Capítulo 1

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O trigo foi agraciado com tudo o que precisava para crescer bem e aos montes o ano inteiro, mas quando chegou a época da colheita, não podíamos dizer que o rebanho teve a mesma sorte.

— Que desperdício...

Tampei o nariz assim que o cheiro subiu. Estava tão forte que me dava náuseas.

— Há dias essas três desapareceram. Quem diria que iríamos encontrar elas assim — comentei com horror ao ver o estado das ovelhas.

Mortas há pelo menos dois dias, já em decomposição. No pescoço da única que ainda permanecia no chão, havia a marca de uma grande mordida e garras enormes desenhavam caminhos putrefatos pelo corpo.

— Vamos, Shouyou, me ajude com esta aqui.

O jovem mestre Lev cobriu a última com o pano grosso.

O corpo estava duro. Precisar pegar naquilo era quase tão desagradável quanto sentir o cheiro. Mas não podíamos deixar elas jogadas ali, apodrecendo perto do maior poço da fazenda. Em pouco tempo o sangue, a carne e os vermes poderiam contaminar a melhor fonte de água para a casa principal.

— No três. Um, do...

Lev levantou, antes que eu pudesse fazer força, e acabei me desequilibrando, caindo diretamente sobre os galhos grossos de um dos vários salgueiros antigos que nos rodeavam.

— Ops, foi sem querer!

Ele deixou a ovelha no chão, indo até a minha direção. Estendeu a mão para mim para que eu usasse de apoio. Lev precisou abaixar um pouco para me alcançar.

— Por favor, seja mais atento, jovem mestre. Eu não sou tão forte quanto você.

Peguei a mão dele, usando como apoio para levantar do chão.

— Desculpa, Shouyou.

Quando ficávamos de pé lado a lado, podia ver quão injusta era a nossa diferença de alturas. Haiba Lev, o filho dos donos da fazenda, era alto e forte. Tinha o porte ideal para herdar os deveres e funções do senhor de sua família. Seu único defeito era que conseguia ser um pouco descuidado para os trabalhos braçais e geralmente estava com a cabeça nas nuvens.

Para tentar me equiparar a ele e retribuir pelo menos um pouco da bondade daqueles que acolheram a mim e minha irmã mais nova quando minha mãe, já viúva, acabou por falecer, sempre me esforcei além dos limites. Mas mesmo que me esforçasse muito, ainda era difícil competir com a força de alguém como Lev.

Como Lev tinha a força e eu sempre conseguia me concentrar no trabalho, o honrado senhor Haiba deixou nós dois encarregados de cuidar do rebanho naquele ano. Mas estávamos falhando miseravelmente. Por mais que eu fosse bastante concentrado no trabalho, não conseguia trazer o foco de Lev para as obrigações, e não conseguia acompanhar a força dele. Definitivamente não estávamos formando uma boa dupla trabalhando juntos, mas isso não era algo de todo ruim. A maior parte das tardes eram divertidas, se não contássemos com alguns poucos acidentes, como perder a atenção de algumas das ovelhas por uns instantes.

O problema de verdade era quando somávamos esses poucos acidentes com os acontecimentos incomuns daquele ano.

— Vamos tentar outra vez — falei, voltando a me aproximar da ovelha. Quando Lev estava posicionado no lado oposto, comecei a contagem de novo. — Um, dois, três!

Dessa vez conseguimos levantar no tempo certo. Com muito esforço e lutando para nos equilibrarmos com todo aquele peso, desviando das raízes grossas no chão, seguimos até a pequena carroça. Jogamos o corpo sobre as outras duas. Lev fechou a parte traseira, prendendo bem para que não se soltasse enquanto estivéssemos no caminho de volta para a casa principal. Deixaríamos os corpos na parte de trás do celeiro até que o pai de Lev voltasse.

Big bad wolfWhere stories live. Discover now