemos continuar assim. Essa obsessão... vai acabar fodendo com as nossas famílias.

Antes que ela pudesse se afastar, a puxei para perto, nossos corpos colidindo com uma força quase brutal. Minha boca encontrou a dela em um beijo feroz, dominador, minha raiva e desejo se misturando em uma paixão avassaladora. Nossas línguas se encontraram em uma dança frenética, em um confronto de sentimentos.

Tijuana, México
23 de maio,2024
(Benjamín indo salvar Ángel de Rafael, capítulo 19)

— Eu realmente não entendo isso — soltei, levantando as mãos em um gesto de frustração, tentando controlar o caos que pulsava dentro de mim. — Por que usar a Ángel? A sua filha. A única pessoa que você deveria amar incondicionalmente.

Rafael me encarou com aquele olhar frio, vazio, como se amor fosse um conceito abstrato, algo morto dentro dele.

— Você é tão ingênuo, Benjamín — disse, com aquele tom amargo que fazia meu estômago revirar. — O amor é uma fraqueza. Sempre foi. Só existe uma coisa que importa nesse mundo: poder. E controle. A Ángel foi apenas uma ferramenta... o meio mais eficiente de alcançar o que eu quero.

Cada palavra dele era como uma facada, e eu sentia a raiva crescer, se misturar ao medo. Um medo que não era por mim. Era por ela. Pela garota que eu amava e que agora estava presa entre o próprio sangue e o inferno que ele criava.

— Você está errado — falei com a voz tensa, trincando os dentes. — O amor não enfraquece. O amor nos dá força. É ele que nos move, que nos mantém vivos. É o que faz a gente lutar... proteger....

Rafael revirou os olhos como se eu fosse um adolescente ingênuo vomitando frases de filme barato.

— Palavras bonitas — ele disse, sarcástico. — Mas totalmente inúteis no mundo real. Vamos ver o que o seu amor pode fazer agora.

Então ele ergueu a arma.

E naquele segundo, o tempo parou.

Vi o dedo dele tocar o gatilho com uma calma absurda. Como se não estivesse prestes a tirar a vida da própria filha. Como se o sangue que corria nas veias dela fosse descartável.

Meu coração bateu tão forte que eu senti o peso no peito. O ar sumiu. Minha mente gritou. Cada célula do meu corpo entrou em alerta.

— Eu tô com a sua vida e com a dela por um fio — Rafael sorriu, com aquele sorriso doentio, satisfeito. — Ángel, me desculpa... mas acho que o seu namorado vai adorar ver o seu cadáver.

Naquele instante, eu vi o desespero nos olhos dela. Ela tremia enquanto olhava fixamente para a arma, como se fosse o próprio diabo. E talvez fosse mesmo. Mas então... ela me olhou.

Nossos olhares se encontraram e o mundo desapareceu.

Tudo ao nosso redor — o som, a ameaça, a arma — sumiu por um instante. O mundo, antes tão malvado e hostil, pareceu entrar em suspensão. Só existíamos nós dois. Ela e eu.

Nossos olhos se encontraram como se fossem ímãs. E, naquele momento, não era apenas um olhar. Era um grito silencioso. Era o desespero dela pedindo por salvação sem precisar dizer uma palavra. Era o meu coração implorando por tempo, por uma chance, por um milagre.

Os olhos dela estavam marejados, dilatados de medo, mas não eram só medo. Tinham algo a mais. Algo puro. Bruto. A faísca que ainda ardia dentro do caos.

Ela ainda confiava em mim.

Mesmo tremendo, mesmo com o peito arfando de pavor, mesmo com a porra de uma arma apontada para a cabeça... ela acreditava que eu a salvaria.

Meu coração quase parou com isso. Porque naquele instante, eu entendi o peso dessa confiança. E jurei ali, sem palavras, que não deixaria nada acontecer com ela. Nem hoje. Nem nunca.

Então movi os olhos. Sutilmente. Para a direita. Um gesto pequeno, quase imperceptível. Mas para ela, foi como um código.

"Confia em mim."

Era isso que meus olhos diziam. Era isso que meu coração gritava.

2 de novembro, 2024
Perto da Fronteira de Tijuana entre San Diego
De volta ao presente

O motor da Ferrari roncava baixo enquanto eu seguia sem direção, como se o carro conhecesse meu caos interno e me guiasse sozinho. As luzes da cidade passavam em borrões amarelos, vermelhos e brancos, mas eu mal as via.

A música ainda tocava no fundo, mas nem isso conseguia preencher o vazio que crescia dentro do meu peito. A voz de Ángel, as palavras dela, martelavam na minha cabeça com mais intensidade do que qualquer música.

"Eu odeio amar você!"

Trinta e três minutos. Era o tempo que o painel marcava desde que eu saí do hospital, e agora, sem perceber, o letreiro de boas-vindas de San Diego surgiu diante de mim.

Soltei um suspiro longo e afrouxei a mão no volante. Eu não estava apenas dirigindo. Eu estava fugindo. Dela. De mim.

Mas se eu estava tão preso ao meu passado, como muitos, inclusive ela, já tinham dito, então talvez fosse hora de conversar com alguém que me entendia.

Virei uma rua estreita à direita, depois outra, e aumentei a velocidade enquanto a cidade ao redor se tornava mais silenciosa. Como eu. O GPS não era necessário. Eu sabia exatamente para onde estava indo.

Mais alguns minutos e parei diante de um portão de ferro antigo, enferrujado nas bordas e entreaberto. Uma placa iluminada por um poste amarelado informava o nome do local: Cemitério Memorial de Cypress Hill.

