Capítulo Único

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Outra vez. O despertar no meio da noite, a agitação injustificada e o pânico pairando sobre mim, tal qual manta mórbida.

Porque sempre a mesma coisa? Porque comigo? As lágrimas ameaçaram deslizar para fora dos limites de meus olhos semicerrados, a mente cansada e o corpo despido de energia.

A risada rouca soou no silêncio da madrugada, despertando-me um pouco mais. O som parecera próximo demais para tranquilizar de imediato os batimentos erráticos que vibravam por todo meu corpo. Que, aliás, estava frio por — provavelmente — ter chutado a coberta para fora da cama, como ocorria tantas outras vezes durante os longos pesadelos. Meus músculos pareciam pesar toneladas quando os tentei mover, lutando para poder procurar o tecido alcochoado que me garantiria calor, o sentimento da paralisia tomando espaço por sob minha pele em formato de calafrios longos, agitando ainda mais a pulsação elevada. Agora, até a respiração se inquietava, a sensação de olhos a me observarem de algum ponto — próximo, próximo demais — do cômodo tornando-se inquietante ao passar dos minutos.

A vista sonolenta, movendo suficiente para meramente registrar o azul neon do relógio digital marcando exatas 03 AM. Precisava mover qualquer parte do corpo. Qualquer músculo... Porém cada tentativa parecia em vão. Minutos foram passando, o arrastar lento dos segundos, enquanto observava uma sombra tomando forma diferente no canto, bem no encontro entre as paredes; o riso voltava mais vívido, conforme uma figura alta e humanoide separava-se da escuridão, os calafrios ainda percorrendo meu corpo conforme a gelidez no ar parecia infinita. A escuridão do quarto estava cada minuto a suforcar-me mais, o medo agarrando minha consciência em suas garras afiadas.

Tentei gritar, mas minha boca não abria e a voz soava tão pateticamente fraca que mal arranhava a garganta. Esta que apertava a cada engolida seca forçada por mim, numa tentativa de amenizar algo. Qualquer coisa. Não havia ninguém além de mim em todo o apartamento, o que apenas piorava o desespero latente gritando no canto de minha mente. A figura parecia arrastar seus passos em direção à cama, deixando que sua silhueta ofuscasse a pouca luz provinda do luar e as pálidas luzes da rua; foi então que notei uma contorção estranha na extremidade do quer que fosse que me assombrava há tantos anos: algo semelhante a forma grotesca de chifres.

As lágrimas já rolavam por sobre um lado da minha têmpora e a ponte do nariz, o som augorento dos passos lentos, pesados, ressoando no silêncio. Uma vez mais busquei forçar algum músculo a responder o comando desesperado de meu cérebro, os olhos passando por sobra a numeração azulada novamente. 03:03 AM. Voltei a encarar a silhueta que traçava os passos finais para ficar ao pé de minha cama, algum som patético imitando o desespero de um quase ganido, resoou da minha garganta em face do entendimento que daquela vez eu não escaparia. Somente quando dedos inumanamente gélidos fecham em meu tornozelo, sou capaz de flexionar um tanto a panturrilha; porém a movimentação fora suficiente.

Meu corpo impulsiona-se à frente com força, o ar, outrora rareado, saindo em lufadas violentas por entre meus lábios partidos, a mão desesperada buscando o celular largado próximo ao relógio digital, rapidamente desbloqueando a tela para ter alguma fonte imediata de luz. Recolho as pernas até abraçá-las junto ao peito com toda a força que consegui invocar, esperando apenas mais um pouco até poder levantar e acender as luzes do quarto. Mesmo ainda tremulando por demais para dizer que estava firme, forcei os passos até a parede oposta, ao lado da porta, a mão batendo com força por sobre o interruptor e a arrastando para cima em guisa de ativá-lo. Porém nada ocorreu. A luminosidade súbita esperada, não viera, mesmo que eu tenha voltado a empurrar o botão em direções opostas mais algumas vezes antes de me convencer.

Alguma queda de energia? Não. Não poderia ser. Não hoje, de todos os dias. Me apressei até o banheiro, a porta entreaberta facilitando quando empurrei o braço para direita e empurrei os dedos com força por sobre o interruptor. A luz de um branco gelo tomou minha visão, deixando-me momentaneamente entre alívio e desorientação; após mais alguns minutos a acalmar os ânimos, retorno para cama, focando a lanterna do celular naquele canto específico do quarto, encarando-o apenas no caso de precisar de outra prova racional de que fora tudo apenas um pesadelo. Nada estava lá, o Puff macio sendo o único objeto tomando o lugar junto de uma luminária de chão. Olho para o relógio: 3:30 AM.

