O trigo foi agraciado com tudo o que precisava para crescer bem e aos montes o ano inteiro, mas quando chegou a época da colheita, não podíamos dizer que o rebanho teve a mesma sorte.
— Que desperdício...
Tampei o nariz assim que o cheiro subiu. Estava tão forte que me dava náuseas.
— Há dias essas três desapareceram. Quem diria que iríamos encontrar elas assim — comentei com horror ao ver o estado das ovelhas.
Mortas há pelo menos dois dias, já em decomposição. No pescoço da única que ainda permanecia no chão, havia a marca de uma grande mordida e garras enormes desenhavam caminhos putrefatos pelo corpo.
— Vamos, Shouyou, me ajude com esta aqui.
O jovem mestre Lev cobriu a última com o pano grosso.
O corpo estava duro. Precisar pegar naquilo era quase tão desagradável quanto sentir o cheiro. Mas não podíamos deixar elas jogadas ali, apodrecendo perto do maior poço da fazenda. Em pouco tempo o sangue, a carne e os vermes poderiam contaminar a melhor fonte de água para a casa principal.
— No três. Um, do...
Lev levantou, antes que eu pudesse fazer força, e acabei me desequilibrando, caindo diretamente sobre os galhos grossos de um dos vários salgueiros antigos que nos rodeavam.
— Ops, foi sem querer!
Ele deixou a ovelha no chão, indo até a minha direção. Estendeu a mão para mim para que eu usasse de apoio. Lev precisou abaixar um pouco para me alcançar.
— Por favor, seja mais atento, jovem mestre. Eu não sou tão forte quanto você.
Peguei a mão dele, usando como apoio para levantar do chão.
— Desculpa, Shouyou.
Quando ficávamos de pé lado a lado, podia ver quão injusta era a nossa diferença de alturas. Haiba Lev, o filho dos donos da fazenda, era alto e forte. Tinha o porte ideal para herdar os deveres e funções do senhor de sua família. Seu único defeito era que conseguia ser um pouco descuidado para os trabalhos braçais e geralmente estava com a cabeça nas nuvens.
Para tentar me equiparar a ele e retribuir pelo menos um pouco da bondade daqueles que acolheram a mim e minha irmã mais nova quando minha mãe, já viúva, acabou por falecer, sempre me esforcei além dos limites. Mas mesmo que me esforçasse muito, ainda era difícil competir com a força de alguém como Lev.
Como Lev tinha a força e eu sempre conseguia me concentrar no trabalho, o honrado senhor Haiba deixou nós dois encarregados de cuidar do rebanho naquele ano. Mas estávamos falhando miseravelmente. Por mais que eu fosse bastante concentrado no trabalho, não conseguia trazer o foco de Lev para as obrigações, e não conseguia acompanhar a força dele. Definitivamente não estávamos formando uma boa dupla trabalhando juntos, mas isso não era algo de todo ruim. A maior parte das tardes eram divertidas, se não contássemos com alguns poucos acidentes, como perder a atenção de algumas das ovelhas por uns instantes.
O problema de verdade era quando somávamos esses poucos acidentes com os acontecimentos incomuns daquele ano.
— Vamos tentar outra vez — falei, voltando a me aproximar da ovelha. Quando Lev estava posicionado no lado oposto, comecei a contagem de novo. — Um, dois, três!
Dessa vez conseguimos levantar no tempo certo. Com muito esforço e lutando para nos equilibrarmos com todo aquele peso, desviando das raízes grossas no chão, seguimos até a pequena carroça. Jogamos o corpo sobre as outras duas. Lev fechou a parte traseira, prendendo bem para que não se soltasse enquanto estivéssemos no caminho de volta para a casa principal. Deixaríamos os corpos na parte de trás do celeiro até que o pai de Lev voltasse.
YOU ARE READING
Big bad wolf
FanfictionDepois que foi acolhido como servo pela família Haiba, os anos foram bem generosos para Hinata Shouyou. Seu único desejo era conseguir retribuir a mesma bondade para seus benfeitores. Mas quando a criatura começou a se aproximar da fazenda, trazendo...