Acelerei devagar até o estacionamento e parei o carro no canto mais afastado e silencioso. O motor desligou e, por um momento, tudo ficou quieto.

Não havia vozes. Nem buzinas. Nem música.

Só eu. E aquela porra de silêncio incômodo.

Saí do carro e enfiei as mãos nos bolsos da jaqueta enquanto caminhava em direção ao portão do cemitério. A noite estava fria por causa da chuva da tarde, e o vento assobiava entre as árvores secas e os ciprestes retorcidos que cercavam os túmulos.

Quando atravessei o portão, meus passos ecoavaram nas pedras frias do caminho. Eu lembrava vagamente onde era meu destino. Já fazia um tempo que não vinha. Mas o caminho estava gravado na memória, como uma cicatriz que a pele não esquece.

Caminhei pelas fileiras de mármore branco com passos lentos, lendo alguns nomes, até que finalmente parei diante dele:

Miguel Martínez
Correr ou morrer
10/09/1985 ✞ 20/11/2019

Engoli em seco. Aquela frase... eu e Rachel havíamos escolhido juntos porque era tudo que representava Miguel.

— Oi Miguel... eu tô de volta — murmurei, me ajoelhando diante da lápide.

A brisa soprou mais forte, mexendo meu cabelo e fazendo a jaqueta balançar. A terra parecia mais fria naquela parte do cemitério. Tudo ali era pesado.

— Sabe, ultimamente anda acontecendo tanta merda na minha vida que eu acho que tô perdido de novo — falei, a voz mais rouca do que o normal, sufocada por um nó que crescia na garganta. Passei a mão com calma sobre a lápide fria de Miguel, como se pudesse sentir a presença dele do outro lado da pedra. — Queria que você estivesse aqui...

A brisa noturna mexia nas árvores ao redor do cemitério, e por um momento, fechei os olhos, permitindo que o silêncio me abraçasse.

Volta comigo, pensei. Volta só um pouco... me ajuda a lembrar de como tudo começou a quebrar.

19 de abril, 2019
San Diego, Estados Unidos
Cinco anos atrás

O cheiro de madeira encerada e café fresco preenchia a casa dos Martínez  naquela manhã de outono. A luz do sol entrava pelas janelas grandes da sala, desenhando sombras compridas nas escadas que desciam em espiral até a garagem. Eu seguia atrás de Miguel, ainda meio sonolento e com a expressão fechada típica das manhãs em que ele me tirava da cama cedo demais quando eu vinha visitar ele e Rachel.

— Tenho uma novidade pra você — ele disse animado, quase pulando degrau por degrau.

— Mas você sabe que eu odeio surpresas — resmunguei, coçando os olhos e tentando acompanhar o ritmo. — Principalmente às sete e meia da manhã.

— Essa eu tenho certeza que você vai gostar — garantiu, virando—se um instante para me lançar um daqueles sorrisos idiotas que só ele conseguia dar.

Ele usava uma camiseta velha do Guns N' Roses e uma bermuda jeans, como se estivéssemos indo à praia e não para um "evento" que claramente ele tinha preparado. Quando abriu a porta da garagem, senti o cheiro de óleo e borracha que sempre me fazia lembrar da adrenalina que eu vivia nos rachas.

Meus passos ecoaram sobre o chão polido assim que Miguel acendeu todas as luzes com um estalar de dedos e um sorriso vitorioso estampado no rosto. Ao lado da Lamborghini dele, que já era uma afronta por si só havia uma lona cor musgo, volumoso, cobrindo algo que parecia ser tão largo quanto longo.

— Tcharam! — ele exclamou, abrindo os braços como se estivesse prestes a apresentar um número de mágica em Las Vegas. — O que achou?

— Achei de quê? Aqui só tem a sua Lamborghini e... bom, uma lona que não serve nem de decoração — falei em meio a um bocejo debochado.

Miguel bufou com um revirar de olhos tão exagerado que parecia ensaiado e, ainda assim, abriu aquele sorriso debochado que ele sempre usava quando estava prestes a me deixar sem palavras.

— É que a sua surpresa tá embaixo daquela lona — apontou com o queixo, o brilho nos olhos denunciando que ele mal podia esperar minha reação.

— E o que você tá esperando? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.

— Você criar asas e cacarejar como uma galinha? — retrucou num tom sarcástico, antes de me dar um tapa seco na nuca.

— Ei! — reclamei, girando o corpo em sua direção com uma careta.

— Vai lá tirar o pano, Martínez júnior — disse ele com superioridade forçada — E sem reclamação, porque eu sou seu primo mais velho e você me deve respeito.

— Você é só quatro anos mais velho, não o rei da porra toda — retruquei, já bufando. — Mas tudo bem, vossa majestade.

Levantei o dedo do meio pra ele, recebendo um vai se foder sussurrado em troca, e fui até a lona. Me agachei e, sem muita cerimônia, puxei com força. O tecido caiu pesado no chão, levantando um cheiro de pó e gasolina.

E foi quando vi.

Porra.

Uma Ferrari 458 Itália, vermelha, perfeita, brilhando sob as luzes da garagem como se tivesse sido esculpida direto de um sonho. A mesma que eu vivia comentando em voz alta, achando que ele nunca prestava atenção. Meu coração deu um pulo no peito e fiquei ali, parado, encarando a máquina como se fosse uma obra de arte. Porque, pra mim, era.

— Caralho... — sussurrei.

— Surpresa, idiota — Miguel disse, encostado no capô da Lamborghini com os braços cruzados, mas sem disfarçar o orgulho.

— Você... você comprou essa Ferrari pra mim? — perguntei ainda sem acreditar, o olhar preso naquelas curvas vermelhas e na insígnia do cavalo rampante.