Minha mente alerta, olhos bem abertos e a ansiedade, demoraram em me deixar relaxar. Mesmo que os músculos doloridos e a enxaqueca que se formava implorassem a cooperação geral do corpo. Fazendo uso da garrafinha com água que sempre deixo ao lado da cama, logo engulo um analgésico para a dor e me arrumo em uma posição confortável, abrigando meu corpo por sob a coberta macia. Somente consegui conciliar o sono perto das 05h, o céu lá fora já apresentando algum sinal da claridade que logo mais inundaria tudo. O sono iniciará-se com tranquilidade, o escuro cálido dos que odeiam sonhos ou pesadelos sendo meu conforto; até o momento onde entreabri os olhos de súbito para encontrar o quarto mergulhado outra vez na escuridão suavemente beijada pela luz do luar e a palidez das luzes na rua. Olhei rapidamente para o relógio, que como uma zombaria sádica, marcava às 03 AM.

Antes que pudesse ao menos pensar em mover o corpo da forma que fosse, um estalo alto soou em meio ao silêncio ensurdecedor, juntamente da sensação de afundamento abaixo de mim de forma estranha. O material espumoso envolto em algodão, parecendo disolver em um buraco abaixo da cama, calor emanava dali, rapidamente esquentando mais e mais, deixando-me em agonia a agarrar-me a parte ainda inteira do que outrora fora meu colchão. Fora quando mãos firmes prenderam-se em princípio à minhas pernas, escalando-me enquanto uma voz bonita, grave e rouca murmurava lamentoso para que eu o ajudasse. Para que não o deixasse só.

Um grito alto ecoou, oriundo de minha garganta, lágrimas tomando conta dos meus olhos, a denunciar o choro apavorado. Faziam tantos anos desde a última vez que a figura assumira qualquer papel assim em meus pesadelos. Porque agora? Comecei a implorar por ajuda, até que o tom de outrora assumira um ar debochado, o mesmo riso soando mais próximo à mim, a sensação de braços fechados firmes ao redor de minha cintura apenas impulsionando meus gritos chorosos.

"Quanta tolice... Ninguém vai te ouvir. Eles não irão te ajudar." Mais um puxão firme, minhas pernas debatendo-se freneticamente no ar quente abaixo de mim, sem dar ouvidos àquela voz enquanto ainda chamava em vão por ajuda. "Você vai vir comigo!"

E com a sentença, mais um puxão, dessa vez eu me debati ainda mais ao sentir o peso extra fazendo com que meu corpo cedesse. Eu estava a cair e o medo estava em níveis além de qualquer explicação sã. Com um sacudir firme, um arfar quase engasgado e uma tosse seca,  senti o peso imaginário sair de cima de mim, os olhos abrindo outra vez para o quarto escuro. Como um hábito estúpido, olhei as horas para constatar serem 04 AM e suspirei, passando as mãos pelo rosto e assanhando os cabelos em seguida. Era realmente pedir demais, ter algumas horas tranquilas de sono? Desistindo, sai da cama e fui para o banheiro, visando tomar um banho morninho para melhorar o humor.

O fiz sem problemas, quase esquecendo todo o aborrecimento de minha perturbação noturna. Anos de tratamento não haviam mandado tais embora, na atual idade que possuia, acreditava que já havia exaurido todas as opções disponíveis para me livrar daquela sina maldita. Distraidamente, fazia o caminho para fora do cômodo quando minha visão escaneou um par de pés no limite do batente da porta, meio envolto por luz e escuridão, igualmente. Os membros estavam sujos, como se houvessem sido mergulhados em um líquido espesso e escuro. Muito escuro. Manchando-lhe a pele e as roupas de um branco puro demais em contraste à tudo; meu corpo havia paralisado, somente a cabeça movendo para acompanhar o olhar que aos poucos abarcou a figura alta. Tudo em mim tremia sem controle, os olhos lacrimejando outra vez. Lá estava a figura, sem mais mistérios, da silhueta de passos pesados e chifres na cabeça. Uma mão grande de longos dedos, extendeu-se para mim, igualmente sujas daquela mesma viscosidade, um rosto surrealmente belo abarcava um sorriso diabólico e olhos azuis que pareciam brilhar numa escuridão sem fim.

Como, então, olhos tão puros poderiam pertencer à algo tão profano? O riso rouco que gerava calafrios em meu corpo, soou baixo, o ser entortando um tanto a cabeça para o lado ao me observar com uma diversão que estava à galáxias de minha compreensão.

"Se quer deu-se a oportunidade de questionar o porquê de eu ter me tornado o que sou? Nada que hoje é profano, foi sempre assim."

Respondeu, fazendo meus olhos arregalarem-se mais, a respiração perder todo e qualquer ritmo enquanto o tremor das pernas finalmente as fez ceder e acabei por cair ao chão, incapaz de desviar o olhar daquele ciano repleto de contradição. O ser agachou-se à minha frente, oferecendo um sorriso mais largo que expôs uma fileira de dentes de caninos duplos afiados, a mão novamente a estender-se na minha direção. Foi quando entendi. Não era um convite, era uma ordem cortês; não me restavam escolhas, nunca se quer existiram. Teria que o acompanhar, sendo qual fosse meu destino, se um fim ou continuação desconhecida.

Fim.

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⏰ Last updated: Nov 01, 2020 ⏰

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