- capitulo único

18 3 0
                                        

Ninguém para.

Ninguém se dá ao luxo de frear metros antes para ajudar uma pobre alma. Estava chovendo a não sei quanto tempo, minhas roupas completamente encharcadas. Levando apenas uma mala não tão pesada e pouco dinheiro. Deixado a beira da estrada numa noite sem fim, carros e caminhões passam tão rápido a ponto de espirrar mais água em mim, como se eu não estivesse molhado o suficiente. 

Mesmo no breu, eu era visível, uma silhueta preta ao lado da rodovia com a mão esticada esperando alguém. Na verdade eu era invisível sim mas ninguém pararia. Demorei a perceber que minha esperança era ingênua demais. Quem ajudaria alguém na estrada numa noite chuvosa? Era perigoso demais. E ajudar um desconhecido suspeito que talvez fizesse algo ruim a si, era pior do que ajudar um desconhecido sem segundas intenções que realmente precisa de ajuda.

Decidi chegar à cidade mais próxima andando mesmo. Com o nariz escorrendo e um frio de outro mundo, fui andando e pensando que não poderia culpar nenhum dos motoristas. Nenhum deles tinha culpa da minha situação, muito menos obrigação de me ajudar. Eu apenas esperava uma rara prova de bondade da humanidade. Muito tempo depois, já estava em dúvida entre tirar o casaco molhado ou mantê-lo, qual seria menos maléfico para o resfriado que eu sabia que teria no dia seguinte, quando escutei um barulho alto.

Olhando para trás percebi um caminhão preto parando aos pouquinhos atrás de mim, me virei para ter certeza de que aquilo era a ajuda que eu pedia horas atrás, ou se o motorista havia apenas saído para mijar ou algo nesse sentido justo ali, apenas para me torturar com seu veículo e ar condicionado. Mas ninguém desceu. Interpretei como um convite e apareci em seu campo de visão pela janela alta.

Um homem jovem com um boné e apenas uma jaqueta grossa olhava para a estrada. Ele parecia tranquilo, o máximo que se importava era com a pista molhada. Ele abaixou o vidro e virou o rosto pra mim.

- Está perdido? - A voz era abafada pela chuva.

- Estou. Está indo para a próxima cidade?

 - Na verdade não. Mas se quiser uma carona, te deixo lá.

Com apenas uma rápida afirmação com a cabeça, o homem se esticou e abriu a porta do passageiro para mim.

Subi pelo degrau e molhando o banco, entrei no caminhão. A janela foi fechada e o ar-condicionado estava ligado. Senti um cheiro forte mas não consegui identificar o que era. Poderia ser falta de delicadeza, mas o cheiro não era nada agradável. O rádio estava num volume mínimo e chiando, dessintonizado. Notei vários objetos jogados ou presos pelos cantos. Parecia proposital para justificar o cheiro ruim, a desorganização. O homem notou minha análise e mas não pareceu se importar, de fato era mal educado da minha parte, mas ele parecia confortável demais. Parei de julgar alguém que eu não conhecia e me prontifiquei a conversar.

- Obrigado. Sou Jacob. - E minha mão úmida ficou estendida em sua direção até ele me responder. Provavelmente agora começariam as perguntas. Decidi me apresentar antes, pois mostrar boa vontade é importante para se dar bem, e ser simpático é o mínimo quando é você que está sendo ajudado.

- Juyeon - Ainda com os olhos para a pista. Guardei a minha mão, obviamente ele não podia desfocar da estrada molhada. Me senti meio idiota mas notei que ele não falou mais nada, o que era estranho. Ele não deveria perguntar todo o meu histórico para saber se eu não sou perigoso?

- É caminhoneiro?

- Sou. E você?

- Sou formando de Marketing. - Aquela aura estava estranha demais.

O vi aumentar o ar condicionado e em vez de me sentir mais quente, um calafrio subiu pelo meu corpo. Talvez eu estivesse mais gelado do que pensava estar. A roupa grudada em minha pele demoraria a secar, mas parecia que levaria um bom tempo até chegarmos até a cidade mais próxima. O cheiro forte parecia ganhar forma em minha mente, parecia carne passada talvez com um pouco de desodorante e suor do qual o desodorante não deu conta. Era um cheiro muito específico, mas eu não queria me importar com isso. Nem poderia, dadas as minhas condições.

Another Lonely NightWhere stories live. Discover now