— Não, eu roubei de um velho italiano e trouxe de volta no porta—malas — respondeu, com aquele humor de sempre. Mas o sorriso dele amoleceu. — É sua. Feliz aniversário adiantado, Martínez. Você merece.

Eu me virei, sem saber se ria ou xingava ele de novo. Miguel e seu maldito dom de me desarmar.

— Você é um babaca — murmurei, tentando esconder o brilho nos olhos.

— Mas um babaca com bom gosto — ele respondeu  — Vai lá, entra. Ela tá com a chave no contato.

Sem dizer mais nada, deslizei a mão pela lataria e abri a porta do motorista. O estofado em couro preto com costura vermelha parecia me abraçar quando me sentei. Liguei o motor e o ronco da Ferrari preencheu a garagem, como um trovão rouco que me fez arrepiar até a espinha.

Miguel veio até o lado do passageiro e se abaixou, me encarando com um sorriso orgulhoso.

— Agora é oficial. Bem—vindo ao time dos fodões.

Sorri de volta.

— Eu ainda odeio surpresas — falei.

— Mas ama essa, né?

— Amo pra caralho.

Miguel sorriu, mas foi um sorriso diferente. Tinha aquele brilho nos olhos — o mesmo que ele sempre teve quando estava prestes a dizer algo importante. Só que havia um peso ali. Um cansaço escondido nas feições, como se ele carregasse o mundo nas costas e estivesse fazendo um esforço absurdo para não deixar transparecer.

— Benjamín — ele chamou, a voz um pouco rouca, baixa, séria. Era raro ouvir ele daquele jeito.

— O quê? — respondi me virando de frente pra ele.

Miguel me encarou por longos segundos, como se estivesse gravando meu rosto, como se quisesse se lembrar daquilo pra sempre.

— Promete pra mim... — ele começou, com um tom tão quebrado e ao mesmo tempo firme que me deu um arrepio. — Promete que quando eu não estiver mais aqui... você não vai se perder. Que vai continuar lutando, mesmo quando tudo parecer uma merda. Promete que você não vai deixar esse mundo te engolir, Benji. Porque ele vai tentar. Vai te destruir de dentro pra fora se você deixar. Mas você não pode deixar. Me promete isso.

Na hora, eu ri de canto, meio sem entender.

— Que papo é esse, cara? Vai começar a filosofar agora?

— Me promete. — ele repetiu, mais sério, os olhos vidrados nos meus.

Eu senti algo estranho no peito. Algo que me dizia que aquele momento ia me assombrar pelo resto da vida. E mesmo sem entender por completo, mesmo sem saber o porquê daquele pedido tão específico... eu prometi.

— Tá bom, Miguel. Eu prometo.

— Ótimo, assim eu fico até mais tranquilo — Ele disse bagunçando meu cabelo e eu sorri.

Foi como se naquele momento, tudo estivesse certo no mundo.
Era só eu, meu primo e aquele presente que ele me deu.
Um carro.
E um pedaço do amor que eu nunca mais encontraria em outro lugar.

2 de novembro, 2024
Tijuana, México
De volta ao presente

— Desculpa... — minha voz saiu baixa, arranhada pela emoção. — Eu não consegui cumprir sua promessa.

Fechei os olhos com força, tentando conter as lágrimas que ameaçavam desabar.

— Porra, eu tentei de verdade, Miguel. — soltei com a voz trêmula, sentindo o peso das palavras esmagarem meu peito. — Mas tem horas que eu me sinto tão perdido que nem sei mais quem eu sou.

Um nó apertou minha garganta com tanta força que por um momento eu não consegui respirar. Minhas mãos tremiam sobre o mármore enquanto a lembrança da Ángel — com os olhos marejados e a voz partida — me atravessava como uma lâmina.

— Mais uma vez eu sinto que fiz merda com a Ángel... porra, Miguel. — Minha voz falhou e eu fechei os olhos com força, como se isso pudesse conter o turbilhão. — Eu acabei de descobrir que tinha um filho... e o mesmo agora está morto.

Dizer aquilo em voz alta me quebrou mais um pouco por dentro. Doía diferente. Doía como um vácuo — um vazio onde algo devia ter existido e foi arrancado antes mesmo de crescer. Um filho. Meu. Um pedaço meu.

— A Ángel quer terminar comigo porque eu represento o pior da vida dela. O maior trauma. A porra do espelho do que ela mais odeia. — Levei a mão ao rosto, pressionando os olhos, tentando não chorar. Mas já era tarde. Uma lágrima quente escorreu, silenciosa. — E olha onde eu vim parar, hein? Sozinho, de madrugada, falando com uma porra de lápide, tentando encontrar consolo em um cadáver.

Engoli seco, sem conseguir conter mais a revolta e a dor que explodiam dentro de mim.

— Tudo que você me pediu foi pra eu não deixar o mundo me destruir. — sussurrei. — Mas eu tô falhando, Miguel. Tô falhando feio. Eu deixei essa merda aqui dentro me consumir, deixei a culpa, o medo, a dor virarem um veneno. E agora eu tô afundando. Sem saber como voltar. Sem saber se eu consigo voltar.

A noite estava ficando mais fria, mas o que me congelava era o arrependimento e a culpa. Fiquei em silêncio por longos segundos. Só o vento passando entre os túmulos e as lembranças me mantinham de pé.

O que você diria pra mim, se estivesse aqui, hein? — murmurei com a voz embargada, me abaixando de novo diante da lápide. — Como você me ajudaria a sair dessa merda, Miguel?

A pergunta saiu baixa, mas carregada de dor. Uma dor tão crua que me fez fechar os olhos com força, como se a escuridão atrás das pálpebras fosse me proteger por um segundo daquela tempestade dentro de mim.

