Alto Santuário das Letras - Hjalmar - Hildergard
A manhã já nascera a algum tempo, mas Elael só via o branco. Aquele tapete interminável de nuvens, como flocos de algodão recém colhido.
Encarapitada no alto dos Picos Gélidos de Gavle a cidade de Hjalmar estava a 6 dias de caminhada montanha acima, e o Alto Santuário era seu coração pulsante. Num dia ensolarado você conseguiria enxergar todo o terreno abaixo indo daqui até as Montanhas Intransponíveis, várias semanas de viagem a sul, que corta a entrada do continente sul quase que de ponta a ponta. O Corredor dos Ventos mal era visto desta posição, dando a impressão de que as Terras da Praga estavam isoladas do mundo civilizado. Ledo engano.
A mácula já havia atravessado. Tanto as cordilheiras montanhosas quanto os planos de existência. Uma região negra, retorcida e morta bem no meio da face norte das montanhas - bem visível daquela posição - lembrava a todos no santuário que saber sem ação é história. E da história somos apenas testemunhas.
...
Elael molhou seu rosto despejando um pouco de água de sua ânfora de cerâmica e secou com a manga de seu hábito. Sua cela era simples e confortável: paredes caiadas de branco que refletiam o máximo de luz ao longo do dia e traziam uma sensação pacífica durante a noite, uma cama com colchão de palha, uma escrivaninha gasta, papel cru e tinta a vontade e muitos, mas muitos travesseiros pelo chão. Desde sua chegada aqui suas crises haviam diminuído, mas ainda aconteciam de tempos em tempos.
- Eu gostaria de ser testemunha da história, mas não assim, não a esse preço.
Abatido, Elael deixa sua cela e caminha rumo ao Salão do Tempo, que tem sido seu destino por todos os dias na última década. Os corredores bem iluminados por ameias angulares denunciam o melhor da maçonaria anã. O encaixe das pedras é perfeito e os padrões são quase hipnóticos.
"A beleza do quadro está na pincelada que você não vê", pensa absorto enquanto caminha.
Percorrendo um caminho tortuoso, que rouba dele alguns minutos a mais do que o necessário em cada viagem, que evita as salas, corredores e pontos do templo em que possa trombar com alguma coisa reflexiva, o elfo sacerdote tem apenas o ecoar de seus passos como companhia. Primeiro porque ver seu reflexo sempre iniciava suas crises e com elas, as lembranças. Segundo que ele odiava seu próprio reflexo. Era um rosto que não reconhecia, de uma vida que não era a sua com marcas que não havia feito.
Memórias de algo que poderia ter sido, mas que ele se lembra como se fosse.
Calabouço do Desespero - Castelo de Ferro - Gwenaël - Avillon
Um balde de água fria como a morte arrancou K'ali do conforto da inconsciência.
Já não se lembrava como havia parado naquele lugar miserável. Ele tinha absoluta certeza que havia um bom pedaço faltante nesta narrativa, roubado dele pelo arcano que o visitava diuturnamente. Suas escamas douradas já não traziam mais o brilho de outrora, sua visão doía cada vez que ele abria os olhos e ele sentia uma pontada de agonia a cada respiração. Estava numa viagem só de ida rumo a morte.
O lamento dos cativos foi quase enlouquecedor em seus primeiros dias mas hoje, com seu espírito alquebrado como estava, soava tão desimportante quanto o zumbido dos insetos. Ouviu os passos em sua direção e soube antes de acontecer que já era hora. Mais uma viagem rumo à violência, à loucura, à uma vida que não era sua.
O cheiro ferruginoso de sangue seco invadiu suas narinas e ele sentiu a cabeça arder mais uma vez. Estava começando. Trincou sua mandíbula reptiliana, já quase sem dentes, e deixou as imagens virem.
O grupo de cinco aventureiros, correndo contra o tempo. No coração deles, o remorso por ter varrido toda uma realidade pesava cada dia mais. Na cabeça dele a dúvida pairava, se tudo voltar ao "normal", o que acontece comigo? Eles se preparavam para uma tentativa, em alguma caverna perdida no meio das Montanhas Intransponíveis. No coração dele, apenas a ansiedade por entrar mais uma vez em combate, por banhar mais uma vez seus sentidos em sangue. A vida simples que ele sempre desejou.
...
K'ali espasmou.
O corpo arcou-se num último espasmo, processando dias de experiências em alguns instantes, e logo relaxou imóvel. O soturno arcano se aproximou do esguio dracuus e impôs suas mãos sobre cabeça do réptil e o murmúrio de algumas palavras mágicas foi a última coisa que ele disse com sua própria voz.
A partir de então, o tempo falava.
KAMU SEDANG MEMBACA
Vidas Emaranhadas - Crônicas das Eras
FantasiMemórias retornam a quem não as possui. O tempo se distorce e as mentes confundem-se, entrelaçando vidas e destinos numa busca esquecida.
