Capítulo 1 - O relógio agourento

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    Uma das coisas que Alisha mais odiava a respeito do Dia dos Namorados, era a reação das pessoas quando lhes dizia que odiava o Dia dos Namorados. Os outros sempre acabavam por observá-la como se a garota se encontrasse inábil de conseguir um parceiro para comemorar a data, ou fosse acrimônia demais para vivenciar uma história de amor. O que, de certo modo, não era mentira, ela ponderou; dando passos duros e largos, desejando sair da loja de bebidas o mais rápido possível. Utilizou a mão livre para abrir a porta, enquanto a outra segurava uma sacola plástica que escondia o jantar daquela noite – uma garrafa de vodca. Estava com um humor ainda pior do que já encontrava-se antes de adentrar a loja, e esse resultado era em consequência da conversa divertida que acabara de ter com a balconista.

    — Dia dos Namorados animado hoje? – a vendedora sorriu, depositando a bebida na sacola.

    — Na verdade não. – Alisha respondeu em um tom meio ríspido; contudo, na tentativa de suavizar, forçou um sorriso enquanto pegava a sacola e lhe entregava as últimas notas de dinheiro que possuía na carteira. Observou a balconista colocando o pagamento dentro do caixa que postava-se ao seu lado; ela não parecia ser muito mais velha que a cliente defronte, devia ter em torno de 25 anos, trajava um vestido preto sob o avental e a maquilagem graciosamente suave envolvia seus olhos oblíquos e acastanhados; não obstante, o carmesim escurecido e profundo do batom que cobria os lábios, destacava-se em sua face. Alisha refletiu que a jovem provavelmente iria a algum encontro após o expediente ou participaria de alguma festividade a fim de comemorar a data.

    — Não é muito fã desse dia? – a vendedora indagou, contando o trocado - o único dinheiro que iria sobrar do último pagamento que Alisha recebera antes ser demitida (o que era melhor que passar o Dia dos Namorados sozinha? Era passar o Dia dos Namorados sozinha e quebrada). Olhou para os lados, aspirando esquivar-se daquela conversa; apesar de não passar das 16 horas, a loja era desconcertantemente escura, as estantes que se estendiam pelas paredes e sustentavam as garrafas de bebida, eram de um forte tom pardo, dando um aspecto lúgubre ao ambiente.

    — Pode-se dizer assim. – rebateu distraidamente e com um timbre de voz tão baixo, que Alisha se perguntou se a outra havia lhe escutado. Aparentemente sim, porque assim que voltou seu olhar à moça com o intuito de pegar as moedas em sua mão, a mesma estava com as sobrancelhas retraídas e observando a cliente com uma expressão de compadecimento estampada no semblante. Resistindo à tentação de revirar os olhos, Alisha saiu da loja.

    Assim que pôs os pés sobre a calçada do exterior, seu corpo sentiu o choque da mudança de temperatura perpassar a espinha, fazendo com que a garota levasse os dedos levemente trêmulos ao zíper da jaqueta, e o fechasse até o pescoço. Aspirou o ar gélido que parecia adentrar sua garganta como pequenas e cortantes lascas de vidro, e pegou a garrafa que jazia na sacola, tomando um longo e deleitoso gole da bebida. Sentiu o líquido efervescente descer por sua goela, aquentando todo o seu torso novamente.

    Caminhou por entre as ruas, acumuladas de diversos casais a cada avenida. Apesar daquela alameda não ser comumente opulenta, todos pareciam ter sido diligentes no momento de escolher algo à cara-metade. A maioria dos passantes detinha um presente em mãos; particularmente, pelúcias apaixonadas e formosas caixas em formatos de corações acerejados, que decerto repousavam variados tipos de saborosos doces e chocolates. As mãos entrelaçadas nas de seus amores encontravam-se em contraste com as de Alisha, que transportavam apenas sua garrafa, e única companheira da noite.

    Exalou um suspiro exasperado enquanto passava por um restaurante rústico, porém cativante. A estrutura amarronzada do exterior do local concedia um aspecto amadeirado ao estabelecimento. Pequenas e lustrosas luzes alabastrinas penduradas em torno das pilastras douradas permitiam o misticismo do sarapintado das sombras. Através das vidraças, era possível observar as mesas distribuídas por todo o espaço do local, ornamentadas com grandiosos arranjos de rosas, e candeias para os casais se rejubilarem.

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⏰ Last updated: Apr 02, 2024 ⏰

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