O vento soprou gelado, bagunçando meu cabelo e arrepiando minha pele, e foi como se ele respondesse — ou como se o universo zombasse do meu desespero.

— Fala comigo, porra! Só dessa vez. Me xinga, me chama de idiota, me manda parar de agir como um covarde... só... fala comigo. — sussurrei, apertando os olhos e enfim deixando as lágrimas descerem.

Elas vieram silenciosas no início. Um rastro quente no rosto frio. Mas logo estavam caindo com força, como se tivessem esperado tempo demais para serem liberadas. Meus ombros começaram a tremer e eu nem me importei mais em segurar.

— Eu tô perdido, Miguel... — confessei em um sussurro rouco, encostando a testa na pedra fria. — Tão perdido que doi respirar. Que tudo o que eu faço parece errado. E eu tô cansado de estragar tudo. Cansado de afastar quem eu amo. Cansado de mim.

Um soluço escapou. Baixo, abafado, mas real. Doía. Como se algo dentro de mim estivesse se quebrando devagar, rachadura por rachadura.

— Eu vou perder a Ángel se eu não fizer nada, Miguel... e eu não posso. — Minha voz falhou na metade da frase, tremendo com a urgência que queimava no meu peito. — Eu não posso, porra. Pelo amor de Deus... — minha garganta apertou, e o ar saiu rasgando como se estivesse levando um pedaço de mim junto. — O que você falaria pra mim, hein? O que você diria agora, caralho?!

A dor que me corroía por dentro transbordou no meu punho quando dei um soco com toda força contra a pedra fria. O som seco do impacto ecoou pelo cemitério, e uma rachadura atravessou a superfície da lápide. Ela ficou ali, marcada. Mas não cedeu. Diferente de mim.

— Porra! — gritei, com os olhos arregalados de raiva e os punhos já começando a latejar. — Você não tá aqui, você me deixou, e eu tô tentando... tô tentando tanto, mas eu tô caindo, Miguel! E eu tô com medo de não conseguir levantar dessa vez!

A dor do soco era menor do que a dor dentro do peito. Um choro bruto escapou dos meus lábios. Não era calmo. Era feio. Rasgado. Eu soluçava como uma criança machucada, porque era exatamente assim que eu me sentia.

— Eu estraguei tudo... com ela, comigo, com o que a gente podia ter... e agora eu tô aqui, implorando pra uma pedra me responder. — deixei meu corpo escorregar até o chão, sentando com os joelhos dobrados, os olhos inchados e a respiração descompassada.

As lágrimas desciam pesadas, quentes, molhando meu rosto e caindo no cascalho frio. Não me importava mais. Não dava pra esconder. Eu estava despedaçado. E não tinha ninguém pra juntar os cacos dessa vez.

O que você diria... — murmurei contra a terra fria, com a testa encostada no chão, a voz engolida pela dor que ainda vibrava em cada músculo do meu corpo. Me sentia pequeno ali. Um garoto perdido pedindo socorro por nada.

— Talvez que você não pode ficar preso a uma coisa que te machuca...

Uma voz rouca e calma surgiu como uma rajada no meio do silêncio. Ergui a cabeça num susto, com os olhos ainda embaçados pelas lágrimas, e me virei em direção ao som.

A poucos metros de distância, entre as lápides alinhadas e iluminadas apenas pela luz fraca dos postes do cemitério, havia um homem parado. Alto, talvez com uns 1,80, usava um sobretudo preto que se misturava à escuridão da noite. O capuz levantado encobria grande parte de seu rosto, mas pude ver os óculos escuros refletindo a pouca luz, mesmo sendo noite. Como se escondesse algo, como se não quisesse ser reconhecido.

As mãos estavam enfiadas nos bolsos do casaco, e os passos dele eram quase silenciosos sobre a grama úmida. Mas o tom de voz... tinha algo ali. Um timbre familiar, mesmo distorcido pelo tempo ou talvez pela minha confusão mental. Algo nele não parecia perigoso, parecia mais familiar.

Rapidamente passei o antebraço pelo rosto, tentando limpar os rastros do meu colapso, como se desse tempo de apagar o quanto eu tinha me despedaçado segundos antes.

— É muito feio ouvir a conversa dos outros — falei com a voz arranhada, falhada pelo choro, tentando soar firme e falhando miseravelmente.

O homem soltou um leve riso nasal, quase irônico, antes de responder:

— E não é muito bom falar com pedras. Principalmente socar elas. Ainda mais num lugar sagrado. — respondeu com calma, sem desviar o tom. Tinha algo incômodo na serenidade dele, como se estivesse acima do que acontecia ao redor, mas ao mesmo tempo interessado. Como se estivesse ali por um motivo.

Franzi o cenho, ainda ofegante.

— Você sempre vem aqui bancar o conselheiro ou só hoje resolveu invadir a dor alheia?

— Só hoje. — ele repetiu com uma tranquilidade que me tirava do sério. — Na verdade, eu estava só de passagem. Mas seu desespero... me chamou atenção. É como se você não estivesse só triste... — ele fez uma pausa breve, olhando ao redor como se buscasse a palavra certa — ...mas como se estivesse tentando segurar o mundo com as mãos sangrando. E falhando. — deu de ombros como se tivesse acabado de dizer o óbvio, como se aquilo fosse visível demais para ser ignorado.

Engoli em seco.

A presença dele me incomodava. Me irritava. Mas ao mesmo tempo... me desarmava. Tinha algo naquele homem  que parecia atravessar minhas defesas como faca quente na carne. Era como se ele olhasse direto pro que eu mais escondia, pro que eu enterrava lá no fundo com força, dia após dia, pra continuar respirando.

