SOU

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I.


sou entretecida de barro cal e sonho

tenho alma de cristal

parto-me em mil bocados e já lhes perdi a conta

aos cacos chamo-lhes jóias

guardo-os em cestos de empreita que me lembram as avós.

acredito na alegria

espero que sempre regresse

tiro a sina pelo olhar

sei que o mundo é dos simples

sei falar com os bichos.

não tenho jeito de mãos mas tricoto os silêncios em romeiras pró inverno.

abro as cestas de empreita

Tiro os cacos

pra polir a lua nova

iridescer os crepúsculos

reverberar o trovão.

pinto-me com os pigmentos das ervas diluídos em água de mar.

sei que o sol nos governa

que à terra devemos tributo

à paixão a energia

ao amor a germinação



II.


reinvento o quotidiano, sou uma transgressora em flanância permanente.

vivo o meu espaço, desenho o meu tempo, apodero-me delinquentemente do que cheiro, saboreio, olho e oiço, sem tocar.

esta adição da não-rotina contemplativa faz-me figurante de múltiplos palcos em visão poética da vida e em embriaguez sem retorno.

não acompanho ninguém, não deixo traços de presença...



III.


sou lasca de cal

esboroado de xisto

seixo do rio

decalque de folha

ninho de pássaro

gemido de lince

bicho—de—conta

chape chape de água

em fusão de amálgama perfeita nesta matriz

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