— Você me conhece? — perguntei, cerrando os olhos, tentando enxergar algo sob o capuz, algo que entregasse quem diabos ele era.

— Não do jeito que você pensa. — ele disse, dando um passo à frente, mas ainda mantendo certa distância. — Mas sei o suficiente. Você fez uma promessa, certo? E não conseguiu cumprir... porque teve uma vida de merda. Agora olha pra você. Acha mesmo que vai juntar seus cacos conversando com um fantasma?

Minhas narinas inflaram com raiva. Aquilo me acertou como um chute no estômago.

— Além de inconveniente, você ainda é um filho da puta. — rosnei, passando a mão pelos cabelos, tentando segurar o sangue fervendo. — Você não sabe porra nenhuma!

— Se você dissesse isso com convicção, eu até acreditava. — ele respondeu num tom calmo, neutro, sem se abalar. — Mas tá tentando convencer quem, hein? A mim... ou a si mesmo?

Fechei os punhos com força. Parte de mim queria levantar e meter a mão na cara dele, só pra calar essa porra de voz cheia de razão. Mas a parte mais fodida... a que já estava cansada de lutar com o vazio... queria ouvir. Queria entender quem era aquele desgraçado que parecia ter arrancado uma página do meu peito.

Ele percebeu. Eu sei que percebeu.

— Posso te fazer uma pergunta? — disse, como se tudo fosse uma conversa casual e não um confronto com os meus próprios demônios. Como eu não respondi, ele continuou. — Você ama essa garota o bastante pra enfrentar o pior de si mesmo? Porque, pelo que eu vi... você tá perdendo ela por ainda não ter tido coragem de olhar pro que virou. Ou olhar pros seus medos.

— Medos? Ah, me faça um favor, eu não tenho medo de porra nenhuma! — explodi, o peito arfando.

Ele não recuou. Nem um centímetro.

Fez uma pausa. Um silêncio que gritou mais do que qualquer palavra.

— Então me diga... alguém que perdeu o pai quando mais precisava de proteção, que perdeu a mãe enquanto ela afundava na própria loucura, que perdeu a inocência nas mãos de um mundo que nunca teve piedade, que perdeu um primo que era como um irmão, e um filho que nunca teve a chance de segurar nos braços... — ele engoliu seco, como se falasse algo íntimo, profundo, pesado — ...não tem medo de perder mais nada?

E foi ali que algo estalou dentro de mim.

Porque ele estava certo.

Eu tinha medo. Medo de me apegar, medo de amar de novo, medo de permitir que alguém enxergasse o quanto eu era quebrado. Medo de sentir mais do que já sentia. Medo de perder mais.
Porque perder é o que mais me moldou.

Minha vida foi uma sucessão de ausências. Um pai que morreu antes de me ensinar a ser homem. Uma mãe que deixou a ganância subir à cabeça e começou a ferrar a mente do próprio filho. Uma infância roubada por ameaças, gritos, sangue e violência. Um primo que me deu tudo de bom que eu tinha... e depois partiu, me deixando sozinho de novo. Um filho. Meu filho. Que nem teve chance de viver.

E agora, Ángel.

A única coisa que fazia meu peito não parecer um deserto. E eu estava a ponto de perdê—la também.

Porque deixei o mundo me transformar num monstro.

Soltei um riso nervoso, quase desesperado, e levei a mão à boca, tentando segurar o grito preso na garganta.

— Eu tenho medo pra caralho, — sussurrei, enfim admitindo. A voz falhou no final. — Medo de amar e perder. Medo de destruir o pouco que ainda me resta. Medo de ser irreparável.

Ele não respondeu de imediato. Apenas se aproximou mais alguns passos, agora mais visível sob a luz fraca do poste do cemitério. O rosto ainda estava em sombras, mas a postura era menos distante. Menos fria.

— Então talvez seja hora de parar de fugir disso. — disse simplesmente. — Porque você não vai conseguir salvar ninguém até não salvar a si mesmo.

Ficamos em silêncio por longos segundos, apenas o vento noturno dançando entre as lápides.

Suspirei, pesado. Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto e, por um instante, não tentei limpar. Deixei que ela descesse.

Meus olhos voltaram para a lápide de Miguel e um aperto nasceu no meio do peito. Aquele homem estava certo. E o pior... Miguel também estava. Sempre esteve. Assim como Isabella, anos atrás. Assim como Ángel agora.

Quantas vezes eles tentaram me alcançar? Quantas vezes estenderam a mão, implorando para que eu não afundasse mais? E quantas vezes eu empurrei todos de volta para longe, fingindo que estava tudo sob controle, que eu sabia o que estava fazendo?

Eu nunca soube.

Mas sempre fui bom em fingir.

O que eu não queria — e nunca quis — era ajuda. Não porque me achasse forte. Mas porque admitir que eu precisava dela era como expor minha fraqueza. Como arrancar minha própria pele e deixar todo mundo ver o quanto eu estava podre por dentro.

Eu era tóxico. Eu sabia disso.
Só não queria encarar.

Porque encarar significava aceitar que eu destruí coisas boas. Que eu machuquei pessoas que me amavam. Que eu traumatizei a mulher que dizia querer passar a vida comigo. Que eu fodi com tudo por orgulho, por medo, por desespero de sentir qualquer coisa que me fizesse esquecer quem eu era por dentro.

Eu usava drogas pra me entorpecer.
Sexo, pra me punir.
Violência, pra sentir controle.
Mentiras, pra me manter funcionando.

Isabella foi minha fuga quando eu já não aguentava meu próprio reflexo. E com Ángel... foi diferente. Com ela, eu quis ser alguém melhor. Mas até isso eu acabei distorcendo, jogando toda a minha carga emocional nela, fazendo do nosso amor um campo minado.

Talvez no fundo, eu achasse que não merecia ser salvo.

— Hoje de manhã... — comecei, com a voz ainda embargada. — Eu disse pra minha mãe que recusava ser tudo que ela foi. Que eu nunca seria como ela.

Acariciei lentamente a lápide de Miguel, como se aquele gesto pudesse me ancorar no presente, me impedir de me perder de novo.

— Só que... eu não percebi que eu já estava pior. — ri com amargura, balançando a cabeça. — Porque pelo menos ela... pelo menos ela assumia que era um desastre. Mas eu? Eu me escondo atrás de uma máscara de controle, como se fosse o fodão, como se nada me afetasse.

Fechei os olhos. Deixei o silêncio do cemitério me envolver por um instante, o vento leve soprando contra meu rosto, frio como a culpa que escorria dentro do meu peito.

— Acho que eu sou conectado demais a... tudo o que me destruiu. — Minha voz saiu baixa, honesta, crua. — À rejeição da minha mãe. À morte do meu pai. À necessidade de me punir antes que o mundo faça isso por mim. Eu me prendi a isso como se fosse minha identidade. Como se fosse tudo o que eu sou. E agora... agora eu não sei se dá pra me curar disso.

Senti um nó na garganta. Não era fácil admitir. Nem pra mim, nem pra ninguém.

— Mas eu quero tentar. Mesmo sem saber como. Mesmo sem ter certeza se tem conserto pra mim. Eu quero... — respirei fundo, abrindo os olhos. — Eu quero me libertar disso, pela Ángel.

Ao meu lado, o homem pareceu sorrir. Não com zombaria. Mas com uma compreensão estranha. Como se tivesse escutado o suficiente.

Ele então se virou de costas, lentamente, como se sua missão ali tivesse terminado. Como se tivesse plantado a semente que precisava.

— Espera... — chamei, ainda ajoelhado. — Quem é você?

Ele parou. Ficou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse decidindo o que podia — ou não — me dizer. Então respondeu com um tom baixo e firme:

— Eu não posso te dizer isso por enquanto. — fez uma breve pausa, virando o rosto apenas o suficiente para que eu visse parte de sua expressão — Mas quero que saiba que eu sempre estarei aqui pra você, Benjamín.

Ergui a sobrancelha, confuso. Havia algo em sua voz... familiar. Quase íntimo.

— Mas o que você—?

Não tive tempo de terminar.

Ele se virou completamente, caminhou alguns passos... e desapareceu entre as sombras do cemitério, como se fosse feito delas.

Fiquei parado. Sozinho. Só o som do vento e das folhas secas ao redor me fazendo companhia.

Mas, de alguma forma, o vazio que sempre me acompanhava... naquela noite, parecia um pouco menos pesado.

(...)

Voltei para Tijuana com um único objetivo em mente: me reconstruir. Pela primeira vez em anos, não era por orgulho ferido, e nem por medo de perder algo. Era por mim. Porque eu finalmente entendi que não dava pra amar alguém direito quando tudo dentro de mim estava destruído. Eu precisava consertar meus próprios cacos antes de tentar juntar os de qualquer outro. Antes de tentar reconquistar a Ángel.

Observei a cidade pela janela do consultório. As luzes de Tijuana brilhavam como se estivessem sorrindo pra mim pela primeira vez.

Era engraçado... aquela cidade que tantas vezes representou dor, sangue e caos agora me recebia com uma estranha sensação de esperança.

— Eu não costumo atender pacientes a essa hora da madrugada — A doutora Leslie disse atrás de mim com um tom calmo e profissional. — Mas algo na sua voz me fez querer estar aqui.

Me virei e caminhei até a poltrona de frente para ela, respirando fundo.

— Eu também não costumo pedir ajuda — admiti com sinceridade, encarando meus próprios dedos. — Mas chegou um ponto em que ou eu falo... ou eu explodo.

Ela se ajeitou um pouco, abriu o caderno e olhou diretamente nos meus olhos.

— Então vamos começar do começo, senhor Martínez.

Engoli em seco, sentindo o coração bater mais forte. Dessa vez, eu não iria fugir. Não iria fingir. Era a hora de encarar tudo.

— Bom...

Virei mais uma garrafa de vodka goela abaixo, sentindo o líquido queimar minha garganta. Mas já não fazia diferença. Meu corpo estava dormente, e minha mente... um caos, como sempre. Eu nem sabia mais se era a oitava ou a nona garrafa. Só sabia que precisava apagar. Esquecer. Me punir.

Minha visão já começava a embaralhar, mas, mesmo assim, eu me odiava por não estar sentindo dor o bastante. Eu queria que doesse mais.

Fazia algumas horas que eu tinha saído do hospital. Algumas ou talvez muitas desde a última vez que gritei com Benjamín. Desde que disse aquelas palavras crueis que ainda ecoavam em minha mente.

"Eu odeio amar você."
"Você é igual ao meu pai."
"Eu quero terminar."

Que porra eu estava fazendo? Por que Benjamín e eu nos machucamos tanto? Por que, depois de gritar todas aquelas coisas egoístas, eu ainda queria ele ao meu lado?

A verdade é que Benjamín tinha razão. Tudo o que ele disse.

Ele me amou com tudo o que tinha, mesmo quebrado, mesmo perdido.

E eu... eu empurrei ele direto pro abismo.

Matei o que restava do nosso amor com a minha covardia.

Eu matei o nosso anjinho.

A dor era insuportável e a culpa era pior.

— Me dá mais uma — pedi com a voz arrastada ao barman, que hesitou por um instante.

Mas antes que ele pudesse me servir, senti uma mão nas minhas costas. O toque foi gentil, mas naquele momento, tudo em mim era caos. Virei o rosto com dificuldade e vi Trevor. Claro. Por que mesmo, eu tinha ligado pra ele?

— Já chega, Ángel. — A voz dele veio baixa, mas firme. — Você vai acabar tendo um coma alcoólico.

Revirei os olhos, ou pelo menos tentei. Meu corpo já não obedecia muito bem.

— Eu só... eu só quero beber até cair — murmurei com a língua enrolada, encostando a testa no balcão gelado.

— Caindo você já está. — Trevor se levantou e veio até mim, me ajudando a ficar de pé mesmo que minhas pernas estivessem bambas. Cambaleei, tropeçando no próprio salto, e ele me segurou antes que eu beijasse o chão. — Eu vou te levar pra casa.

— Não! — gritei, me debatendo fraca contra seus braços. — Eu não quero ir pra casa. Eu só quero ver o Benjamín! Por favor... eu preciso dele, preciso me desculpar, Trevor... — minha voz falhou e logo em seguida veio o choro, rasgando minha garganta. — Eu preciso dizer que não era verdade o que eu falei, que eu só estava com medo... eu estava tão assustada...

Minhas palavras vieram entre soluços. O gosto de vodka e lágrimas misturado à bile subia na minha garganta. Senti Trevor me segurar mais firme.

Shhh... relaxa, eu vou te levar até ele — Trevor sussurrou perto do meu ouvido.

Senti os dedos dele acariciarem minha bochecha com delicadeza enquanto secava minhas lágrimas com o polegar.

Fechei os olhos por um segundo, rendida demais pela embriaguez para perceber os detalhes ao meu redor. Eu estava mole, entregue. Vulnerável.

— Onde está seu telefone? — ele perguntou, ainda com aquele tom suave demais, como se estivesse me embalando pra dormir.

— No... no bolso de trás da minha calça — falei, com dificuldade, sentindo a cabeça girar.

Senti a mão dele deslizar pelas minhas costas até alcançar o bolso justo da minha calça jeans. Demorou mais do que o necessário pra pegar o celular, os dedos dele demoraram, pressionando de leve a curva da minha cintura antes de puxar o aparelho.

Tentei virar o rosto pra ver o que ele fazia, mas minha visão não ajudava, assim como meus músculos. Só vi o brilho da tela iluminando o rosto dele por alguns segundos. O maxilar dele estava contraído, os olhos fixos no celular, digitando rápido, apagando algo, talvez lendo algo. Não consegui entender. Tudo parecia lento e confuso demais.

— Tudo certo, tá? — disse, sorrindo de lado enquanto guardava o celular no bolso do próprio casaco, e não no meu. Meu estômago virou. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele passou o braço em volta da minha cintura, puxando meu corpo mole contra o dele.

— Vamos, eu te ajudo a andar.

Sua mão apertou demais minha cintura, me fazendo dar um passo hesitante. Eu mal conseguia andar direito, e ele praticamente me arrastava.

Ele começou a caminhar comigo pelas ruas desertas, e o bar atrás de nós parecia cada vez mais distante. Os saltos do meu sapato batiam fracos contra o chão, e a cidade parecia girar ao nosso redor.

Eu queria pedir pra ele me deixar em paz, queria dizer que preferia deitar no chão do que ir com ele. Mas minha boca não dizia mais nada. O mundo girava, meu coração apertava, e o gosto de culpa e álcool era tudo que restava na minha boca.

— Cadê o Benjamín? — perguntei, com a voz baixa, quase inaudível.

Trevor hesitou por meio segundo antes de responder:

— Ele já vem, vai te encontrar no apartamento de vocês.

Assenti devagar, sentindo o mundo girar ao meu redor, e deixei minha cabeça pesar contra o ombro de Trevor. Cada passo que ele dava parecia afundar mais meu corpo como se minha consciência estivesse presa sob um cobertor pesado e molhado.

O apartamento onde eu morava com Benjamín não ficava longe. Estávamos na área estudantil de Tijuana, e as ruas até lá não deviam levar mais que quinze minutos.

Mas havia algo estranho. Um aperto no peito. Um pressentimento ruim que eu não conseguia explicar.

Fechei os olhos por alguns minutos. As luzes da cidade passavam por minhas pálpebras como vultos distorcidos. Quando os abri de novo, percebi que já estávamos subindo as escadas do prédio. Meu corpo já não estava respondendo tanto quanto na hora que saímos do bar, minhas pernas se arrastavam ainda mais e a única coisa que me impedia de desabar era o braço de Trevor me segurando firme, talvez forte demais.

Benjamín... — chamei, minha voz saiu baixa, embargada, quase infantil.

O som que veio em resposta não era o dele.

Relaxa, eu tô aqui — disse Trevor, a voz suave demais, como quem quer acalmar uma criança. Mas não era Benjamín. Eu sabia. Meu coração sabia. Aquilo não era o abraço seguro do Martínez. Era estranho e estava me deixando desconfortável.

Paramos diante da porta do apartamento. O cheiro da madeira, do corredor úmido e das lembranças que viviam ali me atingiram de uma só vez.

— Você está com as chaves, Ángel? — perguntou, e eu tive que pensar por um momento antes de lembrar.

— Tem uma... embaixo do tapete — murmurei, com a cabeça indo para frente.

Vi quando ele se abaixou, pegou a chave, abriu a porta com agilidade. Não falou mais nada. Apenas me guiou para dentro,o apartamento estava escuro e a única luz vinha da rua, projetando sombras pálidas sobre os móveis.

Trevor fechou a porta atrás de si com um estalo. Então senti seu braço apertar com mais força em volta da minha cintura, não mais com o cuidado de antes... agora havia algo possessivo, como se eu fosse uma coisa que ele precisava manter perto.

Benjamín... Benjamín, cadê você, por favor... — minha voz saiu fraca, enrolada, como se minha boca não soubesse mas formar palavras. Soavam como uma criança assustada.

Meus braços caíram ao lado do corpo quando senti mãos me levantarem com facilidade. Fui erguida no colo, e meu rosto caiu contra um peito desconhecido.

Tudo em mim estava mole. Morto de cansaço, dor e álcool.

O mundo rodava. A cabeça pesava como se estivesse cheia de areia. As pálpebras caiam, e abrir os olhos doía. Mesmo assim, forcei um pouco a visão. Tudo estava embaçado. Uma mancha que parecia um corredor. Depois outra, um quarto e depois um borrão colorido. Acho que era um porta-retrato sobre a cômoda. Eu e Benjamín. Sorrisos de quando tudo ainda era começo, quando ainda tínhamos esperança de que daria certo. Meu peito apertou.

Benjamín — sussurrei, com a voz se apagando aos poucos.

Mas não houve resposta.

Senti meu corpo ser deitado com cuidado na cama. O lençol frio tocou minha pele, mas eu não conseguia me mexer. Nem sequer reagir. Tentei erguer a mão, mas ela tremia tanto que não passou do meu peito.

Meu coração começou a bater mais rápido, sem saber explicar porquê.

E então senti o colchão afundar ao meu lado.

A respiração dele perto demais.

Um dedo afastando uma mecha do meu cabelo, com um carinho que não era dele.

— Você é muito linda... — alguém disse, tão perto que senti o calor da fala no meu rosto.

Mas a voz não era de Benjamín.

Era uma voz estranha, e ainda assim conhecida.
Falsa.
Perigosa.

Benjamín — sussurrei, a voz arrastada, falha, escapando por entre os lábios entreabertos.

A escuridão do quarto era entrecortada apenas pela luz fraca que vinha da rua, projetando sombras fantasmas pelas paredes. Meus olhos pesavam mais do que minhas próprias emoções e isso dizia muito. Tudo girava, e mesmo assim, a única coisa que eu queria ver era Benjamín.

Mas ao invés disso, senti uma boca estranha se encostar no meu pescoço. Os lábios eram úmidos demais, impacientes demais. Diferente dos beijos de Benjamín,  que começavam lentos e provocativos mas ao mesmo tempo carregados de amor. Aquilo ali não tinha nada de amoroso. Era apenas... invasivo.

Um arrepio subiu pelas minhas costas, mas não era o tipo de arrepio bom. Era um arrepio que gelava a alma. Meus sentidos tentavam despertar, mas não conseguiam. O beijo que se seguiu pela minha clavícula não tinha o gosto doce do Benjamín, nem o toque cuidadoso dele... era ruim e nojento.

Tentei erguer os braços, empurrar, fazer alguma coisa. Mas só consegui gemer fraco, com a voz embargada.

Benjamín... por favor... — sussurrei, como uma criança perdida, implorando por um porto seguro. Mas a resposta foi um sussurro que não reconheci:

— Shh... agora sou eu quem vai cuidar de você. — A voz era baixa, rouca... e errada.

Senti um beijo em minha boca. Seus lábios eram estranhos. Duros. Faltava doçura, faltava amor, faltava tudo. Um gosto desconhecido invadiu minha língua, e minha mente quis gritar, mas meu corpo não reagia.

Aquele beijo Não tinha gosto de cigarro e menta, como os beijos de Benjamín. Tinha gosto de medo.

Por um instante, a imagem do Martínez invadiu minha mente — ele acariciando meu rosto com cuidado, dizendo que me amava mesmo quando eu não merecia. Beijos lentos. Olhos castanhos me olhando como se eu fosse o mundo.

Mas a memória se desfez no mesmo segundo em que senti um puxão brusco no pescoço.

Meu colar. A raposa dourada que Benjamín me deu quando me fez prometer que nunca quebraria seu coração.

Senti o metal arranhar minha pele quando ele o arrancou com brutalidade. E, junto com o colar, foi como se um fio de lucidez também se rompesse dentro de mim.

Meus olhos começaram a pesar. Tudo girava.

Foi então que senti uma mão invasiva deslizar por dentro da minha blusa. Tentei chamar por Benjamín. Tentei reagir.

Mas antes que qualquer som escapasse da minha boca... eu apaguei.

...

Oi gente voltei com capítulo novo e esse é especial pq hj é meu aniversário e mesmo que o dia já está acabando eu queria agradecer vcs por estarem comigo nesse dia especial e então tá aí o capítulo

Então vamos aos surtos?

Primeiro nem preciso comentar da discussão, mãe e filho no ponto de vista do Benjamín? Então vamos passar

Benjamín jogando a real pra Isabella, finalmente 🙌🏻 tomara que ela acorde e pare de correr atrás dele

O Benji descobrindo sobre o bebê dele e da Ángel e o dejavu que ele teve, coitado 🥺

E logo em seguida eles brigando novamente e gritando um com o outro eu não aguento e ainda pra piorar o Benji lembrando dos momentos importantes ao lado da Ángel, aí esses dois não dão um dia de paz

E novamente temos uma figura misteriosa dando um belo tapa de realidade no Benjamín, quem vcs acham que é 👀

E sobre esse final não vou nem comentar nada

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